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Sem esperança (o diamante maldito)

- Agora deixo-te sozinho por umas duas horas - disse-lhe o colega à porta da sala de vigilância - vou fazer a ronda na ala oeste, e confirmar nos verificadores electrónicos.
- Está bem...- respondeu mecânicamente, mas já falou sozinho porque o colega já abalara.
Encostou-se para trás na cadeira e desabotoou um pouco a camisa do seu uniforme de segurança. Ia ser uma longa noite, e pesava-lhe aquela atmosfera abafada e quente, resultado talvez, do funcionamento simultâneo de tantos aparelhómetros. 
Olhou os diferentes monitores das câmaras de vigilância, e viu o que via todas as noites, salas e corredores sem ninguém, deixados ao silêncio de quadros e estátuas. Uma luz suspeita, fê-lo deter-se numa das imagens, fez rodar a esfera de controlo da câmara respectiva, que varreu toda a sala, até se convencer de que fora um reflexo caprichoso no vidro dum dos expositores da sala de Pré-História. Mas reflexo de quê? Aquela sala ficava na direcção oposta ao trajecto seguido pelo outro segurança. Apanhou a lanterna do chão, com esforço, porque a sua barriga saliente atrapalhava os seus movimentos, e verificou o revólver que trazia à cintura. Vou? Não vou? Não foi, estava demasiado calor para andar a subir escadas e a caminhar como um condenado. 
Desapertou mais um botão da camisa e, sentiu que lhe cairia bem um café, mesmo com aquele calor. Já se preparava para desenroscar a tampa do têrmo do café, quando um novo reflexo luminoso, na mesma sala, o decidiu. Tinha de ir verificar. Devia prevenir o colega da sua ausência, mas estava tão convencido ou tão esperançado que não seria nada, que negligenciou esse precioso procedimento de rotina. Abandonou a sala de controlo e tomou o caminho da luz suspeita. Desceu as escadas até ao piso térreo e foi-se orientando pelas placas indicativas iluminadas. Estava quase a alcançá-la quando o alarme sonoro disparou. Em resposta, começou a correr, o alarme era na sala do Diamante. Desembainhou a arma enquanto corria, e destravou-a, mantendo-a apontada ao chão enquanto a luz da lanterna brilhava à altura da sua cabeça como um olho de ciclope. O foco de luz fixou o vulto do assaltante no momento em que este saía da sala do Diamante. Estava encapuçado e vestia um fato-de-treino preto Gritou-lhe em tom ameaçador, mas o homem começou a fugir à sua frente, pouco atemorizado. Perseguiu-o, correndo e desfiando ameaças e insultos. O tipo era ágil, subiu as escadas em saltos de gazela, e ele seguiu-o com esforço, sentindo o coração a bater com força dentro do seu peito, venceram corredores e salas e voltaram os dois a descer as escadas, com o ladrão a ganhar distância a cada passada. A meio dos degraus, parou, nunca seria capaz de apanhá-lo, levantou a arma e apontou acima daquela figura em corrida e disparou o que pretendia ser um tiro de aviso, mas o tiro saiu mais abaixo do que desejava, quase ao homem. A bala não encontrou carne ou tecidos no seu caminho, mas atingiu o objecto que ele carregava na mão, beliscou-o ao de leve na superfície vítrea e dúctil, com o mesmo grau de destruição duma pluma a pousar numa chapa de aço. Retomou a corrida por aquele meandro de salas e corredores, meio perdido, e então apercebeu-se de passos em corrida, não à sua frente, mas atrás de si, e descobriu aterrorizado que já não trazia vestido uma farda de segurança, mas um fato-de-treino, e nas suas mãos apenas carregava o diamante azul-escuro, e atrás dele continuava a ouvir os passos, do outro, (dele mesmo?), armado e furioso. Tentou largar o diamante, mas este parecia colado à palma das suas mãos, ouviu um novo tiro, que levantou pó no tecto do corredor quando a bala penetrou no estuque. Mesmo em desespero, descobriu uma das saídas do museu, uma porta de emergência de incêndio. Ofegante, apoiou todo o seu corpo sobre a barra laranja do fecho e abriu-a, saindo em corrida para o exterior com o seu tesouro indesejado. Fora dar à avenida marginal das traseiras do museu, cruzou-a em corrida, ofegante e com o coração aos saltos, um novo disparo fez uma bala passar perto de si, o seu perseguidor não perdia tempo com ameaças ou insultos, apenas disparava. Viu um bote com motor no cais, mas sentiu que seria atingido antes de o conseguir por a trabalhar, e sem mais alternativas, atirou-se à água do rio. Tinha confiança nos seus dotes de nadador, mas não teve oportunidade de os por à prova. Mal mergulhou nas águas, o diamante colado às suas mãos arrastou-o para o fundo do rio, como se pesasse uma tonelada.

Dicionário

                O “seu” dicionário não tinha muitas palavras, e entre estas, havia muitas quase virginais, intocadas, outras devassadas e p...