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O Fio (divagação de uma tarde de calor)

("Ariadne on Naxos" -



Temos o Fio, um meio, físico e simbólico, que liga, une, conduz, como o fio invisível que une todas as criaturas entre si e estas a um ente superior.


Numa ponta do fio, temos Teseu,. O Fio que Ariadne lhe dá, permite-lhe entrar no labirinto para procurar o monstro, o homem-touro, o rei e senhor dos sombrios domínios inferiores da morte e da crueldade. O Minotauro devora os jovens enviados por Atena, como a morte aniquila a vida em toda a sua beleza e esplendor. Na outra ponta, a dita Ariadne, que tece, mais do que desenrola, o fio condutor.


Baralhemos as cartas.


Ariadne faz as vezes de Aracne, a Aranha divina, a que tece o fio luminoso da teia que mantém unidos todos os seres e todos os planos do universo. Dir-se-á dela que, abandonada por Teseu na ilha de Naxos, se enforca, tal como Aracne diante da deusa Atena. A sua morte em Naxos, é uma morte iniciática, uma transformação, deixa de ser apenas uma mulher para se converter numa potência fecundadora, esposa de Dioniso. Mau-grado as conotações românticas ou trágicas que se teceram à volta do seu fim, a sua morte na forca parece-nos um acto de expiação por ter ajudado um mortal a regressar do caminho donde não há regresso.


Teseu é um herói solar da Ática, que ousa entrar no mundo inferior para abater o Minotauro com um só golpe. A um dramaturgo ou contista, seria tentador imaginar que Teseu deixa de pertencer ao mundo dos viventes a partir do instante em que penetra no labirinto, uma das Parcas cortaria o fio de Ariadne (e da vida), condenando-o a permanecer no mundo das trevas, e a metamorfosear-se aos poucos num monstro como aquele que viera matar. Mas a tradição não permite essas liberdades e Teseu regressa ao mundo da luz com a ajuda de Ariadne. Mas parece contaminado pelo sangue do Minotauro, pelo castigo ou tributo que pende sobre todos aqueles que visitaram o mundo inferior e saíram de lá com vida. Em Naxos, o seu fio da vida dá um nó sobre si mesmo, enforcando Ariadne, a tecedeira. E a sua vida a partir daí ostenta velas negras como o seu navio, e é um frágil conluio entre a morte e a vida, o heroísmo e a dissolução; com a morte do pai, a viagem ao Hades, o inferno grego, onde fica prisioneiro durante algum tempo, o regresso a Atenas e a sua morte na ilha de Ciros. A proeza que é descrita no labirinto da ilha de Creta, é repetida com mais ênfase, quando se conta que teria descido ao Hades para raptar Perséfone; e a sua morte ás mãos de Licomedes ("astuto como um lobo"), que o atira dum penhasco, assemelha-se a um sacrifício, talvez a esse Hades, o rei das sombras, que usava um manto de pele de lobo. 
Para finalizar, o herói Teseu a cair dum penhasco na ilha de Ciros, assemelha-se à de Egeu, o seu pai, que se suicida, atirando-se do alto dum rochedo, porque Teseu se esquecera de trocar as velas do seu navio para indicar que regressava são e salvo (uma vez mais, a expiação).

Dicionário

                O “seu” dicionário não tinha muitas palavras, e entre estas, havia muitas quase virginais, intocadas, outras devassadas e p...