INSTRUÇÕES:

Outros dados, e cartas, no final da página

Meandros


Vivera toda a vida na mesma aldeia, uma aldeia quase retirada do mundo, com ruas empedradas, um pelourinho e uma igreja de traça renascentista. Em volta da aldeia, quase a abraçá-la no seu curso líquido, corria um pequeno regato, que emagrecia ao calor do estio, mas que nunca secava, refrescando o ar com a sua música modorrenta. E o homem simples, que vivera toda a vida na mesma aldeia, deixou grafado no seu testamento que, quando morresse, desejava ser cremado e que as suas cinzas fossem largadas no riacho. E esse dia chegou, o seu corpo foi cremado lá longe, na capital do distrito, mas quando a urna com as cinzas chegou á aldeia, a coisa complicou-se. O autarca no poder lembrou-se que soltar as cinzas no regato deveria ser ilegal, algo como um atentado ao ambiente, a família recorreu em tribunal, o autarca contratou um advogado, a família procurou outro, e enquanto o processo se empapelava, os anos passaram, e um acordo parecia impossível. Á espera dum desenlace, a urna da discórdia foi colocada num depósito da autarquia, arrumada numa estante duma sala bafienta, ladeado por lucernas romanas e pedras de raio neolíticas. O tempo elidiu os motivos do conflito, e as razões dos beligerantes. Uns e outros desistiram da causa e de engordar advogados, e as cinzas do homem que vivera toda a vida na mesma aldeia viu trocadas as águas correntes do riacho onde queria ser dissolvido, pelas águas mortas da estupidez humana.

1 comentário:

Rainha

                Subiu lesto os parcos degraus que separavam o átrio do hotel do recinto sobrelevado onde haviam instalado a receção. Ab...