Instantâneo




Estava a guardar-surripiar as páginas dum livro emprestado com um scanner, quando sentiu a presença do filho pequeno ao pé de si. Despenteou-lhe os cabelos, para o chatear, mas a criança não ligou nenhuma, olhava para uma fotografia dum álbum de família aberto em cima da mesa, em especial, para uma velha fotografia tirada com uma Polaroid, a de uma criança ao colo do pai, encostados a um Vauxhall Victor, e atrás deles, um embondeiro gigantesco a erguer para o céu os seus ramos despidos e secos. Olhou também. O pai com óculos de aros grossos, calções e camisa aberta, e o eterno cigarrinho na sua mão. Naquela altura, ainda tinha algum cabelo, os dois, aliás, ainda tinham algum cabelo.
- Pai, a África fica muito longe?
- Sim, filho, muito longe...
(E funda, muito funda, rio de memórias e vivências a correr sob os sedimentos dos anos)
- E um dia podemos lá ir?
- Claro que sim, é fácil lá irmos!
(Pelo menos para mim, pensou ele, que nunca saí de lá).

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