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Hidrângea

A manhã nasceu enevoada, a palpitar de sugestões sensoriais. Ela alterou o seu percurso de todos os dias para cruzar o parque da cidade, adorou a experiência, ver os plátanos mais distantes embaciados pela névoa, os cisnes a vogar no lago de águas escuras, o chilrear dos pássaros na copa das árvores, mas do que mais gostou foi das hortênsias em flor, flores lindas em azul e rosa, ela afagou-as, sentiu o seu perfume e, como se isso não lhe bastasse, colheu um punhado dessas pequenas flores e meteu-as na boca, mastigando-as à procura dum sabor invulgar, poético, prodigioso como o sabor do Soma. Enquanto mascava aquela pasta vegetal, o veneno das flores contaminou rapidamente o seu organismo, fazendo-a deter-se com dores fortes no ventre e nos braços.

(É sabido, que as hortênsias têm intolerância á poetose).

3 comentários:

  1. Interessante José, a meu ver, estes três contos , embora aparentemente diversos, me passam um sentimento igual de aridez e desencanto. É algo apenas meu?

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  2. Temos dias como o bom tempo, a escrita e nós, mas também tem muito a ver (como muito bem sabe) com o tipo de estímulos com que trabalhamos para montar um texto ou uma história.

    Se passar uma tarde num centro comercial, esse ambiente pode sugerir material para um ou dois posts, mas se absorver detalhes num velório ou numa viagem de comboio (expressões, comentários, palavras perdidas), naturalmente que existirá alguma coerência formal ou psicológica com o que conseguir fazer disso.

    abraço

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  3. Sim, José. Obrigada pela explicação.

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Rainha

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