Hidrângea

A manhã nasceu enevoada, a palpitar de sugestões sensoriais. Ela alterou o seu percurso de todos os dias para cruzar o parque da cidade, adorou a experiência, ver os plátanos mais distantes embaciados pela névoa, os cisnes a vogar no lago de águas escuras, o chilrear dos pássaros na copa das árvores, mas do que mais gostou foi das hortênsias em flor, flores lindas em azul e rosa, ela afagou-as, sentiu o seu perfume e, como se isso não lhe bastasse, colheu um punhado dessas pequenas flores e meteu-as na boca, mastigando-as à procura dum sabor invulgar, poético, prodigioso como o sabor do Soma. Enquanto mascava aquela pasta vegetal, o veneno das flores contaminou rapidamente o seu organismo, fazendo-a deter-se com dores fortes no ventre e nos braços.

(É sabido, que as hortênsias têm intolerância á poetose).

Mensagens populares deste blogue

A viagem

Abril de 1918 - o caminho para uma Primavera de sangue