Do medo

Um homem simples vivia numa casa simples e modesta, dum só piso, com as divisões essenciais que deve ter a casa dum homem simples que vive só. Fora de portas, apenas chão cimentado a toda a volta, e um pequeno muro a envolver esta área, com apenas um metro de altura. 
Não precisava de mais, o homem simples. Ou, pelo menos, era isso que julgava na altura.Mas um dia, na sua ausência, tentaram assaltar a sua casa, e conseguiram, levando de lá meia-dúzia de pertences seus, sem valor de maior, mas que o ladrão, supondo que era só um, se sentiu na obrigação de levar para justificar o esforço e trabalho que isso lhe dera.
Aquele incidente menor, fortuito, assumiu as proporções de uma catástrofe para o homem simples que vivia só. O medo e o terror começaram a viver paredes-meias com ele, tornando pérfidos todos os sons e ruídos, e trocando o seu sono por uma vigília angustiada. O homem simples encomendou várias paletes de tijolo, ferro e cimento, e decidiu anular o seu medo.
Trabalhando sem descanso, aumentou a altura do muro que já existia, fechando com tijolos e cimento o pequeno portão de entrada. Como isso não lhe parecesse suficiente, construiu um segundo muro por dentro deste, e ainda, no espaço que restava, um terceiro entre este e as paredes da casa.
Quando finalizou a terceira muralha - três muralhas como na capital da soberba Atlântida - o homem permitiu-se, finalmente, descansar. Sentia-se finalmente seguro e protegido, o homem simples que vivia só. E foi enquanto descansava, que ele se lembrou que não tinha nada em casa para comer.

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