Crise no palácio

O rei majestoso, vestido com as suas roupas luxuosas, rodou com dificuldade a cabeça ornada com a coroa pesada, e fixou a rainha com um olhar furioso.
- És uma cabra! - insultou-a, elevando a voz acima do clamor da multidão e da música ruidosa - sempre te detestei, e estar aqui, ao teu lado, é-me mais insuportável do que ter as tenazes duma lagosta presas aos meus tomates.
A rainha riu-se, um risinho agudo, nervoso.
- Pobre diabo, és tão feio que proibiste os espelhos em tua casa, e tão burro que nem esperteza tens para te dares conta disso! Quando desenharam a tua árvore genealógica, usaram a figura duma moita seca, porque é disso que gosta um burro como tu, e toda a tua parentela de burros.
- Cabra, mil vezes cabra - contra-atacou o soberano, tentando não perder a compostura diante dos olhares da multidão - o único desgosto que te dá leres um jornal, é ver na secção da necrologia, as pessoas que já morreram sem te terem passado pela cama. Não admira que os teus filhos sejam tão diferentes uns dos outros, e que quando estão todos juntos, pareçam uma versão infantil das sessões da ONU.
- Falas por despeito, homenzinho ridículo e desprezível. Se me visse contigo numa ilha deserta, atirava-me aos tubarões, e tu não poderias tentar imitar-me, porque os tubarões não gostam de minhocas.
Aí, o rei perdeu de vez o seu auto-domínio e ergueu o ceptro real para atingir a real senhora, mas esta não ficou à espera da pancada, e atirou-se à sua digna figura com unhas e dentes. Enquanto o rei e a rainha do corso carnavalesco se agrediam no topo do carro alegórico, a multidão irrompia em aplausos, convencida de que era uma cena orquestrada para os divertir.

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