INSTRUÇÕES:

Outros dados, e cartas, no final da página

Instantâneo




Estava a guardar-surripiar as páginas dum livro emprestado com um scanner, quando sentiu a presença do filho pequeno ao pé de si. Despenteou-lhe os cabelos, para o chatear, mas a criança não ligou nenhuma, olhava para uma fotografia dum álbum de família aberto em cima da mesa, em especial, para uma velha fotografia tirada com uma Polaroid, a de uma criança ao colo do pai, encostados a um Vauxhall Victor, e atrás deles, um embondeiro gigantesco a erguer para o céu os seus ramos despidos e secos. Olhou também. O pai com óculos de aros grossos, calções e camisa aberta, e o eterno cigarrinho na sua mão. Naquela altura, ainda tinha algum cabelo, os dois, aliás, ainda tinham algum cabelo.
- Pai, a África fica muito longe?
- Sim, filho, muito longe...
(E funda, muito funda, rio de memórias e vivências a correr sob os sedimentos dos anos)
- E um dia podemos lá ir?
- Claro que sim, é fácil lá irmos!
(Pelo menos para mim, pensou ele, que nunca saí de lá).

O Fio (divagação de uma tarde de calor)

("Ariadne on Naxos" -



Temos o Fio, um meio, físico e simbólico, que liga, une, conduz, como o fio invisível que une todas as criaturas entre si e estas a um ente superior.


Numa ponta do fio, temos Teseu,. O Fio que Ariadne lhe dá, permite-lhe entrar no labirinto para procurar o monstro, o homem-touro, o rei e senhor dos sombrios domínios inferiores da morte e da crueldade. O Minotauro devora os jovens enviados por Atena, como a morte aniquila a vida em toda a sua beleza e esplendor. Na outra ponta, a dita Ariadne, que tece, mais do que desenrola, o fio condutor.


Baralhemos as cartas.


Ariadne faz as vezes de Aracne, a Aranha divina, a que tece o fio luminoso da teia que mantém unidos todos os seres e todos os planos do universo. Dir-se-á dela que, abandonada por Teseu na ilha de Naxos, se enforca, tal como Aracne diante da deusa Atena. A sua morte em Naxos, é uma morte iniciática, uma transformação, deixa de ser apenas uma mulher para se converter numa potência fecundadora, esposa de Dioniso. Mau-grado as conotações românticas ou trágicas que se teceram à volta do seu fim, a sua morte na forca parece-nos um acto de expiação por ter ajudado um mortal a regressar do caminho donde não há regresso.


Teseu é um herói solar da Ática, que ousa entrar no mundo inferior para abater o Minotauro com um só golpe. A um dramaturgo ou contista, seria tentador imaginar que Teseu deixa de pertencer ao mundo dos viventes a partir do instante em que penetra no labirinto, uma das Parcas cortaria o fio de Ariadne (e da vida), condenando-o a permanecer no mundo das trevas, e a metamorfosear-se aos poucos num monstro como aquele que viera matar. Mas a tradição não permite essas liberdades e Teseu regressa ao mundo da luz com a ajuda de Ariadne. Mas parece contaminado pelo sangue do Minotauro, pelo castigo ou tributo que pende sobre todos aqueles que visitaram o mundo inferior e saíram de lá com vida. Em Naxos, o seu fio da vida dá um nó sobre si mesmo, enforcando Ariadne, a tecedeira. E a sua vida a partir daí ostenta velas negras como o seu navio, e é um frágil conluio entre a morte e a vida, o heroísmo e a dissolução; com a morte do pai, a viagem ao Hades, o inferno grego, onde fica prisioneiro durante algum tempo, o regresso a Atenas e a sua morte na ilha de Ciros. A proeza que é descrita no labirinto da ilha de Creta, é repetida com mais ênfase, quando se conta que teria descido ao Hades para raptar Perséfone; e a sua morte ás mãos de Licomedes ("astuto como um lobo"), que o atira dum penhasco, assemelha-se a um sacrifício, talvez a esse Hades, o rei das sombras, que usava um manto de pele de lobo. 
Para finalizar, o herói Teseu a cair dum penhasco na ilha de Ciros, assemelha-se à de Egeu, o seu pai, que se suicida, atirando-se do alto dum rochedo, porque Teseu se esquecera de trocar as velas do seu navio para indicar que regressava são e salvo (uma vez mais, a expiação).

Do medo

Um homem simples vivia numa casa simples e modesta, dum só piso, com as divisões essenciais que deve ter a casa dum homem simples que vive só. Fora de portas, apenas chão cimentado a toda a volta, e um pequeno muro a envolver esta área, com apenas um metro de altura. 
Não precisava de mais, o homem simples. Ou, pelo menos, era isso que julgava na altura.Mas um dia, na sua ausência, tentaram assaltar a sua casa, e conseguiram, levando de lá meia-dúzia de pertences seus, sem valor de maior, mas que o ladrão, supondo que era só um, se sentiu na obrigação de levar para justificar o esforço e trabalho que isso lhe dera.
Aquele incidente menor, fortuito, assumiu as proporções de uma catástrofe para o homem simples que vivia só. O medo e o terror começaram a viver paredes-meias com ele, tornando pérfidos todos os sons e ruídos, e trocando o seu sono por uma vigília angustiada. O homem simples encomendou várias paletes de tijolo, ferro e cimento, e decidiu anular o seu medo.
Trabalhando sem descanso, aumentou a altura do muro que já existia, fechando com tijolos e cimento o pequeno portão de entrada. Como isso não lhe parecesse suficiente, construiu um segundo muro por dentro deste, e ainda, no espaço que restava, um terceiro entre este e as paredes da casa.
Quando finalizou a terceira muralha - três muralhas como na capital da soberba Atlântida - o homem permitiu-se, finalmente, descansar. Sentia-se finalmente seguro e protegido, o homem simples que vivia só. E foi enquanto descansava, que ele se lembrou que não tinha nada em casa para comer.

Os mensageiros


Abraão, o patriarca, estava sentado nos carvalhais de Manre, quando lhe apareceu três anjos, de roupas alvas e asas brilhantes.
- Abraão - disse um deles, o que transportava a voz - trazemos-te boas-novas. Queres ouvi-las?
Abraão respondeu que sim.
- Dizei-mas, mas primeiro deixem-me lavar-vos os pés, e trazer um pouco de pão.
O porta-voz suspirou.
- Primeiro que tudo, Abraão, não sei se te dás conta, mas a nossa vida no céu e muito aborrecida, um tédio de morte. Sabemos que não tens nenhuma filha núbil, e que a tua mulher está mais do que velha, mas não nos dês pão e bolotas. Ajudaria muito a nossa missão, se nos arranjasses um belo cordeiro assado, acompanhado talvez, dum pouco do vosso vinho espesso do Hebron. Depois de comermos e bebermos, anunciaria o que fomos incumbidos de anunciar, enquanto descansávamos à sombra destes carvalhos. Quem sabe, nessa altura, tu não nos conseguias um pouco de erva para fumar?

O prescritor

O conselheiro matrimonial divorciou-se. Quem o conhecia pessoalmente, não estranhou o facto, porque sabia que ele não era muito dado à introspecção.

Crise no palácio

O rei majestoso, vestido com as suas roupas luxuosas, rodou com dificuldade a cabeça ornada com a coroa pesada, e fixou a rainha com um olhar furioso.
- És uma cabra! - insultou-a, elevando a voz acima do clamor da multidão e da música ruidosa - sempre te detestei, e estar aqui, ao teu lado, é-me mais insuportável do que ter as tenazes duma lagosta presas aos meus tomates.
A rainha riu-se, um risinho agudo, nervoso.
- Pobre diabo, és tão feio que proibiste os espelhos em tua casa, e tão burro que nem esperteza tens para te dares conta disso! Quando desenharam a tua árvore genealógica, usaram a figura duma moita seca, porque é disso que gosta um burro como tu, e toda a tua parentela de burros.
- Cabra, mil vezes cabra - contra-atacou o soberano, tentando não perder a compostura diante dos olhares da multidão - o único desgosto que te dá leres um jornal, é ver na secção da necrologia, as pessoas que já morreram sem te terem passado pela cama. Não admira que os teus filhos sejam tão diferentes uns dos outros, e que quando estão todos juntos, pareçam uma versão infantil das sessões da ONU.
- Falas por despeito, homenzinho ridículo e desprezível. Se me visse contigo numa ilha deserta, atirava-me aos tubarões, e tu não poderias tentar imitar-me, porque os tubarões não gostam de minhocas.
Aí, o rei perdeu de vez o seu auto-domínio e ergueu o ceptro real para atingir a real senhora, mas esta não ficou à espera da pancada, e atirou-se à sua digna figura com unhas e dentes. Enquanto o rei e a rainha do corso carnavalesco se agrediam no topo do carro alegórico, a multidão irrompia em aplausos, convencida de que era uma cena orquestrada para os divertir.

Hora marcada no psiquiatra ás dezasseis. Chega quinze minutos depois, descobre que não está atrasada, no mesmo instante em que descobre que não irá haver consulta porque o psiquiatra  foi de férias até ao final de Agosto. 
Um aviso na porta anuncia que há consulta de substituição três andares acima, no gabinete vinte e quatro. Sobe os três andares, encontra o vinte e quatro e abre a porta. A primeira coisa que vê é um divã, um divã no centro duma galeria de espelhos.

Num cemitério:

AQUI  JAZ
IGO

Sem esperança (o diamante maldito)

- Agora deixo-te sozinho por umas duas horas - disse-lhe o colega à porta da sala de vigilância - vou fazer a ronda na ala oeste, e confirmar nos verificadores electrónicos.
- Está bem...- respondeu mecânicamente, mas já falou sozinho porque o colega já abalara.
Encostou-se para trás na cadeira e desabotoou um pouco a camisa do seu uniforme de segurança. Ia ser uma longa noite, e pesava-lhe aquela atmosfera abafada e quente, resultado talvez, do funcionamento simultâneo de tantos aparelhómetros. 
Olhou os diferentes monitores das câmaras de vigilância, e viu o que via todas as noites, salas e corredores sem ninguém, deixados ao silêncio de quadros e estátuas. Uma luz suspeita, fê-lo deter-se numa das imagens, fez rodar a esfera de controlo da câmara respectiva, que varreu toda a sala, até se convencer de que fora um reflexo caprichoso no vidro dum dos expositores da sala de Pré-História. Mas reflexo de quê? Aquela sala ficava na direcção oposta ao trajecto seguido pelo outro segurança. Apanhou a lanterna do chão, com esforço, porque a sua barriga saliente atrapalhava os seus movimentos, e verificou o revólver que trazia à cintura. Vou? Não vou? Não foi, estava demasiado calor para andar a subir escadas e a caminhar como um condenado. 
Desapertou mais um botão da camisa e, sentiu que lhe cairia bem um café, mesmo com aquele calor. Já se preparava para desenroscar a tampa do têrmo do café, quando um novo reflexo luminoso, na mesma sala, o decidiu. Tinha de ir verificar. Devia prevenir o colega da sua ausência, mas estava tão convencido ou tão esperançado que não seria nada, que negligenciou esse precioso procedimento de rotina. Abandonou a sala de controlo e tomou o caminho da luz suspeita. Desceu as escadas até ao piso térreo e foi-se orientando pelas placas indicativas iluminadas. Estava quase a alcançá-la quando o alarme sonoro disparou. Em resposta, começou a correr, o alarme era na sala do Diamante. Desembainhou a arma enquanto corria, e destravou-a, mantendo-a apontada ao chão enquanto a luz da lanterna brilhava à altura da sua cabeça como um olho de ciclope. O foco de luz fixou o vulto do assaltante no momento em que este saía da sala do Diamante. Estava encapuçado e vestia um fato-de-treino preto Gritou-lhe em tom ameaçador, mas o homem começou a fugir à sua frente, pouco atemorizado. Perseguiu-o, correndo e desfiando ameaças e insultos. O tipo era ágil, subiu as escadas em saltos de gazela, e ele seguiu-o com esforço, sentindo o coração a bater com força dentro do seu peito, venceram corredores e salas e voltaram os dois a descer as escadas, com o ladrão a ganhar distância a cada passada. A meio dos degraus, parou, nunca seria capaz de apanhá-lo, levantou a arma e apontou acima daquela figura em corrida e disparou o que pretendia ser um tiro de aviso, mas o tiro saiu mais abaixo do que desejava, quase ao homem. A bala não encontrou carne ou tecidos no seu caminho, mas atingiu o objecto que ele carregava na mão, beliscou-o ao de leve na superfície vítrea e dúctil, com o mesmo grau de destruição duma pluma a pousar numa chapa de aço. Retomou a corrida por aquele meandro de salas e corredores, meio perdido, e então apercebeu-se de passos em corrida, não à sua frente, mas atrás de si, e descobriu aterrorizado que já não trazia vestido uma farda de segurança, mas um fato-de-treino, e nas suas mãos apenas carregava o diamante azul-escuro, e atrás dele continuava a ouvir os passos, do outro, (dele mesmo?), armado e furioso. Tentou largar o diamante, mas este parecia colado à palma das suas mãos, ouviu um novo tiro, que levantou pó no tecto do corredor quando a bala penetrou no estuque. Mesmo em desespero, descobriu uma das saídas do museu, uma porta de emergência de incêndio. Ofegante, apoiou todo o seu corpo sobre a barra laranja do fecho e abriu-a, saindo em corrida para o exterior com o seu tesouro indesejado. Fora dar à avenida marginal das traseiras do museu, cruzou-a em corrida, ofegante e com o coração aos saltos, um novo disparo fez uma bala passar perto de si, o seu perseguidor não perdia tempo com ameaças ou insultos, apenas disparava. Viu um bote com motor no cais, mas sentiu que seria atingido antes de o conseguir por a trabalhar, e sem mais alternativas, atirou-se à água do rio. Tinha confiança nos seus dotes de nadador, mas não teve oportunidade de os por à prova. Mal mergulhou nas águas, o diamante colado às suas mãos arrastou-o para o fundo do rio, como se pesasse uma tonelada.

Superstição

Edward Robertson, o primeiro antropólogo europeu a estudar os Rongos, uma tribo de pigmeus da floresta equatorial africana, descobriu com surpresa que estes se recusavam a ser fotografados porque acreditavam que a máquina fotográfica lhes roubaria a alma. Robertson não desistiu dos seus propósitos, e mostrou aos Rongos diversas fotografias que haviam sido tiradas dele próprio e de outros elementos da expedição, prova evidente da falsidade das suas crenças mas, como os seus argumentos não fossem suficientes, recorreu repetidamente ao suborno, oferecendo mercancias e pechisbeques aos anciãos da tribo até estes acederem à sua vontade. Robertson pôde então tirar múltiplas fotografias aos Rongos, para consubstanciar as descrições e retratos dos seus cadernos de campo. 
De regresso a Inglaterra, foram essas fotos que lhe granjearam reconhecimento e fama, mas mesmo adicionando a esse efeito, a potenciação do orgulho que os europeus sentiam na sua própria civilização e cultura; no continente africano, o poder das fotos foi mais nítido, quando os Rongos se viram forçados a lidar nas suas rotinas diárias, com algumas dezenas de zombies sem alma.

a raiz do mistério



Em outros tempos, nos tempos dos guerreiros de elmos de marfim e espadas e couraças de bronze, os homens ainda eram capazes de apreender uma parte da linguagem dos animais e dos ritmos orgânicos da Terra, eram os tempos de Ulisses e das sereias encantadoras. 
Com o tempo, essas faculdades embotaram-se, atrofiadas pelos sentidos e percepções mais imediatas. 

As sereias, 
continuam a cantar sobre a linha das ondas, alcandoradas em ásperos e afiados rochedos da costa, mas nós já nos tornamos surdos e insensíveis ao seu poder. 
(Mas algumas criaturas dos mares, para sua desgraça, ainda as ouvem como nós em tempos as ouvimos, e umas vezes as orcas, outras, as baleias e cachalotes, arremetem contra a areia da praia, presas dum encantamento a que não conseguem resistir).

Meandros


Vivera toda a vida na mesma aldeia, uma aldeia quase retirada do mundo, com ruas empedradas, um pelourinho e uma igreja de traça renascentista. Em volta da aldeia, quase a abraçá-la no seu curso líquido, corria um pequeno regato, que emagrecia ao calor do estio, mas que nunca secava, refrescando o ar com a sua música modorrenta. E o homem simples, que vivera toda a vida na mesma aldeia, deixou grafado no seu testamento que, quando morresse, desejava ser cremado e que as suas cinzas fossem largadas no riacho. E esse dia chegou, o seu corpo foi cremado lá longe, na capital do distrito, mas quando a urna com as cinzas chegou á aldeia, a coisa complicou-se. O autarca no poder lembrou-se que soltar as cinzas no regato deveria ser ilegal, algo como um atentado ao ambiente, a família recorreu em tribunal, o autarca contratou um advogado, a família procurou outro, e enquanto o processo se empapelava, os anos passaram, e um acordo parecia impossível. Á espera dum desenlace, a urna da discórdia foi colocada num depósito da autarquia, arrumada numa estante duma sala bafienta, ladeado por lucernas romanas e pedras de raio neolíticas. O tempo elidiu os motivos do conflito, e as razões dos beligerantes. Uns e outros desistiram da causa e de engordar advogados, e as cinzas do homem que vivera toda a vida na mesma aldeia viu trocadas as águas correntes do riacho onde queria ser dissolvido, pelas águas mortas da estupidez humana.

business news

Abriu um novo serviço na cidade, que faculta a um preço módico, lavagens ao cérebro. O preço depende dalgumas variáveis. Se é é só lavagem com sabão e enxaguamento, se o cliente deseja aspirar também o pó acumulado, ou se quer o cérebro com um acabamento final em verniz brilhante. De todas as formas, a lavagem é rápida e funcional. Antes de entrar na passagem onde o serviço é prestado, recomenda-se às pessoas que abram para cima a clarabóia, e para que o metal não se embrulhe com o sistema automático de lavagem, é pedido a quem possua, que desatarraxe a(s) antena(s).

Facto-macaco

A única vantagem que encontrou em aderir à TV por cabo, foi passar a poder contar com dois (dois!) canais que davam notícias vinte e quatro horas por dia. Esses eram os únicos que lhe interessavam, e dedicava todo o seu tempo livre a assistir ás suas emissões, sentada no sofá grande da sala. Tudo o mais, canais e pessoas, a aborrecia mortalmente. Na verdade, os sucessivos noticiários de cada um desses canais, repetiam-se descaradamente, com algumas actualizações insignificantes e uma ou outra peça composta pelos profissionais, mas isso não lhe importava, as notícias eram o seu antídoto para o aborrecimento e a monotonia, e esse antídoto ganhou uma força inusitada quando assistiu no noticiário das duas à notícia que dava conta dum gorila gigantesco, do tamanho dum prédio de dois andares, que andava à solta na cidade. Sentiu-se muito excitada com o sucesso, e ficou ali toda comichosa, à espera de mais informações. Acaba o noticiário, segue-se uma pausa de quarenta minutos de publicidade, e começa o das três, que dá conta do mesmo, que há um gorila gigantesco à solta na cidade, também dizem que é do tamanho dum prédio de dois andares. Duas horas e dois noticiários depois, acrescentam finalmente algo de novo, o gorila gigantesco do tamanho dum prédio de dois andares andava agora pelas ruas do seu bairro. E mais não foi preciso, a mulher salta do sofá, e corre ao quarto, tira duma gaveta uma peruca empoeirada, e assim como estava, de roupão e com a sua nova cabeleira de loura platinada, foi colocar-se na varanda do prédio. Pacientemente, como um repórter afortunado, esperou que a notícia viesse até si.

Eat Onions!

A união faz a força.
COMA CEBOLAS!!

Protejam-se

do

uefrO

O espeleólogo, após duas tentativas falhadas, conseguiu finalmente, passar a barreira pessoal dos quinhentos metros de profundidade na Garganta del Diablo. Precisou de botijas de oxigénio, mas conseguiu. Quando estava quase a atingir a marca, desapareceu o sinal rádio da superfície, mas atribuiu isso ao efeito da radioactividade ou do electromagnetismo de jazidas metálicas do subsolo. Deixou a sua marca na parede do precipício, e regressou. Cá em cima, descobriu a razão da falha de comunicações: estavam todos mortos, caídos por terra sem feridas nem violência, como pés de trigo que o vento quebra numa seara. Sem que ele o tivesse visto e longe da sua percepção, centenas, milhares de bombas H haviam erradicado a vida de toda a região, do país inteiro. Saiu dali, e ficou assombrado com a dimensão da mortandade, corpos na estrada e nas ruas da cidade próxima, da sua cidade, mudos, surpreendidos nas suas rotinas diárias que, um dia, haviam tomado como eternas. Correu pela cidade como um louco, chamou alto pelos seus e chorou diante dos seus corpos. Quando a noite caiu, já os havia sepultado e tentou refrear os nervos para não enlouquecer. Precisava de descansar, mas o sono não vinha, assustava-o mais a cidade do que as trevas do fundo da gruta; e só conseguiu adormecer ao lado duma televisão ligada a coisa alguma, com o ruído desta a manter à distância o silêncio opressivo. De madrugada acordou com sons e vozes de pessoas. Foi á janela e admirou a primeira caravana de colonos vinda do outro lado da fronteira, camionetas cheias de pessoas com os tejadilhos carregados de malas. À frente destas, vinha um contingente de trabalhadores com pás e enxadas; e camiões militares com dezenas de soldados, que já se espalhavam pela cidade, atentos e activos, vasculhando cada escaninho à procura de sobreviventes como ele.

Convicção

O guia ergueu o braço (amputado pelo cotovelo) e, apontando a entrada escura da caverna, declarou:
- Comigo podem estar descansados, conheço este labirinto de grutas como a palma desta mão!

Composição:

Lucro Cego 
ou
Como as Coisas Aconteceram.


Diz o meu pai e os professores de História que tudo começou quando os administradores duma cadeia de televisão lembraram-se de voltar a usar um truque baxo baixo para aumentar os lucros, que era voltar a usar as mensagens subliminares de publicidade entre os frames de noticías notícias e séries televisivas, isto, para publicitar os produtos do seu principal patrocinador, uma fábrica de detergentes para o chão. Essa mensagem subliminar era acompanhada duma outra que ordenava aos espectadores que não se lembrassem porque é que tinham vontade de comprar essa marca espífica específica, medida que tinha, por finalidade, apagar os traços da ilegalidade que estavam a cometer. 
As coisas começaram a correr bem, à medida que as vendas disparavam em flecha, e os lucros aumentavam para todos, e as mesmas séries e notícias retransmitidas noutros países, deflagiram deflagraram uma procura internacional por aquela marca de detergente. Mas os administradores esqueceram-se de que os seus familiares e eles próprios também viam televisão, e por isso, tornaram-se também vítimas da mesma sugestão,    tornando a mensagem subliminar autónoma e sem ninguém que lhe pusesse fim. No espaço de semanas e meses, todo o mundo se tornava obcecado por aquela marca, do frio da Noriega Noruega ás quentes cidades da Austrália, das aldeias dos Antes Andes aos países da África Equatorial. Milhões de pessoas davam consigo a comprar o produto e a lavar o chão sob os seus pés, fosse este um chão de lajes, areia do deserto ou gelo polar.
As vendas do produto atingiram os píncaros e a fábrica, incapaz de responder a tantas encomendas, acabou por sósobrar soçobrar, com os seus operários a levar dos tanques de mistura, todo o detergente que conseguiam carregar em baldes e garrafões. Acabado o produto, milhões de pessoas foram tomadas duma gústia angústia inexplicável, surgiram manifestações e revoltas, e declarava-se guerra aos países vizinhos pela simples suspeita de que estes tinham açambarcado milhares de litros de detergente para o chão.
Diz o meu pai e os professores de História, que foi assim que começou a Terceira Guerra Mundial.

encontro imediato

A bela e frondosa cerejeira era a única árvore de fruto do minúsculo jardim, benção e tormento do casal que alugara a casa há já sete anos. Todas as Primaveras, o vigor da árvore extravasava em dezenas de pequenos e sumarentos frutos que os pássaros devoravam sem clemência, apesar de todos os esforços dos dois. Haviam experimentado afugentá-los com um pequeno espantalho, um espanta-espíritos, sacos de plástico atados aos ramos e outras artimanhas do género, mas o resultado era o mesmo, e desanimador. Agora, a matrona ouvira falar dum novo método e foi expô-lo ao marido.
- Sabes, disseram-me que a melhor maneira de manter longe os melros e outros pássaros, é pendurar na árvore cd's de música ou dvd's. Eles ficam aterrorizados com aqueles discos prateados a rodar no ar, e fogem a sete asas...
- Mas não tenho discos virgens, e não os vou comprar por causa de cerejas!
- Temos a tua velha colecção, só precisamos duns seis ou sete.
E com gestos imperiosos, que ele não se atreveu a contrariar, ela formou a sua delete-list.
- Olha, discos de blues e soul, isso já morreu, James Cotton, Mudy Waters, Otis Redding, vinte discos, música folk, outra velharia, Joan Baez, Neil Young, Stephen Stills, mais doze...catorze...vinte e oito discos. Já chega, comer as cerejas vai saber-nos melhor do que ouvir música!
Desembalou os discos, e pendurou-os com cordéis nos ramos da cerejeira em flor. Quando a noite caiu, ela foi deitar-se com um sentimento de íntima realização. Enquanto os dois dormiam, os céus sobre a casa iluminaram-se com um halo de luz intensa, e um pequeno veículo espacial pousou junto à árvore. Era uma sonda não-tripulada duma civilização distante. Quando os motores ficaram silenciosos, um feixe de luz percorreu os discos pendurados da cerejeira, enquanto a máquina apreendia a linguagem e as modulações vocais dos terrestres. Então, com a harmónica de James Cotton como som de fundo, a nave entoou em voz arrastada:
- Arquivo biónico / conduz-me aos teus superiores...

futuro

Encontraram-se casualmente na paragem do autocarro, e depois de falarem muito deles mesmos e das suas origens, dúvidas e anseios (porque os homens são mesmo assim), o Romance concluiu com ênfase:
- A minha vida dava um livro!
- A minha também, e tão grande como o teu – retrucou o Prefácio com uma nota de hostilidade.
Nenhum dos dois sabia - porque os desígnios dos editores são tão obscuros quanto os de Deus – que os seus desejos proféticos se concretizariam, e que iriam acabar juntos dentro da mesma Capa.
(A ligeira Capa não tinha os mesmos objectivos nem participou da mesma conversa, porque anda sempre a pé ou de bicicleta).

Hidrângea

A manhã nasceu enevoada, a palpitar de sugestões sensoriais. Ela alterou o seu percurso de todos os dias para cruzar o parque da cidade, adorou a experiência, ver os plátanos mais distantes embaciados pela névoa, os cisnes a vogar no lago de águas escuras, o chilrear dos pássaros na copa das árvores, mas do que mais gostou foi das hortênsias em flor, flores lindas em azul e rosa, ela afagou-as, sentiu o seu perfume e, como se isso não lhe bastasse, colheu um punhado dessas pequenas flores e meteu-as na boca, mastigando-as à procura dum sabor invulgar, poético, prodigioso como o sabor do Soma. Enquanto mascava aquela pasta vegetal, o veneno das flores contaminou rapidamente o seu organismo, fazendo-a deter-se com dores fortes no ventre e nos braços.

(É sabido, que as hortênsias têm intolerância á poetose).


- Tens um íntimo bom – afirmou ela, a procurar adoçar a pílula ao que pretendia dizer-lhe.
- O meu bom íntimo precisa do teu amor, como um licor generoso precisa dum belo cálice de cristal.
Ela susteve a respiração por alguns segundos antes de continuar, conduzido pela imagem à imagem do licor a ser absorvido pela areia da praia.

O lado positivo das coisas

Olhou por cima do ombro do irmão, e viu a cobra a deslizar na esquina do armário de parede, descendo para o chão de soalho esburacado.
- A nossa casa está a cair aos pedaços, e a bicharada instala-se aqui como se estivesse no meio do mato.
Trocaram um olhar cúmplice e levantaram-se os dois dum salto, encurralaram a cobra num canto, um fixou a sua cabeça com a escova da vassoura, enquanto o outro lhe decepava a cabeça com a faca de serrilha do pão. Dois dias depois, outra cobra, mas desta vez nem precisaram de se levantar, um dos irmão conseguiu aprisionar a cabeça da cobra com o tacão da bota, e o outro passou-lhe tranquilamente a faca com que descascava a maçã para ele dar o mesmo fim à criatura indesejada.
- Precisamos mesmo de arranjar outra vivenda duplex, as cobras fazem-me impressão.
- A mim também.
Como se quisessem dissuadi-los de se mudarem, as cobras deixaram de aparecer por uns tempos, passou-se uma semana, duas, e nunca mais as avistaram. Num fim de tarde, em que os dois se reuniram à mesa para debicar qualquer coisa, viram um ratito passear no tampo da mesa entre os dois, parecia não os temer, ainda que levantasse de vez em quando a cabeça para avaliar os seus gestos e movimentos. Ambos tentaram não se mexer, sorrindo enquanto o sarafano deslizava nos pratos, deliciando-se com os restos de comida.
- É um bom sinal – disse um dos irmãos, condensando em palavras o que os dois pensavam – onde há ratos, não há cobras!

A sombra dos dias

               Um galão direto e uma torrada com pouca manteiga  - pediu a empregada no balcão à colega. Podia até ter pedido antes,...