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A mostrar mensagens de Julho, 2010

«Primeiro estranha-se, depois, entranha-se»

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Um slogan pessoano
para o novo livro do Henrique Fialho

Instantâneo

Estava a guardar-surripiar as páginas dum livro emprestado com um scanner, quando sentiu a presença do filho pequeno ao pé de si. Despenteou-lhe os cabelos, para o chatear, mas a criança não ligou nenhuma, olhava para uma fotografia dum álbum de família aberto em cima da mesa, em especial, para uma velha fotografia tirada com uma Polaroid, a de uma criança ao colo do pai, encostados a um Vauxhall Victor, e atrás deles, um embondeiro gigantesco a erguer para o céu os seus ramos despidos e secos. Olhou também. O pai com óculos de aros grossos, calções e camisa aberta, e o eterno cigarrinho na sua mão. Naquela altura, ainda tinha algum cabelo, os dois, aliás, ainda tinham algum cabelo. - Pai, a África fica muito longe? - Sim, filho, muito longe... (E funda, muito funda, rio de memórias e vivências a correr sob os sedimentos dos anos) - E um dia podemos lá ir? - Claro que sim, é fácil lá irmos! (Pelo menos para mim, pensou ele, que nunca saí de lá).

O Fio (divagação de uma tarde de calor)

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("Ariadne on Naxos" - arte deJohn Woodrow Kelley)


Temos o Fio, um meio, físico e simbólico, que liga, une, conduz, como o fio invisível que une todas as criaturas entre si e estas a um ente superior.


Numa ponta do fio, temos Teseu,. O Fio que Ariadne lhe dá, permite-lhe entrar no labirinto para procurar o monstro, o homem-touro, o rei e senhor dos sombrios domínios inferiores da morte e da crueldade. O Minotauro devora os jovens enviados por Atena, como a morte aniquila a vida em toda a sua beleza e esplendor. Na outra ponta, a dita Ariadne, que tece, mais do que desenrola, o fio condutor.


Baralhemos as cartas.


Ariadne faz as vezes de Aracne, a Aranha divina, a que tece o fio luminoso da teia que mantém unidos todos os seres e todos os planos do universo. Dir-se-á dela que, abandonada por Teseu na ilha de Naxos, se enforca, tal como Aracne diante da deusa Atena. A sua morte em Naxos, é uma morte iniciática, uma transformação, deixa de ser apenas uma mulher para se converter numa …

Do medo

Um homem simples vivia numa casa simples e modesta, dum só piso, com as divisões essenciais que deve ter a casa dum homem simples que vive só. Fora de portas, apenas chão cimentado a toda a volta, e um pequeno muro a envolver esta área, com apenas um metro de altura. 
Não precisava de mais, o homem simples. Ou, pelo menos, era isso que julgava na altura.Mas um dia, na sua ausência, tentaram assaltar a sua casa, e conseguiram, levando de lá meia-dúzia de pertences seus, sem valor de maior, mas que o ladrão, supondo que era só um, se sentiu na obrigação de levar para justificar o esforço e trabalho que isso lhe dera.
Aquele incidente menor, fortuito, assumiu as proporções de uma catástrofe para o homem simples que vivia só. O medo e o terror começaram a viver paredes-meias com ele, tornando pérfidos todos os sons e ruídos, e trocando o seu sono por uma vigília angustiada. O homem simples encomendou várias paletes de tijolo, ferro e cimento, e decidiu anular o seu medo.
Trabalhando sem desc…

Os mensageiros

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Abraão, o patriarca, estava sentado nos carvalhais de Manre, quando lhe apareceu três anjos, de roupas alvas e asas brilhantes.
- Abraão - disse um deles, o que transportava a voz - trazemos-te boas-novas. Queres ouvi-las?
Abraão respondeu que sim.
- Dizei-mas, mas primeiro deixem-me lavar-vos os pés, e trazer um pouco de pão.
O porta-voz suspirou.
- Primeiro que tudo, Abraão, não sei se te dás conta, mas a nossa vida no céu e muito aborrecida, um tédio de morte. Sabemos que não tens nenhuma filha núbil, e que a tua mulher está mais do que velha, mas não nos dês pão e bolotas. Ajudaria muito a nossa missão, se nos arranjasses um belo cordeiro assado, acompanhado talvez, dum pouco do vosso vinho espesso do Hebron. Depois de comermos e bebermos, anunciaria o que fomos incumbidos de anunciar, enquanto descansávamos à sombra destes carvalhos. Quem sabe, nessa altura, tu não nos conseguias um pouco de erva para fumar?

O prescritor

O conselheiro matrimonial divorciou-se. Quem o conhecia pessoalmente, não estranhou o facto, porque sabia que ele não era muito dado à introspecção.

Crise no palácio

O rei majestoso, vestido com as suas roupas luxuosas, rodou com dificuldade a cabeça ornada com a coroa pesada, e fixou a rainha com um olhar furioso.
- És uma cabra! - insultou-a, elevando a voz acima do clamor da multidão e da música ruidosa - sempre te detestei, e estar aqui, ao teu lado, é-me mais insuportável do que ter as tenazes duma lagosta presas aos meus tomates.
A rainha riu-se, um risinho agudo, nervoso.
- Pobre diabo, és tão feio que proibiste os espelhos em tua casa, e tão burro que nem esperteza tens para te dares conta disso! Quando desenharam a tua árvore genealógica, usaram a figura duma moita seca, porque é disso que gosta um burro como tu, e toda a tua parentela de burros.
- Cabra, mil vezes cabra - contra-atacou o soberano, tentando não perder a compostura diante dos olhares da multidão - o único desgosto que te dá leres um jornal, é ver na secção da necrologia, as pessoas que já morreram sem te terem passado pela cama. Não admira que os teus filhos sejam tão diferent…
Hora marcada no psiquiatra ás dezasseis. Chega quinze minutos depois, descobre que não está atrasada, no mesmo instante em que descobre que não irá haver consulta porque o psiquiatra  foi de férias até ao final de Agosto. 
Um aviso na porta anuncia que há consulta de substituição três andares acima, no gabinete vinte e quatro. Sobe os três andares, encontra o vinte e quatro e abre a porta. A primeira coisa que vê é um divã, um divã no centro duma galeria de espelhos.

Num cemitério:

AQUI  JAZ IGO

Sem esperança (o diamante maldito)

- Agora deixo-te sozinho por umas duas horas - disse-lhe o colega à porta da sala de vigilância - vou fazer a ronda na ala oeste, e confirmar nos verificadores electrónicos.
- Está bem...- respondeu mecânicamente, mas já falou sozinho porque o colega já abalara.
Encostou-se para trás na cadeira e desabotoou um pouco a camisa do seu uniforme de segurança. Ia ser uma longa noite, e pesava-lhe aquela atmosfera abafada e quente, resultado talvez, do funcionamento simultâneo de tantos aparelhómetros. 
Olhou os diferentes monitores das câmaras de vigilância, e viu o que via todas as noites, salas e corredores sem ninguém, deixados ao silêncio de quadros e estátuas. Uma luz suspeita, fê-lo deter-se numa das imagens, fez rodar a esfera de controlo da câmara respectiva, que varreu toda a sala, até se convencer de que fora um reflexo caprichoso no vidro dum dos expositores da sala de Pré-História. Mas reflexo de quê? Aquela sala ficava na direcção oposta ao trajecto seguido pelo outro segurança. A…

Superstição

Edward Robertson, o primeiro antropólogo europeu a estudar os Rongos, uma tribo de pigmeus da floresta equatorial africana, descobriu com surpresa que estes se recusavam a ser fotografados porque acreditavam que a máquina fotográfica lhes roubaria a alma. Robertson não desistiu dos seus propósitos, e mostrou aos Rongos diversas fotografias que haviam sido tiradas dele próprio e de outros elementos da expedição, prova evidente da falsidade das suas crenças mas, como os seus argumentos não fossem suficientes, recorreu repetidamente ao suborno, oferecendo mercancias e pechisbeques aos anciãos da tribo até estes acederem à sua vontade. Robertson pôde então tirar múltiplas fotografias aos Rongos, para consubstanciar as descrições e retratos dos seus cadernos de campo. 
De regresso a Inglaterra, foram essas fotos que lhe granjearam reconhecimento e fama, mas mesmo adicionando a esse efeito, a potenciação do orgulho que os europeus sentiam na sua própria civilização e cultura; no continente a…

a raiz do mistério

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Em outros tempos, nos tempos dos guerreiros de elmos de marfim e espadas e couraças de bronze, os homens ainda eram capazes de apreender uma parte da linguagem dos animais e dos ritmos orgânicos da Terra, eram os tempos de Ulisses e das sereias encantadoras.  Com o tempo, essas faculdades embotaram-se, atrofiadas pelos sentidos e percepções mais imediatas. 
As sereias,  continuam a cantar sobre a linha das ondas, alcandoradas em ásperos e afiados rochedos da costa, mas nós já nos tornamos surdos e insensíveis ao seu poder.  (Mas algumas criaturas dos mares, para sua desgraça, ainda as ouvem como nós em tempos as ouvimos, e umas vezes as orcas, outras, as baleias e cachalotes, arremetem contra a areia da praia, presas dum encantamento a que não conseguem resistir).

Meandros

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Vivera toda a vida na mesma aldeia, uma aldeia quase retirada do mundo, com ruas empedradas, um pelourinho e uma igreja de traça renascentista. Em volta da aldeia, quase a abraçá-la no seu curso líquido, corria um pequeno regato, que emagrecia ao calor do estio, mas que nunca secava, refrescando o ar com a sua música modorrenta. E o homem simples, que vivera toda a vida na mesma aldeia, deixou grafado no seu testamento que, quando morresse, desejava ser cremado e que as suas cinzas fossem largadas no riacho. E esse dia chegou, o seu corpo foi cremado lá longe, na capital do distrito, mas quando a urna com as cinzas chegou á aldeia, a coisa complicou-se. O autarca no poder lembrou-se que soltar as cinzas no regato deveria ser ilegal, algo como um atentado ao ambiente, a família recorreu em tribunal, o autarca contratou um advogado, a família procurou outro, e enquanto o processo se empapelava, os anos passaram, e um acordo parecia impossível. Á espera dum desenlace, a urna da discórdia…

business news

Abriu um novo serviço na cidade, que faculta a um preço módico, lavagens ao cérebro. O preço depende dalgumas variáveis. Se é é só lavagem com sabão e enxaguamento, se o cliente deseja aspirar também o pó acumulado, ou se quer o cérebro com um acabamento final em verniz brilhante. De todas as formas, a lavagem é rápida e funcional. Antes de entrar na passagem onde o serviço é prestado, recomenda-se às pessoas que abram para cima a clarabóia, e para que o metal não se embrulhe com o sistema automático de lavagem, é pedido a quem possua, que desatarraxe a(s) antena(s).

Facto-macaco

A única vantagem que encontrou em aderir à TV por cabo, foi passar a poder contar com dois (dois!) canais que davam notícias vinte e quatro horas por dia. Esses eram os únicos que lhe interessavam, e dedicava todo o seu tempo livre a assistir ás suas emissões, sentada no sofá grande da sala. Tudo o mais, canais e pessoas, a aborrecia mortalmente. Na verdade, os sucessivos noticiários de cada um desses canais, repetiam-se descaradamente, com algumas actualizações insignificantes e uma ou outra peça composta pelos profissionais, mas isso não lhe importava, as notícias eram o seu antídoto para o aborrecimento e a monotonia, e esse antídoto ganhou uma força inusitada quando assistiu no noticiário das duas à notícia que dava conta dum gorila gigantesco, do tamanho dum prédio de dois andares, que andava à solta na cidade. Sentiu-se muito excitada com o sucesso, e ficou ali toda comichosa, à espera de mais informações. Acaba o noticiário, segue-se uma pausa de quarenta minutos de publicidade…

Eat Onions!

A união faz a força. COMA CEBOLAS!!

Protejam-se

uefrO

O espeleólogo, após duas tentativas falhadas, conseguiu finalmente, passar a barreira pessoal dos quinhentos metros de profundidade na Garganta del Diablo. Precisou de botijas de oxigénio, mas conseguiu. Quando estava quase a atingir a marca, desapareceu o sinal rádio da superfície, mas atribuiu isso ao efeito da radioactividade ou do electromagnetismo de jazidas metálicas do subsolo. Deixou a sua marca na parede do precipício, e regressou. Cá em cima, descobriu a razão da falha de comunicações: estavam todos mortos, caídos por terra sem feridas nem violência, como pés de trigo que o vento quebra numa seara. Sem que ele o tivesse visto e longe da sua percepção, centenas, milhares de bombas H haviam erradicado a vida de toda a região, do país inteiro. Saiu dali, e ficou assombrado com a dimensão da mortandade, corpos na estrada e nas ruas da cidade próxima, da sua cidade, mudos, surpreendidos nas suas rotinas diárias que, um dia, haviam tomado como eternas. Correu pela cidade como um l…

Convicção

O guia ergueu o braço (amputado pelo cotovelo) e, apontando a entrada escura da caverna, declarou: - Comigo podem estar descansados, conheço este labirinto de grutas como a palma desta mão!

Composição:

Lucro Cego  ou Como as Coisas Aconteceram.

Diz o meu pai e os professores de História que tudo começou quando os administradores duma cadeia de televisão lembraram-se de voltar a usar um truque baxo baixo para aumentar os lucros, que era voltar a usar as mensagens subliminares de publicidade entre os frames de noticías notícias e séries televisivas, isto, para publicitar os produtos do seu principal patrocinador, uma fábrica de detergentes para o chão. Essa mensagem subliminar era acompanhada duma outra que ordenava aos espectadores que não se lembrassem porque é que tinham vontade de comprar essa marca espífica específica, medida que tinha, por finalidade, apagar os traços da ilegalidade que estavam a cometer. 
As coisas começaram a correr bem, à medida que as vendas disparavam em flecha, e os lucros aumentavam para todos, e as mesmas séries e notícias retransmitidas noutros países, deflagiram deflagraram uma procura internacional por aquela marca de detergente. Mas os administradores es…

encontro imediato

A bela e frondosa cerejeira era a única árvore de fruto do minúsculo jardim, benção e tormento do casal que alugara a casa há já sete anos. Todas as Primaveras, o vigor da árvore extravasava em dezenas de pequenos e sumarentos frutos que os pássaros devoravam sem clemência, apesar de todos os esforços dos dois. Haviam experimentado afugentá-los com um pequeno espantalho, um espanta-espíritos, sacos de plástico atados aos ramos e outras artimanhas do género, mas o resultado era o mesmo, e desanimador. Agora, a matrona ouvira falar dum novo método e foi expô-lo ao marido.
- Sabes, disseram-me que a melhor maneira de manter longe os melros e outros pássaros, é pendurar na árvore cd's de música ou dvd's. Eles ficam aterrorizados com aqueles discos prateados a rodar no ar, e fogem a sete asas...
- Mas não tenho discos virgens, e não os vou comprar por causa de cerejas!
- Temos a tua velha colecção, só precisamos duns seis ou sete.
E com gestos imperiosos, que ele não se atreveu a contr…

futuro

Encontraram-se casualmente na paragem do autocarro, e depois de falarem muito deles mesmos e das suas origens, dúvidas e anseios (porque os homens são mesmo assim), o Romance concluiu com ênfase: - A minha vida dava um livro! - A minha também, e tão grande como o teu – retrucou o Prefácio com uma nota de hostilidade. Nenhum dos dois sabia - porque os desígnios dos editores são tão obscuros quanto os de Deus – que os seus desejos proféticos se concretizariam, e que iriam acabar juntos dentro da mesma Capa. (A ligeira Capa não tinha os mesmos objectivos nem participou da mesma conversa, porque anda sempre a pé ou de bicicleta).

Hidrângea

A manhã nasceu enevoada, a palpitar de sugestões sensoriais. Ela alterou o seu percurso de todos os dias para cruzar o parque da cidade, adorou a experiência, ver os plátanos mais distantes embaciados pela névoa, os cisnes a vogar no lago de águas escuras, o chilrear dos pássaros na copa das árvores, mas do que mais gostou foi das hortênsias em flor, flores lindas em azul e rosa, ela afagou-as, sentiu o seu perfume e, como se isso não lhe bastasse, colheu um punhado dessas pequenas flores e meteu-as na boca, mastigando-as à procura dum sabor invulgar, poético, prodigioso como o sabor do Soma. Enquanto mascava aquela pasta vegetal, o veneno das flores contaminou rapidamente o seu organismo, fazendo-a deter-se com dores fortes no ventre e nos braços.
(É sabido, que as hortênsias têm intolerância á poetose).
- Tens um íntimo bom – afirmou ela, a procurar adoçar a pílula ao que pretendia dizer-lhe. - O meu bom íntimo precisa do teu amor, como um licor generoso precisa dum belo cálice de cristal. Ela susteve a respiração por alguns segundos antes de continuar, conduzido pela imagem à imagem do licor a ser absorvido pela areia da praia.

O lado positivo das coisas

Olhou por cima do ombro do irmão, e viu a cobra a deslizar na esquina do armário de parede, descendo para o chão de soalho esburacado. - A nossa casa está a cair aos pedaços, e a bicharada instala-se aqui como se estivesse no meio do mato. Trocaram um olhar cúmplice e levantaram-se os dois dum salto, encurralaram a cobra num canto, um fixou a sua cabeça com a escova da vassoura, enquanto o outro lhe decepava a cabeça com a faca de serrilha do pão. Dois dias depois, outra cobra, mas desta vez nem precisaram de se levantar, um dos irmão conseguiu aprisionar a cabeça da cobra com o tacão da bota, e o outro passou-lhe tranquilamente a faca com que descascava a maçã para ele dar o mesmo fim à criatura indesejada. - Precisamos mesmo de arranjar outra vivenda duplex, as cobras fazem-me impressão. - A mim também. Como se quisessem dissuadi-los de se mudarem, as cobras deixaram de aparecer por uns tempos, passou-se uma semana, duas, e nunca mais as avistaram. Num fim de tarde, em que os dois se reu…