Poder de compra 2

Fosse devido à separação entre ele e a mulher, fosse pelo vago desconforto que lhe causava o efeitos que essa separação teve na filha de ambos, o certo é que o comportamento do Andrade para com a filha resultava ser, amiúde,  inseguro e desajeitado. A filha insularizava-se com frequência nos seus silêncios e brincadeiras, e o Andrade, alertado pela ex-mulher, ficava sem saber o que fazer, incomodado por uma vaga sensação de culpa. Da mesma forma desajeitada, começou a enchê-la de presentes para compensar a sua incapacidade de entender ou comunicar com a filha. Se ela, porventura, lhe pedia uma boneca, ele oferecia-lhe, não uma, mas um conjunto de cinco ou seis, todas iguais; e o mesmo procedimento para um disco de música, um vestido, um jogo qualquer - exagerava no número e quantidade dos presentes, porque isso o fazia sentir-se um pouco melhor consigo mesmo. No dia do seu aniversário, ligou-lhe a dar os parabéns antes de passar por lá, e numa dada altura da conversa, a pergunta damocliana teve de surgir.
- O que é que queres que o pai te ofereça?
- Um abraço, pai, um grande abraço!
Andrade teve um choque - um abraço! Onde é que podia comprar um abraço?
Despediu-se da filha e rumou a loja de brinquedos onde era cliente habitual. Percorreu as diferentes secções, consultou as listagens de stocks num terminal electrónico que estava à disposição dos clientes e, por fim, já um pouco desesperado, interpelou uma empregada.
- Desculpe, a minha filha faz anos hoje, e queria comprar-lhe um Abraço, aliás, queria comprar-lhe uma meia-dúzia deles, e daqueles de maiores dimensões, dos maiores que tiverem.
A empregada encolheu os ombros, e informou.
- Já não temos para venda, já se esgotaram há muito, mas se bem me lembro, eram de tamanho único.
- E nas outras lojas do grupo, não podia perguntar?
- Só um momento, vou verificar...
Esperou ansiosamente, enquanto a empregada pesquisava, viu-a depois usar o telefone por detrás do balcão, antes de regressar para ao pé dele com um largo sorriso nos lábios.
- Tenho boas notícias, há uma pequena loja de brinquedos no Avis que ainda tem um Abraço para vender, se puder ir lá buscá-lo...


Só horas depois é que o Andrade chegou ao apartamento da sua ex-mulher, onde decorria a festa de anos da filha. A ex do Andrade assustou-se quando deu de caras com a sua cara angustiada, humedecida pelas lágrimas.
- Aconteceu alguma coisa? Sentes-te bem?
- Não quero que ela me veja assim...
Foi desviado para a cozinha, onde se sentou pesadamente num banco.
- Ela pediu-me que comprasse um Abraço, sabes, aquele boneco que fecha os braços quando o encostamos ao pescoço ou ao ombro, e tenho andado todo o dia na demanda do brinquedo, percorri meia Lisboa para o conseguir comprar.
- Mas conseguiste?! Se conseguiste, porque choras?
- Não percebes, só tinham um Abraço, eu queria comprar cinco ou dez Abraços, e só havia um. Vai ser uma desilusão para a pequena, o dia mais importante do ano, e eu estraguei-o como estrago tudo, acho que nem merecia ser pai.
Ela abanou a cabeça. Tirou-lhe da mão o saco com a prenda, e fê-lo beber um cálice de Porto.
- Deixa aqui a prenda e vai-lhe dar um beijo, ela está nas sete quintas dela, hás-de ver que ela nem vai notar que não levas nenhuma prenda.
Ela puxou-o pelo braço, e empurrou-o suavemente para a porta que dava para a sala. O Andrade, céptico, ficou ali como uma estátua, admirando a filha que brincava no tapete com os amigos, rodeados de brinquedos e papéis de embrulho rasgados. Quando ele já estava prestes a bater em retirada, a filha ergueu os olhos e viu-o. Correu ao seu encontro com uma expressão de inequívoca felicidade, lançou-se ao seu pescoço e deu-lhe um abraço, um grande e forte abraço.

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