Da profundidade do olhar

A primeira vez que notou algo de extraordinário no discurso do filho de cinco anos, foi quando os dois estavam nas traseiras da casa a mudar a corrente da bicicleta infantil, e o pequeno, com o olhar pousado na linha do horizonte, confidenciou-lhe:
- Sabes pai, eu costumo ver umas bolas gigantes a subir e a descer na montanha, são transparentes, mas eu consigo ver.
As suas mãos oleosas imobilizaram-se sobre a corrente.
- Quando é que as vês? Quando estás na escola ou cá em casa?
- Em muito lado. Ainda agora vi uma bola gigante, estava no meio do céu e desapareceu...
- Como as bolhas de sabão?
- Não, não arrebentou, começou a ficar pequenina, pequenina e desapareceu.
- Está bem, tu é que sabes! - contemporizou, e não adiantou mais a conversa.
À tardinha, quando a mulher chegou do trabalho, narrou-lhe o episódio, mas ambos decidiram manter a serenidade. Era normal as crianças serem imaginativas, e essa podia ser apenas uma fantasia inconsequente. Nada fariam, a menos que essa fantasia persistisse, situação diante da qual, falariam com o pediatra para ele recomendar um pedopsicólogo de confiança. Mas o filho, por esses dias, não voltou a mencionar as bolas gigantes, nem nos meses seguintes, e ambos acharam que o assunto ficara arrumado de vez.
Muito precocemente. Nos meses do Estio, quando ele e a mulher conseguiram férias juntos, foram aproveitando todos os bocados de bom tempo para fazerem praia. Acampavam numa clareira do areal com toda a tralha adjacente, o chapéu de sol e o corta-vento, o saco e a geleira dos comes e bebes, mais a mochila dos brinquedos de praia e a sacola com o jornal e os livros, e o camião de plástico gigante ou, em alternativa, o carrinho-de-mão de brincar.
Numa dessas incursões balneares, o filho entreteve-se uma tarde inteira com as formas de plástico de animais e crustáceos. Prensava areia molhada dentro delas e desenformava-as em cima da toalha, dispondo as figuras numa espécie de sequência coerente, mamíferos com mamíferos, crustáceos com crustáceos, e de seguida, desmanchava-as, e voltava a criar uma nova sequência com as figuras alternadas. Amiúde, ia a correr até fímbria do areal para encher um balde com a água que necessitava para a sua arte efémera. Os pais estavam meio a dormitar sobre as toalhas estendidas quando ele voltou com o balde atestado de água e comentou com serenidade.
- Pai, está ali outra vez uma daquelas bolas gigantes de que te falei.
Os dois adultos entreolharam-se como se tivesse soado um alarme.
- Ali, aonde, meu filho?
- Sobre o mar, quase ao pé da areia, até faz um círculo de espuma por baixo.
- Acho que isso foi Sol a mais, ou então é fome - interviu a mãe do miúdo - senta-te aqui ao pé de mim para lanchares.
Enquanto a mulher abria o saco para retirar um sumo de pacote e uma sanduíche embrulhada, ele afastou-se uns passos, e seleccionou o número do pediatra nos contactos do telemóvel. Fez a chamada, mas ninguém atendeu, e desligou antes de passar para as mensagens. Sentou-se ao lado do filho e tentou a ligação mais uma vez, ao mesmo tempo que a sua atenção era polarizada pela figura alta duma mulher loura que caminhava na direcção deles pelo passadiço de madeira da praia - estava demasiado agasalhada para um tempo daqueles, de saia comprida e camisola de algodão,  botas de cano alto nos pés, e luvas calçadas. Não foi tanto a indumentária bizarra que lhe chamou a atenção, mas a figura alta e curvilínea daquela mulher anatomicamente perfeita. Desistiu da chamada e concentrou a sua atenção nas feições dela, tinha a pele muito branca e leitosa, as feições bem desenhadas e os lábios grossos, mas sentiu uma impressão gelada quando ela passou a uns dois metros dele e o mirou de passagem - os olhos dela eram vítreos e frios, não como os olhos dum cego, mas como se pertencessem a uma morta, ou a uma máquina, um autómato.
- Aquela senhora estava dentro da bola gigante - ouviu o filho dizer-lhe ao ouvido.

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