Borges-Babel-Biblioteca

(imagem daqui)

Uma e outra vez, num acto deliberado ou numa encruzilhada de textos ou referências colhidos de passagem em leituras, tenho regressado à Biblioteca de Babel, de Borges, como se reatasse a leitura dum livro emprestado, mas precioso. Não é assombroso que isso aconteça, é um conto magnífico que se presta a inúmeras abordagens, e experiências de fruição. Serve este parágrafo para introduzir (mais) uma nótula a esse conto.
No segundo parágrafo da narrativa, Borges descreve a estrutura da Biblioteca e apresenta uma sequência de números que, supostamente, deverão ou poderão significar alguma coisa. A Biblioteca é constituída por galerias hexagonais, como favos de uma colmeia e, escreve ele – «a cada um dos muros de cada hexágono correspondem cinco estantes; cada estante encerra trinta e dois livros de formato uniforme; cada livro é de quatrocentas e dez páginas; cada página, de quarenta linhas; cada linha, de umas oitenta letras de cor preta…».
Temos assim os algarismos 5-32-410-40-80. Terão eles algum significado? À primeira vista, tudo indica que não, afinal, Borges gostava de nos desconcertar aplicando a sua fantástica erudição em ficções com foros de verdade, como autores, obras e bibliotecas que só existiram na sua profícua imaginação. Mas isso não impede que se tente abordar ou explicar esse enigma.
Procurei, sem êxito, descortinar aí as coordenadas geográficas de um lugar que teria de ser relevante para o escritor, caso de Alexandria, Delfos, Buenos Aires ou outras cidades da Argentina. Também não tive melhor resultado tentando interpretar a combinação imediata desses dígitos: a sua soma (567), ou multiplicação (209.920.000).
Numa interpretação mais serena, continuo a acreditar que estes números não são fortuitos. Referem-se a uma biblioteca, pelo que não será excessivo supor que sejam referências bibliográficas. Mas de que livros, ou de que género de obras literárias?
Voltemos á Biblioteca de Babel. A Biblioteca parece-me uma concepção religiosa pelos conceitos e adjectivos empregues por Borges, pelo que não será absurdo supor também, que eles nos encaminham para obras de cariz religioso, livros religiosos. Citemos apenas, quatro exemplos:
- Borges faz algumas alusões a religiões ou guerras religiosas, como arcanjos, seitas vindicativas, evangelho.
- A Biblioteca compõe-se de um número indefinido, e talvez infinito, de galerias. O infinito que se repete na escada que se abisma e se eleva nela, e no poço onde são arremessados os corpos dos que morreram.
- A Biblioteca não é Deus, mas traduz-se por uma imagem geométrica, platónica, de Deus e da perfeição, a esfera.
- A Biblioteca existe Ab aeterno, e a perfeição dos seus livros trai uma origem divina.
Dito isto, e a ser razoável este raciocínio, ficaria por apurar que trechos de obras religiosas estariam citados nestes algarismos: 5-32-410-40-80. Só Borges o poderia saber, mas, por virtude do ócio, atrevo-me a adiantar algumas possibilidades, meramente ilustrativas.
a) 5-32
Corão, Sura 5:32: “Por isso, nós decretamos para os filhos de Israel que alguém que mate qualquer pessoa que não tenha cometido assassínio ou crimes hediondos, deve ser tido como se ele tivesse morto todas as pessoas. E quem poupa a vida, será também como se ele tivesse poupado a vida de todas as pessoas. Os nossos mensageiros apresentaram-lhes provas claras e revelações, mas a maioria deles, depois de tudo isso, continua a transgredir”.

b) 410
Rig Veda, Mandala 4, Hino 10:
1. Com este dia de louvores, Agni, trazemos-te o que amas.
     O justo julgamento, como um cavalo, com as nossas devoções.
2. Porque foste sempre o condutor do Carro, ó Agni da nobre
     Força, do sacrifício sublime, e do julgamento justo.
3. Que estes louvores te encaminhem até nós, brilhante como o sol,
     O Agni, favorecidos com a graça que emana de ti.
4. Agora podemos servir-te e cantar-te estes tributos, Agni;
     alto como a voz do céu que ruge e explode
5. Apenas neste momento do dia e da noite, o teu olhar é doce.
     Ele brilha junto a nós como o ouro para a glória
6. Imaculado é o teu corpo, brilhante como o ouro, como manteiga clarificada:
     Esta brilha como ouro sobre ti, ó Único!
7. Todo o ódio e malícia cometidos, ó Agni sagrado, tu afastas do homem que te venera
    com correcção.
8. Agni, e contigo os deuses, prósperos sejam os laços e parentescos. Seja esta a nossa
   aliança, agora e neste altar!

c) 40
Salmos, capítulo 40 (excerto)
«(…)
5 Muitas são, SENHOR, meu Deus, as maravilhas que tens operado para connosco, e os teus pensamentos não se podem contar diante de ti; eu quisera anunciá-los e manifestá-los, mas são mais do que se podem contar.
6 Sacrifício e oferta, Tu não quiseste; abriste os meus ouvidos. Holocausto e expiação pelo pecado, nada disso reclamaste.
(…)
12 Porque males sem número me têm rodeado; as minhas iniquidades me prenderam, de modo que não posso olhar para cima; são mais numerosas do que os cabelos da minha cabeça, pelo que desfalece o meu coração.
13 Digna-te, SENHOR, livrar-me; SENHOR, apressa-te em meu auxílio.
14 Sejam, à uma, confundidos e envergonhados os que buscam a minha vida para destruí-la; tornem atrás e confundam-se os que me querem mal (…)».

d) 80
Salmos, capítulo 80 (excerto)
«(…)
4 Ó SENHOR, Deus dos Exércitos, até quando te indignarás contra a oração do teu povo?
5 Tu os sustentas com o pão de lágrimas e lhes dás a beber lágrimas em abundância.
6 Tu nos pões como objecto de contenção entre os nossos vizinhos; e os nossos inimigos escarnecem de nós entre si.
7 Faz-nos voltar, ó Deus dos Exércitos; faz resplandecer o teu rosto, e seremos salvos.
8 Trouxeste uma vinha do Egipto; lançaste fora as nações e a plantaste.
9 Preparaste-lhe lugar, e fizeste com que ela aprofundasse raízes; e, assim, encheu a terra.
10 Os montes cobriram-se com a sua sombra, e como os cedros de Deus se tornaram os seus ramos.
11 Ela estendeu a sua ramagem até ao mar, e os seus ramos, até ao rio.
12 Por que quebraste, então, os seus valados, de modo que todos os que passam por ela a vindimam?
13 O javali da selva a devasta, e as feras do campo a devoram (…).

(Acabada esta divagação, acho que Borges, uma vez mais e esteja onde estiver, continua a divertir-se com estes ecos das suas palavras)



Mensagens populares deste blogue

A viagem

Abril de 1918 - o caminho para uma Primavera de sangue