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A mostrar mensagens de Junho, 2010

Quinta das tabuletas

O diligente agente da Funerária reformou-se mas não se tornou um desocupado, preenche o seu tempo tentando medir com uma fita métrica tudo o que encontra pela frente - pessoas, pedras, árvores, animais, montanhas. É o que sucede quando se diz a um homem aplicado que o mundo vai acabar.

Pós-provérbio

- Afia, Roberto, levanta-te, que estás atrasado para o trabalho! - Está bem! - Mas antes de saíres, roda no sentido dos ponteiros do relógio, aquela pecinha em forma de tê do relógio de parede. E se vires lá fora a tua filha, diz que é melhor vir para dentro porque está muito frio, a rapariga acordou de manhã com a ideia fixa de ir saltar naquele entrançado de fios enrolados juntos. - Eu digo, mas não sei se ela confia, porque não me tem respeito nenhum. - Ela que experimente roer o fio, ponho-a logo de castigo!
[Em casa de enforcado, não se fala em corda]

divórcio

«Vivo sozinho e, no entanto, estou sempre acompanhado, tenho um duplo, uma imagem especular de mim mesmo que tira prazer de viver os dias dentro desta casa de um modo distinto de mim, se eu estou acordado, ele anda enroscado nalgum canto ou gaveta a tentar adormecer, e se eu durmo, dança sobre os móveis e nos tectos de estuque, quando falo ou grito, consigo ouvir o desfalecimento dos sons no vácuo cavado em volta da sua cabeça e se, inversamente, tento reflectir um pouco nos meus momentos de tranquilidade, é difícil selar os meus ouvidos aos seus gritos e cânticos triunfais. A minha vida dentro desta casa tem esta virtude ou este malefício ao qual me é impossível escapar, são como as duas faces duma mesma moeda ou as metades nocturna e iluminada do nosso planeta, unas e distintas, distintas e indissociáveis. E não preciso de mais imagens para expor o meu drama, basta-me apontar esta realidade factual: dentro desta casa e mal entro pela sua porta, eu e a minha sombra, levamos vidas par…

Poder de compra 2

Fosse devido à separação entre ele e a mulher, fosse pelo vago desconforto que lhe causava o efeitos que essa separação teve na filha de ambos, o certo é que o comportamento do Andrade para com a filha resultava ser, amiúde,  inseguro e desajeitado. A filha insularizava-se com frequência nos seus silêncios e brincadeiras, e o Andrade, alertado pela ex-mulher, ficava sem saber o que fazer, incomodado por uma vaga sensação de culpa. Da mesma forma desajeitada, começou a enchê-la de presentes para compensar a sua incapacidade de entender ou comunicar com a filha. Se ela, porventura, lhe pedia uma boneca, ele oferecia-lhe, não uma, mas um conjunto de cinco ou seis, todas iguais; e o mesmo procedimento para um disco de música, um vestido, um jogo qualquer - exagerava no número e quantidade dos presentes, porque isso o fazia sentir-se um pouco melhor consigo mesmo. No dia do seu aniversário, ligou-lhe a dar os parabéns antes de passar por lá, e numa dada altura da conversa, a pergunta damoc…

Poder de compra

Um toque de telemóvel na atmosfera ronronante dum cabeleireiro, a mulher suspira, pede desculpa à menina que lhe acerta as unhas, e alcança o aparelho. Era a filha.
- Mãe, sou eu outra vez!
- Ainda estás no Centro Comercial?
- Tou, agora encontrei a Vanda e estamos as duas a ver umas roupas, comprei calças de ganga, tops, e uns sapatos de cunha lindos que ficam mesmo a condizer com aquela roupa me compraste para o casamento do primo. Mas não era por isso que te estava a ligar, encontrei um colar de argolas em prata, que tinha muita vontade de comprar. Achas que posso?
- Tu é que sabes se estás muito longe do limite do cartão de crédito, mas faz como quiseres. Já é a terceira vez que me ligas a perguntar, e eu daqui não estou a ver os artigos nem os preços. Confio no teu bom gosto.
- Tá, brigada, mãe!
Voltou a recostar-se na cadeira, folheando uma revista com a mão desocupada. Quando a empregada passou das unhas das mãos para as dos pés, o telemóvel toca outra vez.
- Mãe, sou eu! A chamada pa…

Borges-Babel-Biblioteca

Imagem
(imagem daqui)
Uma e outra vez, num acto deliberado ou numa encruzilhada de textos ou referências colhidos de passagem em leituras, tenho regressado à Biblioteca de Babel, de Borges, como se reatasse a leitura dum livro emprestado, mas precioso. Não é assombroso que isso aconteça, é um conto magnífico que se presta a inúmeras abordagens, e experiências de fruição. Serve este parágrafo para introduzir (mais) uma nótula a esse conto. No segundo parágrafo da narrativa, Borges descreve a estrutura da Biblioteca e apresenta uma sequência de números que, supostamente, deverão ou poderão significar alguma coisa. A Biblioteca é constituída por galerias hexagonais, como favos de uma colmeia e, escreve ele – «a cada um dos muros de cada hexágono correspondem cinco estantes; cada estante encerra trinta e dois livros de formato uniforme; cada livro é de quatrocentas e dez páginas; cada página, de quarenta linhas; cada linha, de umas oitenta letras de cor preta…». Temos assim os algarismos 5-32-410-4…

Da profundidade do olhar

A primeira vez que notou algo de extraordinário no discurso do filho de cinco anos, foi quando os dois estavam nas traseiras da casa a mudar a corrente da bicicleta infantil, e o pequeno, com o olhar pousado na linha do horizonte, confidenciou-lhe:
- Sabes pai, eu costumo ver umas bolas gigantes a subir e a descer na montanha, são transparentes, mas eu consigo ver.
As suas mãos oleosas imobilizaram-se sobre a corrente.
- Quando é que as vês? Quando estás na escola ou cá em casa?
- Em muito lado. Ainda agora vi uma bola gigante, estava no meio do céu e desapareceu...
- Como as bolhas de sabão?
- Não, não arrebentou, começou a ficar pequenina, pequenina e desapareceu.
- Está bem, tu é que sabes! - contemporizou, e não adiantou mais a conversa.
À tardinha, quando a mulher chegou do trabalho, narrou-lhe o episódio, mas ambos decidiram manter a serenidade. Era normal as crianças serem imaginativas, e essa podia ser apenas uma fantasia inconsequente. Nada fariam, a menos que essa fantasia persistis…

O perfil adequado

Hitler e Estaline, quando estudavam na Escola Secundária, fizeram uma clara opção vocacional – ambos escolheram desHumanidades.

Matéria-prima

Casulos vazios e algodoados; Finíssimas teias de aranha, enroladas em volta de um cabelo louro de criança; Duas ou três mãos-cheias de espuma, colhidas no fundo duma cascata; Folhas, muitas folhas de árvore, previamente secas entre as páginas de livros até não serem mais do que películas sépia imponderáveis, e líquenes esbranquiçados, retidos na superfície húmida duma asa de borboleta.
(Estes são alguns dos materiais de que fazemos uso, quando nos pomos a urdir castelos no ar).

Da mudança

“Levem tudo!”, tinham sido as instruções expressas para a empresa de mudanças. Os funcionários da empresa cumpriram o melhor que souberam, e procuraram levar tudo na mudança, da cama de casal e das máquinas de lavar á corda de nylon do estendal, e as molas de roupa caídas no chão. Mas não levaram tudo. Ficou esquecido o pato amarelo de faiança que decorava o relvado da casa, e ele não se importou com isso porque não era de mudanças. Era um pato apático.

Uma pérola da micro-ficção:

Knock
de Fredric Brown:
"The last man on earth sat alone in a room. There was a knock on the door".

Pain in my soul

Um pouco assustado com o futuro imediato, deu algumas passadas desconexas pela sala na penumbra e acabou por acostar ao pequeno bar de canto. Escolheu um copo largo e serviu-se de uma dose de brandi e bebeu-o num sorvo. Escorropichou as últimas gotas no fundo do copo e passou para o uísque, dois dedos de uísque, pensou em acrescentar gelo mas, em vez disso, dobrou a medida no copo, e bebeu-o com alguma ansiedade. Expirou com força, expulsando os vapores quentes da garganta. Já estava meio sedado, talvez já fosse o suficiente. Enchendo-se de coragem, passou à saleta contígua onde a sua mulher cumpria os seus deveres de anfitriã para com os amigos da filha, todos músicos em princípio de carreira. Esta abriu muito os braços quanto o viu, e abraçou-o com força.
- Demoraste tanto tempo, paizinho - a voz da filha era esganiçada, mesmo a falar - podemos ouvir agora a demo que gravamos para mandarmos para as editoras?

Resíduos orgânicos

- Uma planta de cannabis? Porque raio é que eu fui reencarnar numa planta de cannabis? - Acho que é uma questão de preguiça – comentou uma borboleta perto de si – Deus ou o que seja, devem estar a fazer o que lhes exige menos esforço.

Hora feliz

Logo que o tractor fêmea começou com tracções, os médicos souberam que estava quase a nascer o tractorzinho.

A forca e a força

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O marinheiro sentado com as costas apoiado num tronco de árvore, olhava aborrecido para os homenzinhos minúsculos que se afadigavam em volta do seu pé descalço, dando laçadas e nós ao dedo grande. - Vocês não desistem! – Reconheceu com uma ponta de admiração. - Cala-te gigante! As palavras que dirigiste ao nosso rei foram muito graves e ofensivas, e foste condenado á pena de morte pelo nosso conselho de Estado. Não tens como tentar iludir a nossa justiça. O gigante sentiu vontade de coçar o pé, enquanto eles apertavam o laço em volta do dedo, mas resistiu. - Mas quando é que vocês se convencem, que não é assim que me conseguem enforcar? - Silêncio, Gulliver! Já sobreviveste por duas vezes à nossa morte misericordiosa, mas ainda temos mais uma tentativa antes de tu poderes apelar, por fim, á clemência do nosso rei.

Dobrar a esquina

Quando atingiu os cinquenta anos, pensou para consigo, que essa idade era o fim do princípio, e que entrara quase sem dar por isso no seu declínio físico e mental. Quando atingiu os setenta, ficou convicto de essa idade redonda era o princípio do fim, e, como num filme autobiográfico, imaginou os nomes que apareceriam no genérico final, de todos os entes queridos que o haviam acompanhado e que tinham contribuído para que ele fosse o que era, e ás quais desejava manifestar a sua gratidão. Ao dobrar os noventa, sabia que o genérico final do seu filme emagrecera muito, muitos haviam ficado pelo caminho, levados já pela morte, e também havia muitos nomes que ele agora hesitava em inscrever nessa lista, e que representavam os entes queridos que desejavam vê-lo morto.

O mundo tal como ele é

Naquela manhã, quando saiu da Óptica e no caminho para o trabalho, sentiu um gélido e completo horror. Todas as pessoas com que se cruzava, pareciam horrendos mutantes, de feições retorcidas e monstruosas, fauces abertas com presas enormes a escorrer sangue, e múltiplos membros revestidos de escamas e ventosas purulentas. Era uma visão insuportável, preferia ter permanecido como antes, com a visão embaciada e o seu oculista a pressioná-lo para mudar de lentes.

Géia ciência

Aterrisagem, perfeita, diga-se, no planeta rochoso e estéril. O astronauta americano abandona a nave, dá meia dúzia de passos televisionados, e enterra a bandeira do seu país no solo e, nesse mesmo instante, cava-se um abismo sob ele que o engole. Nós, por vezes, esquecemo-nos de que os planetas também podem sentir dor.
Na penitenciária de muros altos e fortes, um grupo de prisioneiros prepara a fuga. Vestem sobre a sua vestimenta parda de prisioneiros, os enfeites coloridos de pano e papel que os faz parecer legumes e vegetais. Ocultam-se na penumbra duma esquina junto ás cozinhas, e esperam a carrinha que faz o aprovisionamento. Ela chega á hora habitual, e quando o ajudante do motorista deixa abertas as portas de trás para descarregar os produtos, eles enfiam-se lá dentro e camuflam-se entre caixas de batatas e alfaces. As portas fecham-se, e mal a carrinha cruza os portões da penitenciária, os prisioneiros começam a bater com força no habitáculo. O motorista faz uma travagem brusca, alarmado com tanto alarido. Os prisioneiros abrem eles mesmo a porta de trás, saem cá para fora e começam a acenar para os guardas da prisão, rindo e gritando aos saltos. Poucos minutos depois, os guardas estão ao pé deles, armados até os dentes. Um deles, dá-lhes os parabéns pelo ardil, trocam-se gracejos e apertos d…