INSTRUÇÕES:

Outros dados, e cartas, no final da página

Quinta das tabuletas

O diligente agente da Funerária reformou-se mas não se tornou um desocupado, preenche o seu tempo tentando medir com uma fita métrica tudo o que encontra pela frente - pessoas, pedras, árvores, animais, montanhas. É o que sucede quando se diz a um homem aplicado que o mundo vai acabar.

Pós-provérbio

- Afia, Roberto, levanta-te, que estás atrasado para o trabalho!
- Está bem!
- Mas antes de saíres, roda no sentido dos ponteiros do relógio, aquela pecinha em forma de tê do relógio de parede. E se vires lá fora a tua filha, diz que é melhor vir para dentro porque está muito frio, a rapariga acordou de manhã com a ideia fixa de ir saltar naquele entrançado de fios enrolados juntos.
- Eu digo, mas não sei se ela confia, porque não me tem respeito nenhum.
- Ela que experimente roer o fio, ponho-a logo de castigo!

[Em casa de enforcado, não se fala em corda]

divórcio


«Vivo sozinho e, no entanto, estou sempre acompanhado, tenho um duplo, uma imagem especular de mim mesmo que tira prazer de viver os dias dentro desta casa de um modo distinto de mim, se eu estou acordado, ele anda enroscado nalgum canto ou gaveta a tentar adormecer, e se eu durmo, dança sobre os móveis e nos tectos de estuque, quando falo ou grito, consigo ouvir o desfalecimento dos sons no vácuo cavado em volta da sua cabeça e se, inversamente, tento reflectir um pouco nos meus momentos de tranquilidade, é difícil selar os meus ouvidos aos seus gritos e cânticos triunfais. A minha vida dentro desta casa tem esta virtude ou este malefício ao qual me é impossível escapar, são como as duas faces duma mesma moeda ou as metades nocturna e iluminada do nosso planeta, unas e distintas, distintas e indissociáveis. E não preciso de mais imagens para expor o meu drama, basta-me apontar esta realidade factual: dentro desta casa e mal entro pela sua porta, eu e a minha sombra, levamos vidas paralelas!». 

Poder de compra 2

Fosse devido à separação entre ele e a mulher, fosse pelo vago desconforto que lhe causava o efeitos que essa separação teve na filha de ambos, o certo é que o comportamento do Andrade para com a filha resultava ser, amiúde,  inseguro e desajeitado. A filha insularizava-se com frequência nos seus silêncios e brincadeiras, e o Andrade, alertado pela ex-mulher, ficava sem saber o que fazer, incomodado por uma vaga sensação de culpa. Da mesma forma desajeitada, começou a enchê-la de presentes para compensar a sua incapacidade de entender ou comunicar com a filha. Se ela, porventura, lhe pedia uma boneca, ele oferecia-lhe, não uma, mas um conjunto de cinco ou seis, todas iguais; e o mesmo procedimento para um disco de música, um vestido, um jogo qualquer - exagerava no número e quantidade dos presentes, porque isso o fazia sentir-se um pouco melhor consigo mesmo. No dia do seu aniversário, ligou-lhe a dar os parabéns antes de passar por lá, e numa dada altura da conversa, a pergunta damocliana teve de surgir.
- O que é que queres que o pai te ofereça?
- Um abraço, pai, um grande abraço!
Andrade teve um choque - um abraço! Onde é que podia comprar um abraço?
Despediu-se da filha e rumou a loja de brinquedos onde era cliente habitual. Percorreu as diferentes secções, consultou as listagens de stocks num terminal electrónico que estava à disposição dos clientes e, por fim, já um pouco desesperado, interpelou uma empregada.
- Desculpe, a minha filha faz anos hoje, e queria comprar-lhe um Abraço, aliás, queria comprar-lhe uma meia-dúzia deles, e daqueles de maiores dimensões, dos maiores que tiverem.
A empregada encolheu os ombros, e informou.
- Já não temos para venda, já se esgotaram há muito, mas se bem me lembro, eram de tamanho único.
- E nas outras lojas do grupo, não podia perguntar?
- Só um momento, vou verificar...
Esperou ansiosamente, enquanto a empregada pesquisava, viu-a depois usar o telefone por detrás do balcão, antes de regressar para ao pé dele com um largo sorriso nos lábios.
- Tenho boas notícias, há uma pequena loja de brinquedos no Avis que ainda tem um Abraço para vender, se puder ir lá buscá-lo...


Só horas depois é que o Andrade chegou ao apartamento da sua ex-mulher, onde decorria a festa de anos da filha. A ex do Andrade assustou-se quando deu de caras com a sua cara angustiada, humedecida pelas lágrimas.
- Aconteceu alguma coisa? Sentes-te bem?
- Não quero que ela me veja assim...
Foi desviado para a cozinha, onde se sentou pesadamente num banco.
- Ela pediu-me que comprasse um Abraço, sabes, aquele boneco que fecha os braços quando o encostamos ao pescoço ou ao ombro, e tenho andado todo o dia na demanda do brinquedo, percorri meia Lisboa para o conseguir comprar.
- Mas conseguiste?! Se conseguiste, porque choras?
- Não percebes, só tinham um Abraço, eu queria comprar cinco ou dez Abraços, e só havia um. Vai ser uma desilusão para a pequena, o dia mais importante do ano, e eu estraguei-o como estrago tudo, acho que nem merecia ser pai.
Ela abanou a cabeça. Tirou-lhe da mão o saco com a prenda, e fê-lo beber um cálice de Porto.
- Deixa aqui a prenda e vai-lhe dar um beijo, ela está nas sete quintas dela, hás-de ver que ela nem vai notar que não levas nenhuma prenda.
Ela puxou-o pelo braço, e empurrou-o suavemente para a porta que dava para a sala. O Andrade, céptico, ficou ali como uma estátua, admirando a filha que brincava no tapete com os amigos, rodeados de brinquedos e papéis de embrulho rasgados. Quando ele já estava prestes a bater em retirada, a filha ergueu os olhos e viu-o. Correu ao seu encontro com uma expressão de inequívoca felicidade, lançou-se ao seu pescoço e deu-lhe um abraço, um grande e forte abraço.

Poder de compra

Um toque de telemóvel na atmosfera ronronante dum cabeleireiro, a mulher suspira, pede desculpa à menina que lhe acerta as unhas, e alcança o aparelho. Era a filha.
- Mãe, sou eu outra vez!
- Ainda estás no Centro Comercial?
- Tou, agora encontrei a Vanda e estamos as duas a ver umas roupas, comprei calças de ganga, tops, e uns sapatos de cunha lindos que ficam mesmo a condizer com aquela roupa me compraste para o casamento do primo. Mas não era por isso que te estava a ligar, encontrei um colar de argolas em prata, que tinha muita vontade de comprar. Achas que posso?
- Tu é que sabes se estás muito longe do limite do cartão de crédito, mas faz como quiseres. Já é a terceira vez que me ligas a perguntar, e eu daqui não estou a ver os artigos nem os preços. Confio no teu bom gosto.
- Tá, brigada, mãe!
Voltou a recostar-se na cadeira, folheando uma revista com a mão desocupada. Quando a empregada passou das unhas das mãos para as dos pés, o telemóvel toca outra vez.
- Mãe, sou eu! A chamada parece que tem interferências.
- O que é desta vez? Um iPod ou ou portátil?
- Não, mãe, agora é que preciso mesmo do teu conselho. Quero comprar um irmãozinho.
- Um irmão!! Não sei se podemos?
- Mãe, não sejas negativa! Ele está em promoção, já foi à revisão e tem as vacinas em dia. A vendedora da loja diz que ele tem os dentes em muito bom estado e é muito asseado. Posso, mãe?
- Não sei...
- Vá lá, mãe, eu nunca tenho companhia quando tu e o pai estão fora de casa....
- Está bem, mas antes de fazeres a compra vê se ainda tens dinheiro no cartão, só para não passares vergonha.
- Obrigado, mãe! Acho que o vou chamar de Rex.

Borges-Babel-Biblioteca

(imagem daqui)

Uma e outra vez, num acto deliberado ou numa encruzilhada de textos ou referências colhidos de passagem em leituras, tenho regressado à Biblioteca de Babel, de Borges, como se reatasse a leitura dum livro emprestado, mas precioso. Não é assombroso que isso aconteça, é um conto magnífico que se presta a inúmeras abordagens, e experiências de fruição. Serve este parágrafo para introduzir (mais) uma nótula a esse conto.
No segundo parágrafo da narrativa, Borges descreve a estrutura da Biblioteca e apresenta uma sequência de números que, supostamente, deverão ou poderão significar alguma coisa. A Biblioteca é constituída por galerias hexagonais, como favos de uma colmeia e, escreve ele – «a cada um dos muros de cada hexágono correspondem cinco estantes; cada estante encerra trinta e dois livros de formato uniforme; cada livro é de quatrocentas e dez páginas; cada página, de quarenta linhas; cada linha, de umas oitenta letras de cor preta…».
Temos assim os algarismos 5-32-410-40-80. Terão eles algum significado? À primeira vista, tudo indica que não, afinal, Borges gostava de nos desconcertar aplicando a sua fantástica erudição em ficções com foros de verdade, como autores, obras e bibliotecas que só existiram na sua profícua imaginação. Mas isso não impede que se tente abordar ou explicar esse enigma.
Procurei, sem êxito, descortinar aí as coordenadas geográficas de um lugar que teria de ser relevante para o escritor, caso de Alexandria, Delfos, Buenos Aires ou outras cidades da Argentina. Também não tive melhor resultado tentando interpretar a combinação imediata desses dígitos: a sua soma (567), ou multiplicação (209.920.000).
Numa interpretação mais serena, continuo a acreditar que estes números não são fortuitos. Referem-se a uma biblioteca, pelo que não será excessivo supor que sejam referências bibliográficas. Mas de que livros, ou de que género de obras literárias?
Voltemos á Biblioteca de Babel. A Biblioteca parece-me uma concepção religiosa pelos conceitos e adjectivos empregues por Borges, pelo que não será absurdo supor também, que eles nos encaminham para obras de cariz religioso, livros religiosos. Citemos apenas, quatro exemplos:
- Borges faz algumas alusões a religiões ou guerras religiosas, como arcanjos, seitas vindicativas, evangelho.
- A Biblioteca compõe-se de um número indefinido, e talvez infinito, de galerias. O infinito que se repete na escada que se abisma e se eleva nela, e no poço onde são arremessados os corpos dos que morreram.
- A Biblioteca não é Deus, mas traduz-se por uma imagem geométrica, platónica, de Deus e da perfeição, a esfera.
- A Biblioteca existe Ab aeterno, e a perfeição dos seus livros trai uma origem divina.
Dito isto, e a ser razoável este raciocínio, ficaria por apurar que trechos de obras religiosas estariam citados nestes algarismos: 5-32-410-40-80. Só Borges o poderia saber, mas, por virtude do ócio, atrevo-me a adiantar algumas possibilidades, meramente ilustrativas.
a) 5-32
Corão, Sura 5:32: “Por isso, nós decretamos para os filhos de Israel que alguém que mate qualquer pessoa que não tenha cometido assassínio ou crimes hediondos, deve ser tido como se ele tivesse morto todas as pessoas. E quem poupa a vida, será também como se ele tivesse poupado a vida de todas as pessoas. Os nossos mensageiros apresentaram-lhes provas claras e revelações, mas a maioria deles, depois de tudo isso, continua a transgredir”.

b) 410
Rig Veda, Mandala 4, Hino 10:
1. Com este dia de louvores, Agni, trazemos-te o que amas.
     O justo julgamento, como um cavalo, com as nossas devoções.
2. Porque foste sempre o condutor do Carro, ó Agni da nobre
     Força, do sacrifício sublime, e do julgamento justo.
3. Que estes louvores te encaminhem até nós, brilhante como o sol,
     O Agni, favorecidos com a graça que emana de ti.
4. Agora podemos servir-te e cantar-te estes tributos, Agni;
     alto como a voz do céu que ruge e explode
5. Apenas neste momento do dia e da noite, o teu olhar é doce.
     Ele brilha junto a nós como o ouro para a glória
6. Imaculado é o teu corpo, brilhante como o ouro, como manteiga clarificada:
     Esta brilha como ouro sobre ti, ó Único!
7. Todo o ódio e malícia cometidos, ó Agni sagrado, tu afastas do homem que te venera
    com correcção.
8. Agni, e contigo os deuses, prósperos sejam os laços e parentescos. Seja esta a nossa
   aliança, agora e neste altar!

c) 40
Salmos, capítulo 40 (excerto)
«(…)
5 Muitas são, SENHOR, meu Deus, as maravilhas que tens operado para connosco, e os teus pensamentos não se podem contar diante de ti; eu quisera anunciá-los e manifestá-los, mas são mais do que se podem contar.
6 Sacrifício e oferta, Tu não quiseste; abriste os meus ouvidos. Holocausto e expiação pelo pecado, nada disso reclamaste.
(…)
12 Porque males sem número me têm rodeado; as minhas iniquidades me prenderam, de modo que não posso olhar para cima; são mais numerosas do que os cabelos da minha cabeça, pelo que desfalece o meu coração.
13 Digna-te, SENHOR, livrar-me; SENHOR, apressa-te em meu auxílio.
14 Sejam, à uma, confundidos e envergonhados os que buscam a minha vida para destruí-la; tornem atrás e confundam-se os que me querem mal (…)».

d) 80
Salmos, capítulo 80 (excerto)
«(…)
4 Ó SENHOR, Deus dos Exércitos, até quando te indignarás contra a oração do teu povo?
5 Tu os sustentas com o pão de lágrimas e lhes dás a beber lágrimas em abundância.
6 Tu nos pões como objecto de contenção entre os nossos vizinhos; e os nossos inimigos escarnecem de nós entre si.
7 Faz-nos voltar, ó Deus dos Exércitos; faz resplandecer o teu rosto, e seremos salvos.
8 Trouxeste uma vinha do Egipto; lançaste fora as nações e a plantaste.
9 Preparaste-lhe lugar, e fizeste com que ela aprofundasse raízes; e, assim, encheu a terra.
10 Os montes cobriram-se com a sua sombra, e como os cedros de Deus se tornaram os seus ramos.
11 Ela estendeu a sua ramagem até ao mar, e os seus ramos, até ao rio.
12 Por que quebraste, então, os seus valados, de modo que todos os que passam por ela a vindimam?
13 O javali da selva a devasta, e as feras do campo a devoram (…).

(Acabada esta divagação, acho que Borges, uma vez mais e esteja onde estiver, continua a divertir-se com estes ecos das suas palavras)



Da profundidade do olhar

A primeira vez que notou algo de extraordinário no discurso do filho de cinco anos, foi quando os dois estavam nas traseiras da casa a mudar a corrente da bicicleta infantil, e o pequeno, com o olhar pousado na linha do horizonte, confidenciou-lhe:
- Sabes pai, eu costumo ver umas bolas gigantes a subir e a descer na montanha, são transparentes, mas eu consigo ver.
As suas mãos oleosas imobilizaram-se sobre a corrente.
- Quando é que as vês? Quando estás na escola ou cá em casa?
- Em muito lado. Ainda agora vi uma bola gigante, estava no meio do céu e desapareceu...
- Como as bolhas de sabão?
- Não, não arrebentou, começou a ficar pequenina, pequenina e desapareceu.
- Está bem, tu é que sabes! - contemporizou, e não adiantou mais a conversa.
À tardinha, quando a mulher chegou do trabalho, narrou-lhe o episódio, mas ambos decidiram manter a serenidade. Era normal as crianças serem imaginativas, e essa podia ser apenas uma fantasia inconsequente. Nada fariam, a menos que essa fantasia persistisse, situação diante da qual, falariam com o pediatra para ele recomendar um pedopsicólogo de confiança. Mas o filho, por esses dias, não voltou a mencionar as bolas gigantes, nem nos meses seguintes, e ambos acharam que o assunto ficara arrumado de vez.
Muito precocemente. Nos meses do Estio, quando ele e a mulher conseguiram férias juntos, foram aproveitando todos os bocados de bom tempo para fazerem praia. Acampavam numa clareira do areal com toda a tralha adjacente, o chapéu de sol e o corta-vento, o saco e a geleira dos comes e bebes, mais a mochila dos brinquedos de praia e a sacola com o jornal e os livros, e o camião de plástico gigante ou, em alternativa, o carrinho-de-mão de brincar.
Numa dessas incursões balneares, o filho entreteve-se uma tarde inteira com as formas de plástico de animais e crustáceos. Prensava areia molhada dentro delas e desenformava-as em cima da toalha, dispondo as figuras numa espécie de sequência coerente, mamíferos com mamíferos, crustáceos com crustáceos, e de seguida, desmanchava-as, e voltava a criar uma nova sequência com as figuras alternadas. Amiúde, ia a correr até fímbria do areal para encher um balde com a água que necessitava para a sua arte efémera. Os pais estavam meio a dormitar sobre as toalhas estendidas quando ele voltou com o balde atestado de água e comentou com serenidade.
- Pai, está ali outra vez uma daquelas bolas gigantes de que te falei.
Os dois adultos entreolharam-se como se tivesse soado um alarme.
- Ali, aonde, meu filho?
- Sobre o mar, quase ao pé da areia, até faz um círculo de espuma por baixo.
- Acho que isso foi Sol a mais, ou então é fome - interviu a mãe do miúdo - senta-te aqui ao pé de mim para lanchares.
Enquanto a mulher abria o saco para retirar um sumo de pacote e uma sanduíche embrulhada, ele afastou-se uns passos, e seleccionou o número do pediatra nos contactos do telemóvel. Fez a chamada, mas ninguém atendeu, e desligou antes de passar para as mensagens. Sentou-se ao lado do filho e tentou a ligação mais uma vez, ao mesmo tempo que a sua atenção era polarizada pela figura alta duma mulher loura que caminhava na direcção deles pelo passadiço de madeira da praia - estava demasiado agasalhada para um tempo daqueles, de saia comprida e camisola de algodão,  botas de cano alto nos pés, e luvas calçadas. Não foi tanto a indumentária bizarra que lhe chamou a atenção, mas a figura alta e curvilínea daquela mulher anatomicamente perfeita. Desistiu da chamada e concentrou a sua atenção nas feições dela, tinha a pele muito branca e leitosa, as feições bem desenhadas e os lábios grossos, mas sentiu uma impressão gelada quando ela passou a uns dois metros dele e o mirou de passagem - os olhos dela eram vítreos e frios, não como os olhos dum cego, mas como se pertencessem a uma morta, ou a uma máquina, um autómato.
- Aquela senhora estava dentro da bola gigante - ouviu o filho dizer-lhe ao ouvido.

O perfil adequado

Hitler e Estaline, quando estudavam na Escola Secundária, fizeram uma clara opção vocacional – ambos escolheram desHumanidades.

Matéria-prima

Casulos vazios e algodoados;
Finíssimas teias de aranha, enroladas em volta de um cabelo louro de criança;
Duas ou três mãos-cheias de espuma, colhidas no fundo duma cascata;
Folhas, muitas folhas de árvore, previamente secas entre as páginas de livros até não serem mais do que películas sépia imponderáveis,
e
líquenes esbranquiçados, retidos na superfície húmida duma asa de borboleta.

(Estes são alguns dos materiais de que fazemos uso, quando nos pomos a urdir castelos no ar).

Da mudança

“Levem tudo!”, tinham sido as instruções expressas para a empresa de mudanças. Os funcionários da empresa cumpriram o melhor que souberam, e procuraram levar tudo na mudança, da cama de casal e das máquinas de lavar á corda de nylon do estendal, e as molas de roupa caídas no chão. Mas não levaram tudo. Ficou esquecido o pato amarelo de faiança que decorava o relvado da casa, e ele não se importou com isso porque não era de mudanças. Era um pato apático.

Uma pérola da micro-ficção:

Knock 
de Fredric Brown:
"The last man on earth sat alone in a room. There was a knock on the door".

Pain in my soul

Um pouco assustado com o futuro imediato, deu algumas passadas desconexas pela sala na penumbra e acabou por acostar ao pequeno bar de canto. Escolheu um copo largo e serviu-se de uma dose de brandi e bebeu-o num sorvo. Escorropichou as últimas gotas no fundo do copo e passou para o uísque, dois dedos de uísque, pensou em acrescentar gelo mas, em vez disso, dobrou a medida no copo, e bebeu-o com alguma ansiedade. Expirou com força, expulsando os vapores quentes da garganta. Já estava meio sedado, talvez já fosse o suficiente. Enchendo-se de coragem, passou à saleta contígua onde a sua mulher cumpria os seus deveres de anfitriã para com os amigos da filha, todos músicos em princípio de carreira. Esta abriu muito os braços quanto o viu, e abraçou-o com força.
- Demoraste tanto tempo, paizinho - a voz da filha era esganiçada, mesmo a falar - podemos ouvir agora a demo que gravamos para mandarmos para as editoras?

Resíduos orgânicos

- Uma planta de cannabis? Porque raio é que eu fui reencarnar numa planta de cannabis?
- Acho que é uma questão de preguiça – comentou uma borboleta perto de si – Deus ou o que seja, devem estar a fazer o que lhes exige menos esforço.

Hora feliz

Logo que o tractor fêmea começou com tracções, os médicos souberam que estava quase a nascer o tractorzinho.

A forca e a força

O marinheiro sentado com as costas apoiado num tronco de árvore, olhava aborrecido para os homenzinhos minúsculos que se afadigavam em volta do seu pé descalço, dando laçadas e nós ao dedo grande.
- Vocês não desistem! – Reconheceu com uma ponta de admiração.
- Cala-te gigante! As palavras que dirigiste ao nosso rei foram muito graves e ofensivas, e foste condenado á pena de morte pelo nosso conselho de Estado. Não tens como tentar iludir a nossa justiça.
O gigante sentiu vontade de coçar o pé, enquanto eles apertavam o laço em volta do dedo, mas resistiu.
- Mas quando é que vocês se convencem, que não é assim que me conseguem enforcar?
- Silêncio, Gulliver! Já sobreviveste por duas vezes à nossa morte misericordiosa, mas ainda temos mais uma tentativa antes de tu poderes apelar, por fim, á clemência do nosso rei.

Dobrar a esquina

Quando atingiu os cinquenta anos, pensou para consigo, que essa idade era o fim do princípio, e que entrara quase sem dar por isso no seu declínio físico e mental. Quando atingiu os setenta, ficou convicto de essa idade redonda era o princípio do fim, e, como num filme autobiográfico, imaginou os nomes que apareceriam no genérico final, de todos os entes queridos que o haviam acompanhado e que tinham contribuído para que ele fosse o que era, e ás quais desejava manifestar a sua gratidão. Ao dobrar os noventa, sabia que o genérico final do seu filme emagrecera muito, muitos haviam ficado pelo caminho, levados já pela morte, e também havia muitos nomes que ele agora hesitava em inscrever nessa lista, e que representavam os entes queridos que desejavam vê-lo morto.

O mundo tal como ele é

Naquela manhã, quando saiu da Óptica e no caminho para o trabalho, sentiu um gélido e completo horror. Todas as pessoas com que se cruzava, pareciam horrendos mutantes, de feições retorcidas e monstruosas, fauces abertas com presas enormes a escorrer sangue, e múltiplos membros revestidos de escamas e ventosas purulentas. Era uma visão insuportável, preferia ter permanecido como antes, com a visão embaciada e o seu oculista a pressioná-lo para mudar de lentes.

Géia ciência

Aterrisagem, perfeita, diga-se, no planeta rochoso e estéril. O astronauta americano abandona a nave, dá meia dúzia de passos televisionados, e enterra a bandeira do seu país no solo e, nesse mesmo instante, cava-se um abismo sob ele que o engole.
Nós, por vezes, esquecemo-nos de que os planetas também podem sentir dor.

Na penitenciária de muros altos e fortes, um grupo de prisioneiros prepara a fuga. Vestem sobre a sua vestimenta parda de prisioneiros, os enfeites coloridos de pano e papel que os faz parecer legumes e vegetais. Ocultam-se na penumbra duma esquina junto ás cozinhas, e esperam a carrinha que faz o aprovisionamento. Ela chega á hora habitual, e quando o ajudante do motorista deixa abertas as portas de trás para descarregar os produtos, eles enfiam-se lá dentro e camuflam-se entre caixas de batatas e alfaces. As portas fecham-se, e mal a carrinha cruza os portões da penitenciária, os prisioneiros começam a bater com força no habitáculo. O motorista faz uma travagem brusca, alarmado com tanto alarido. Os prisioneiros abrem eles mesmo a porta de trás, saem cá para fora e começam a acenar para os guardas da prisão, rindo e gritando aos saltos. Poucos minutos depois, os guardas estão ao pé deles, armados até os dentes. Um deles, dá-lhes os parabéns pelo ardil, trocam-se gracejos e apertos de mão, e então trocam de roupas e de papéis. Os ex-prisioneiros galgam as escadas para as torres da muralha, e os novos prisioneiros tomam o seu lugar no interior do recinto, tentando imaginar uma maneira original de tentarem a fuga sem serem descobertos.

Rainha

                Subiu lesto os parcos degraus que separavam o átrio do hotel do recinto sobrelevado onde haviam instalado a receção. Ab...