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Os editores de nova geração

Estou plenamente convencido de que há quinze, vinte anos atrás, o jogo da literatura se pautava por regras mais claras. Um tipo escrevia e acreditava no valor dos seus esquissos (a maior parte das vezes, por mera e retinta vaidade), e por conseguinte, desejava ser publicado, ter o seu livro na montra da livraria e na estante das bibliotecas. O que tinha a fazer era tentar as editoras, convencê-las de que havia ali material a aproveitar, ou, tomando a via rápida, tentar o concurso literário, que traz a uma só vez, a visibilidade e o dinheiro contado (o rendimento é algo com que nunca poderia contar se fosse publicado de forma ordinária). Pelo meio, como iniciação ao mundo da literatura, o autor ia publicando algumas coisas nos suplementos literários dos jornais, nos DN’s jovens, só para fazer currículo (uma tradução pelo meio, também era um bom requisito). Na trincheira dos editores, a coisa sempre foi complicada, era garantido, se fosse um autor já conhecido ou uma figura pública, se a obra tivesse mercado, ou fosse adequada ao seu mercado preferencial, se o escrevente tivesse concorrido anteriormente a um prémio literário (o que já é tentador para o que compra/não compra um livro), ou tivesse um estilo do qual se pudesse afirmar que fazia lembrar o de Richard Bach ou Nicholas Sparks. A edição e a publicação também era um universo viciado, uma mafiosice de primeira, no bom sentido (se existe algum), mas ao menos, se um autor era aceite por uma editora, isso era sinal de que aquilo que escrevera tinha algum valor intrínseco, o suficiente para merecer a aposta e o risco.

Hoje em dia, vigora mais a onda do editor com duplo ou triplo air-bag. A aposta e o risco são minimizados ao máximo, e tratados com luvas de pelica. Chegam ao pé de um autor do qual tomam conhecimento por meio de blogues ou sites de escrita e dizem a um tipo: tenho-te lido e gostava que fossemos os primeiros a publicar-te, queres organizar um original para nós vermos? O autor mostra-se tentado, à mercê da vaidadezinha antiga de ter uma obra em papel, e acede, candidamente convencido de que um autor é um autor e um editor é um editor (e um bicho é um bicharoco). A resposta da editora é, quase invariavelmente, positiva, porque no fundo, o autor acaba de entrar involuntariamente no universo da auto-edição. E a proposta da editora desenrola-se em moldes muito semelhantes: faz-se uma pequena edição (duzentos, quinhentos exemplares), e a editora encarrega-se de tudo, impressão, distribuição, marketing. Mas para a coisa ir para a frente, o autor tem de adquirir uma parte substancial dos exemplares publicados (de um quinto a metade), ou custear as diferentes variáveis, que ele determina ao seu gosto, mas que ficarão vinculadas por contrato: se quer o livro a cores ou a preto e branco, paga um tanto, e outro tanto se quer que seja organizado o lançamento do livro ou se o quer anónimo, se quer o nome na capa em português ou em cantonês, se quer ou não um prefácio dum autor conhecido, se quer assegurada a distribuição ou se prefere fazê-la sentado no selim da sua pasteleira, etc, etc.  
Se aceitar o negócio, o autor investe na sua obra, mesmo arriscando a ficar em casa com uma centena ou duas de exemplares que não conseguiu vender (isto, depois de ter oferecido exemplares a todos os familiares e amigos, mais o carteiro, a peixeira e o mendigo da avenida). Mas isto não é o bizarro da questão, que reside no seguinte. À editora com duplo ou triplo air-bag, não importa minimamente que a obra tenha algum valor, é indiferente que seja um romance bem escrito e bem construído ou uma tese com trinta e quatro capítulos sobre os hábitos fecais do ornitorrinco. Se a obra se pagar, ou, sobretudo, se o autor pagar por ela, o risco quase não existe, e a fasquia desce ao mínimo, e fica instaurado o reino universal da mediocridade com bonitas encadernações. Parafraseando uma citação conhecida, ser publicado é o contrário de não ser publicado, e isto é apenas mais um serviço que uma pessoa pode adquirir, como um novo canal por cabo ou uma ida ás putas.
No meu caso pessoal, já tenho em arquivo mais de uma experiência com um editora com triplo air-bag e, feitas as contas, prefiro continuar a pé.
Hasta la vista, baby!

A sombra dos dias

               Um galão direto e uma torrada com pouca manteiga  - pediu a empregada no balcão à colega. Podia até ter pedido antes,...