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Iniciação

- Esta noite, vamos os dois à caça do gambozino! - anunciou o aluno experimentado à caloira universitária.
- Sim...sim...já ouvi falar. Vai ser mais uma praxe!
- O que é que tu sabes sobre o assunto, para estares a falar assim?
- Os gambozinos não existem, tu queres é que eu faça figura de parva, com uma lanterna e um saco uma noite inteira junto a alguma loca de coelho...
- Parva estás a ser agora. Quem conta essas lérias é gente do litoral, que não sabe de nada e inventa coisas. Aqui, o gambozino ou gramuzilho é coisa séria, pensa-se que são crianças abandonadas no mato pelas mães e que crescem como meninos selvagens, comendo e vivendo do que podem. Conheço um monte ali para os lados do Canhoso, onde os gambozinos aparecem em noites de luar e uivam como lobos.
- E não é perigoso?
- Só é perigoso se lhes fizermos mal. Se te aparecer um gambozino, tens de ficar muito quieta e calada para ele não se assustar. Não precisas do saco nem da lanterna, isso são só artigos folclóricos; só tens de conseguir laçar-lhe o pescoço com um xaile de algodão, e ele fica manso como um cordeiro e segue-te para onde quiseres.
Ela aceitou o repto, e numa noite de luar, lá partiram os dois no todo-terreno do estudante. Algumas horas depois, estavam os dois plantados na escuridão dum descampado no meio de nenhures. O colega disse-lhe que ia fazer uma batida a ver se via algum, porque eles costumavam ir beber a um regato próximo, e ela que ficasse ali, encostada ao carvalho, que ele não demoraria.
Ela assim fez, e sentou-se numa raiz saliente da árvore, tremendo de frio ou de medo. Quando o seu coração começou a ficar pequenino, ouviu um farfalhar na relva, e a silhueta do gambozino recortou-se ao luar, não era nenhuma criança, mas homem feito, e caminhava encurvado com os braços abertos, raspando os pés no terreno enquanto emitia pequenos guinchos simiescos. Ela fez um esforço para não se mijar pelas pernas abaixo, quando o gambozino chegou à sua beira, cheirando o ar e esfregando as pernas das suas calças com as unhas.
"O xaile" - lembrou-se ela, mas, como se lhe tivesse lido os pensamentos, a criatura selvagem arrancou-o da mão, e atirou-o para o meio dos arbustos.
"Estou perdida!" reconheceu, olhando de soslaio para as árvores mais ao longe, na esperança de ver o colega aparecer. E o gambozino continuava a estudá-la, cada vez mais próximo, guinchando baixinho e lutando contra o fecho das suas calças. Poucos minutos depois, ela teve de arriscar, e tentando não elevar a voz para não o assustar, observou em tom de admoestação:
- Gambozino, Gambozino...nunca te falaram em preliminares, pois não?



1 comentário:

  1. Creio que nem só os gambozinos precisam aprender sobre preliminares :D

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