Akaba

Em Akaba, segundo satélite habitado do planeta Akabado, vivem os Argutos, gente sofisticada e muito inteligente, que acorda a inventar aforismos, e prossegue o resto do dia sem falar com ninguém, mas mergulhados num estado permanente de criação literária, filosófica e religiosa. Quando a Akaba chega algum estrangeiro, á fatal que se sinta deslocado e pouco confortável, andando no meio dessa gente bizarra que é capaz de declamar as vinte e três mil proposições teológicas ou as oitocentas mil odes ao infinito, mas que se revela incapaz de reconhecer a parentela e possui um dificuldade crescente para se lembrar do seu próprio nome. Por vezes, o inconformado estrangeiro ainda cede ao propósito estéril de mudar alguma coisa e chamar os Akabados á razão, falando-lhes dos seus e fazendo perguntas sobre o passado e a infância, e o planeta que eles conheceram há dois ou três séculos, mas tarde ou cedo, descobrem que isso é tudo em vão, e partem de Akaba do mesmo modo como chegaram, invisíveis, não fossem espíritos os Akabados, seres etéreos que há muito deixaram para trás as suas carcaças pesadas, e que erram em torno das suas ideias e dos rochedos da sua terra, empurrados por uma tristeza fatalista que nunca mais acaba e que lhes sai da cabeça em palavras e ideias que sedimentam na paisagem como a areia estéril.

Mensagens populares deste blogue

A viagem

Abril de 1918 - o caminho para uma Primavera de sangue