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A mostrar mensagens de Maio, 2010

Acabar o trabalho

- Como te sentes, amor? - Inquire a voz amorosa.
Ele está deitado na banheira cheia de água quente, único paliativo para a dor intensa na coluna que mantém há dois dias e que quase o traz paralisado.
- Um pouco melhor, com as tuas massagens e o banho quente.
- Estamos unidos para o melhor e para o pior, amor, e sabes que não poderias esperar outra coisa da tua Nininha que muito te ama.
Ele anuiu em concordância, enquanto ela o ajudava a sair da banheira e o enxugava. Poucos minutos depois, já se conseguira estender em cima da cama, vestido com o robe. A dor voltara, excruciante, como se uma lâmina enferrujada estivesse cravada nas suas costas.
- Experimenta voltar-te de barriga para baixo, querido, pode ser que te doa menos.
Ele aceitou a sugestão, rolou o corpo na cama e ficou com a cabeça e os ombros quase fora dela.
Ouvem tocar o telefone na sala.
- Vou ver quem é - oferece-se ela - não saias daí.
Ele suspirou, demasiado tolhido pela dor para detectar a ironia na voz da mulher. Para se abst…

Dejá Lu

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Trunfos melancólicos
Mais uma compilação minha de textos arquivados em diferentes graus de decomposição.
O tema escolhido são os Arcanos Maiores do Tarot dito de Rider-Waite (há outras denominações e muita discussão). O texto que associei a cada carta (como um cão sarnoso a uivar para a lua) está de alguma forma relacionado com ela, com o que está representado ou com as valências e atributos reconhecidos a cada arcano.
O que continua a desagradar-me é o título: foi um quinta ou sexta escolha, e mesmo assim permanece provisório e anémico. Estou receptivo a sugestões vossas (não remuneradas, claro, porque a publicação desta obra descapitalizou-me por completo ;)

Geometrias

O zigue e o zague separaram-se, cessando de vez o seu percurso sinusóide.
Foi um para cada lado, as linhas curvas a progredir até cada um deles acabar num círculo fechado, estanque, dentro do qual continuaram ad aeternum, numa solidão viciosa como o próprio círculo.

Rewind

Onde. Um choque na avenida central da cidade, com um autocarro atravessado na via com seis ou sete carros enfaixados em cadeia atrás dele. Como toda a confusão colossal, havia uma explicação muito simples para isso. Primeiro o como. O motorista do autocarro já tinha saído há quinze minutos da garagem das camionetas, quando se lembrou que tinha lá deixado a sua lancheira com a comida, e fez o percurso inverso em marcha-atrás. Agora o porquê. O motorista do autocarro passava muito (demasiado) do seu tempo livre sentado diante do televisor a ver filmes com o comando do DVD na mão, recuando na acção sempre que queria ver uma cena do princípio, ou fixar no vidro um frame desejado. Finalmente, o porquê dos porquês: Deus também gosta de brincar com os comandos.

Até que a vida nos separe

O rapaz era volúvel, mas achava que tudo tinha de ser feito de forma séria e tradicional, quando namorava uma mulher, era sempre para ser algo sólido e definitivo, e pedi-a em casamento, e casava. Mas os seus casamentos nunca duravam muito tempo e logo se desencantava com alguma coisa, o mau-hálito dela ou o perfume que usava, a penugem nas coxas, a falta ou excesso de cultura, ou o ladrar do cão dum vizinho, e o divórcio chegava num ápice. Quando o vento estava a favor, era para sempre, quando o vento mudava era Gosto muito de ti, mas…O rapaz tinha já na conta uma dezena de casamentos abortados, e continuava á procura da mulher ideal, e de cada vez que tomava uma decisão, anunciava aos amigos: Vou pedi-la em casamento! - Mas o que o seu cérebro entendia mesmo, era: Vou pedi-la em cata-vento!

Privado

O café-pastelaria situava-se numa daquelas ruazinhas pedonais do centro da cidade, e o seu espaço interior era tão reduzido que o casal de proprietários do lugar recorreu a um truque habitual: fizeram revestir com um espelho gigante a parede diante da entrada, o que dava aos presentes a ilusão da profundidade, e fazia o estabelecimento parecer muito maior e melhor arejado. 
Uns dias depois do hábil artifício ter sido instalado, entra no café um homem com andar apressado que não vem para beber nada, está aflito e procura os sanitários, e encaminha-se para o espelho em passadas largas, mas antes que se dê a (esperada) colisão com a superfície vítrea, sai do espelho a dona do café, que o segura por um braço, gentil mas com firmeza. E num tom de voz igualmente cortês, explica ao recém-chegado, que aquela é uma passagem reservada ao trabalho, que só ela e o marido estão autorizados a utilizar.  

Os editores de nova geração

Estou plenamente convencido de que há quinze, vinte anos atrás, o jogo da literatura se pautava por regras mais claras. Um tipo escrevia e acreditava no valor dos seus esquissos (a maior parte das vezes, por mera e retinta vaidade), e por conseguinte, desejava ser publicado, ter o seu livro na montra da livraria e na estante das bibliotecas. O que tinha a fazer era tentar as editoras, convencê-las de que havia ali material a aproveitar, ou, tomando a via rápida, tentar o concurso literário, que traz a uma só vez, a visibilidade e o dinheiro contado (o rendimento é algo com que nunca poderia contar se fosse publicado de forma ordinária). Pelo meio, como iniciação ao mundo da literatura, o autor ia publicando algumas coisas nos suplementos literários dos jornais, nos DN’s jovens, só para fazer currículo (uma tradução pelo meio, também era um bom requisito). Na trincheira dos editores, a coisa sempre foi complicada, era garantido, se fosse um autor já conhecido ou uma figura pública, se …

Almoço de Domingo

Almoço de convívio de turma na casa duma das colegas, a mais original e excêntrica de todas. Ele era de longe e chegou de comboio. A anfitriã foi buscá-lo ao apeadeiro, o almoço estava quase pronto, avisou, e os outros já lá estavam á espera deles. Logo perguntou, com um sorriso travesso e os cabelos longos a dançar diante da janela aberta. - Tens fome? É que eu gostava de fazer um pequeno desvio para te mostrar a minha futura casa. Alinhas? Ele aceitou. Ela guiou o carro por ruas e ruelas da aldeia, abandonando o povoado, e só travando o carro nas imediações do casario, defronte do cemitério da terra. - Vou fazer aqui a minha futura casa. Vens visitar-me um dia? - Só se tiveres uma cerveja à minha espera! – Respondeu com um sorriso amarelo. E agora lembrou-se disso, assim, do nada, ao fim de tantos anos, estava na mesma aldeia, no mesmo cemitério, e acabara de descobrir uma garrafa de cerveja na porta dum jazigo, orvalhada de fresco como se a tivessem acabado de tirar do frio.

processo

O que o atraía naquela sripper, era a sua eruptiva e obsidiante sensualidade. Procurou ser-lhe apresentado, e conseguiu, saíram umas vezes, conversaram, e ele deu-se conta de que nas suas conversas, ela se despia como no palco, despia aparências, adereços, falsidades aceites levianamente, equívocos assumidos. Isso foi tornando aquela mulher mais complexa e rica aos seus olhos, até á altura, ingrata, em que ela começou também a despir a pele, na vida e no palco.

O carro ideal

- O que é que a traz aqui? - Perguntou o advogado, oferecendo-lhe uma cadeira - O meu genro convenceu-me a vir aqui, porque vocês são da defesa do consumidor e dão aconselhamento e apoio jurídico nestes casos. - E o seu caso é… - Um carro, doutor, um carro lindo. Eu não queria vir aqui, mas o meu genro convenceu-me. Comprei-o num stand virtual, e até hoje nunca o recebi, é um carro virtual como o stand. - Compreendo, a senhora dá-me todos os elementos que possui e nós delineamos uma estratégia de acção. - Doutor, não me vai levar a mal, mas eu não sei se quero fazer isso. O meu genro está ali á porta e não me perdoaria se não o fizesse, mas eu até não estou muito descontente. O carro é uma jóia, não anda sempre enfiado em oficinas, enrolado com mecânicos que se aproveitam da minha ignorância para me extorquirem dinheiro, e o consumo!! Nunca tive um carro que fosse mais económico do que este, o carro até parece que anda movido a ar!!

B.B. King

O espelho generoso

Clonaram uma mulher bela, uma celebridade, que foi criada como sua filha natural, e parecendo-se-lhe em tudo, como duas metades iguais dum medalhão. Igualmente vaidosa e egocêntrica, fez-se uma mulher, e na mesma idade em que a sua mãe antes dela, desenvolveu a mesma angústia perante as primeiras marcas da idade, os ténues pés-de-galinha em volta dos olhos, os primeiros e tímidos cabelos brancos. Casou e engravidou, mas só no hospital, enquanto esperava a boa hora, é que o médico lhe explicou o que todos haviam omitido - Isso quer dizer que o meu filho pode ser diferente de mim?! -  Gritou em desespero.

Notícia

O jovem estava sentado nos degraus das traseiras da casa, com o rosto entre as mãos, quando ouviu alguém aproximar-se. Era um homem, ou parecia-se com um homem, os cabelos longos assemelhavam-se a cobras, mas de cor azul, e as linhas e formas do seu corpo eram de uma palidez anil, e estremeciam como estremece a superfície quieta da água numa bacia, quando sopramos sobre ela. - Vim avisar-te que o corpo da tua mãe já apareceu, está no saibro da margem do rio, ao pé do ulmeiro grande onde te via brincar quando eras criança. O jovem soluçou, com o rosto afundado na palma das mãos. - Obrigado, estranho...mas você fala como se já nos conhecesse... - Eu sou o rio.

Aprendizagem

Um icebergue desce o Atlântico ao sabor das ondas, e no seu dorso viaja um pinguim, ou o que resta dele. Ouve-se o barulho das pás de um helicóptero que desce ao seu encontro. Uma ave-do-paraíso jovem desce a escada de corda com um microfone na ponta da asa, enquanto outra ave-do-paraíso, mais velha e experiente, o observa da porta do engenho. - Senhor pinguim, o que é que acha do aquecimento global? – Pergunta o repórter ao pinguim defunto. - Estúpido estagiário! – Grita o mais velho do alto – a pergunta tem de ser colocada no pretérito!

MADágio

Nunca ouças os conselhos do travesseiro, são os ácaros que os inventam.
Nunca deixes para amanhã o que não podes fazer hoje, o proibido reclama urgência.
A água dum rio nunca passa duas vezes no mesmo sítio, por isso não penses muito se tiveres a bexiga cheia.
Atrás de cada grande homem, há uma grande mulher, ou uma sombra á altura.
Passa por debaixo da escada se não fores supersticioso, ou sofreres de vertigens.
A liberdade de cada homem acaba onde começa a liberdade do outro, ou a sua rede de arame farpado e/ou o seu campo de minas.
Se vives a espreitar para a casa dos outros, ao menos mostra a delicadeza de lhes limpar os vidros.
Dentro de ti, há uma criança que quer sair, liberta-a pela linguagem, ou toma epidural.
Segue o conselho que todos os infelizes dão para alcançar a felicidade, e depois, sê infeliz por iniciativa própria.
O mundo está repleto de poesia e amor, por isso, não saias de casa sem um bom anti-alérgico.
Quando encontrares uma encruzilhada que não possas ou consigas vencer,…

Aparências

Ao pequeno caniche, passeava-o a dona, preso por uma trela formada por uma corrente metálica grossa, plastificada. O caniche era de facto pequeno, quase anão, e bastante velho, que a lã já lhe caíra dos quartos traseiros, mas o que surpreendia a todos é que o animal tinha enfiado dois açaimes no focinho, um sobre o outro, mais uma coleira reforçada, e uma cinta de cabedal da perna da frente á de trás, para impedir que perseguisse pessoas ou tentasse saltar alto, para a garganta dalguém. Quando surpreendia um olhar mais intrigado, a dona cochichava, cúmplice – “Ele é uma fera! Qualquer dia, não me deixam tirá-lo do apartamento!”. E lá seguiam os dois, a senhora, e o cachorro atrofiado com tantas protecções.

sacrilégio

“O tamanho é importante”, reconheceu com um frémito de pavor, um dos guerreiros atenienses escondidos, enquanto os soldados troianos desmanchavam o cavalo de madeira por não caber nos portões da cidade.

Plano furado

Quando se candidatou a uma operação para mudar de sexo, estava longe de imaginar que a sua namorada a trocaria primeiro.

Gramática

Enquanto vivia entre nós, era muito comum naquele homem, dar erros de sintaxe. Um dia finou-se, reencarnou numa dália, e carregando com o seu carma, tornou-se muito comum naquela flor, dar erros de fotossintaxe.

Gramática II

Ele passava a vida cantando, trauteando, rindo, dormindo, acordando, trabalhando, andando, pescando, bebendo, surrando, pedindo, mendigando, faltando, fugindo, pedindo, faltando, rindo, dormindo, bebendo, enganando. A sua vida até não era má, mas, um dia, o senhor Gerúndio cansou-se dela, saiu porta fora e nunca mais lhe puseram a vista em cima.

Convite

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A eterna questão, na óptica dum comensal:

O que é que apareceu primeiro, a frigideira ou o assador de frangos?
Sábado passado, em Bharaptur, nas margens do rio Nayarani, desenrolou-se espontaneamente uma manifestação silenciosa de tigres-de-bengala em protesto contra a utilização de peles humanas na confecção de vestuário animal.

Felina flor

A carne da gazela secara ao sol, empedernira antes que predadores ou necrófagos a descobrissem ali. E mesmo rija e seca como ossos, cravou-se nela um dente-de-leão.

Fly

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- Agarra-me bem, não me largues. Ele estava dependurado de cabeça para baixo com os abismos sob os olhos, e o amigo segurava-o pelo calcanhar com ambas as mãos.  - Dizem que na proximidade da morte, o nosso espírito revê em fracções de segundos toda a vida passada, como um filme acelerado, mas não estou a conseguir ver nada. - Ainda vai demorar muito? É que estou a sentir as mãos a escorregar. - Não, já chega! Era apenas uma experiência, uma curiosidade antiga, agora, deixa-me voar!

Iniciação

- Esta noite, vamos os dois à caça do gambozino! - anunciou o aluno experimentado à caloira universitária.
- Sim...sim...já ouvi falar. Vai ser mais uma praxe!
- O que é que tu sabes sobre o assunto, para estares a falar assim?
- Os gambozinos não existem, tu queres é que eu faça figura de parva, com uma lanterna e um saco uma noite inteira junto a alguma loca de coelho...
- Parva estás a ser agora. Quem conta essas lérias é gente do litoral, que não sabe de nada e inventa coisas. Aqui, o gambozino ou gramuzilho é coisa séria, pensa-se que são crianças abandonadas no mato pelas mães e que crescem como meninos selvagens, comendo e vivendo do que podem. Conheço um monte ali para os lados do Canhoso, onde os gambozinos aparecem em noites de luar e uivam como lobos.
- E não é perigoso?
- Só é perigoso se lhes fizermos mal. Se te aparecer um gambozino, tens de ficar muito quieta e calada para ele não se assustar. Não precisas do saco nem da lanterna, isso são só artigos folclóricos; só tens de c…
"Deste lado a erva é, de facto, mais verde!!", pensou com os seus pêlos o jovem e inocente alce depois de ter aproveitado a ruína de um muro para penetrar na coutada de caça do marquês.

Akaba

Em Akaba, segundo satélite habitado do planeta Akabado, vivem os Argutos, gente sofisticada e muito inteligente, que acorda a inventar aforismos, e prossegue o resto do dia sem falar com ninguém, mas mergulhados num estado permanente de criação literária, filosófica e religiosa. Quando a Akaba chega algum estrangeiro, á fatal que se sinta deslocado e pouco confortável, andando no meio dessa gente bizarra que é capaz de declamar as vinte e três mil proposições teológicas ou as oitocentas mil odes ao infinito, mas que se revela incapaz de reconhecer a parentela e possui um dificuldade crescente para se lembrar do seu próprio nome. Por vezes, o inconformado estrangeiro ainda cede ao propósito estéril de mudar alguma coisa e chamar os Akabados á razão, falando-lhes dos seus e fazendo perguntas sobre o passado e a infância, e o planeta que eles conheceram há dois ou três séculos, mas tarde ou cedo, descobrem que isso é tudo em vão, e partem de Akaba do mesmo modo como chegaram, invisíveis,…

Notícia do dia:

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Um avião C130 da Força Aérea Portuguesa, desloca-se expressamente a Roma para transportar para Lisboa dois papa-móveis (ilustração abaixo), um frete que envolve cuidados logísticos e fortes medidas de segurança.
Os dois papa-móveis ficarão acondicionados dentro de jaulas climatizadas, tendo à sua disposição um abundante suprimento de comida: mesas, gavetas, cómodas, aparadores, etc. As forças de segurança do aparelho zelarão para que ninguém estranho ao transporte se possa aproximar das duas criaturas, ao mesmo tempo que tentarão manter afastada toda e qualquer pessoa cujo nome ou apelido possa sugerir árvores ou madeira de árvores, a exemplo de Pereira, Sobro, Carvalho ou Cerejeira.

O Companheiro de Viagem, de Paul Celan

A alma da tua mãe flutua adiante.
A alma da tua mãe ajuda a noite a navegar, escolho após escolho.
A alma da tua mãe fustiga os tubarões à tua frente.

Esta palavra é a disciplina da tua mãe.
A discípula da tua mãe partilha o teu jazigo, pedra a pedra.
A discípula da tua mãe inclina-se para a migalha de luz. 




Hamelin 2

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O Flautista de Hamelin, percorreu as ruas duma cidade hodierna, fazendo soar a sua flauta mágica por entre as fachadas dos prédios e os pilares dos viadutos. Quando saiu da cidade, era seguido por milhões de ratos, que ninguém mais tornou a ver, como ao jovem misterioso que os atraiu para longe dali.
Levou várias semanas, para que as lojas de informática conseguissem completar os computadores pessoais danificados.
Já noite cerrada, o escuro viu o menino à porta de casa, e lamentou-se:
- Tenho medo de meninos!

"O" livro para ler numa ilha deserta

Naufragou sozinho numa ilha deserta, e inventariou os salvados do navio. Algumas roupas, madeira despedaçada de contentores, e uma mala, uma apenas, que arrastou sem demora para longe das ondas. Abriu-a. Mais roupas, um candeeiro de estirador, e um livro, milagrosamente enxuto. Leu o título - As Mil e Uma Noites.
- Super! - exclamou - um livro do Kama Sutra, mesmo o que eu precisava para combater a solidão!
Encostou-se à árvore, e ao ler o livro, a sua iliteracia emergiu com nitidez. Não era o Kama Sutra, mas deu-se conta de que, enquanto lia, não se sentia só.

Internáufrago

Tanto navegou pela Internet, que acabou naufragado. Quem hoje o vê, quase não o reconhece, maltrapilho e barbudo numa ilha deserta, sob um coqueiro com folhas de Facebook e Messenger, e não fazendo mais do que andar em círculos (marcha sem sentido que só interrompe quando petisca uns cocos XXX, rilha umas folhas de Statcounter, ou adormece ao som das ondas de Spam). Mas sempre invisível, tão invisível que não há caranguejo ou spider de browser que detecte a sua presença. Quando o chamam do mundo real, do outro lado do mar, ele recusa-se a sair dali, porque continua sempre á espera de alguém que o descubra.
«Ultrapassei, há mais de trinta anos, a Idade dos Porquês, e desde então, persisto na Idade dos Para Quês. Para que é que eu me levanto todos os dias da cama?! Para que é que eu continuo a fazer peso ao mundo e a constranger as pessoas?! Para que é que eu continuo vivo e me dou a tanto trabalho?! Para quê?!».

Fracção de incerteza

Germano era o homem da vida de Antónia, era ele quem ela amava de corpo e alma, eram amigos, amantes, companheiros. Mas Antónia tinha o carácter fraco e acabou por se casar com André do Nascimento, comerciante e cidadão honrado, benquisto pelos pais de Antónia como se de um outro filho se tratasse. Noivou, casou, e manteve uma vida dupla, com André e com Germano. Quando nasceu um filho, Antónia sentia até ao âmago do seu ser, que aquela criança não era um fruto do casamento, mas um filho do amor, dela e de Germano. O casamento, artificial e inócuo, acabou por entrar em ruptura, e Antónia expôs a André o problema - Vou sair da tua casa, vou-me embora com a criança, porque ele não é teu filho! André do Nascimento não aceitou; e os pais de Antónia também não, e colocaram ao serviço do genro o melhor advogado que as suas posses permitiam. Diligência crucial, fizeram-se testes de ADN, e estes concluíram, com uma certeza de noventa nove, vírgula nove por cento, que a criança era filho dela …

Chuva de lanças

Como autor que era, não se esqueceu do seu portátil quando se pôs a caminho da redacção da revista. Mas não levou apenas o portátil, tinha a cara protegida por uma máscara de esgrima, usava um colete em kevlar e, pendurado ao ombro, um enorme carcaz carregado de lanças. Como seria de esperar, a sua chegada á revista causou uma apreensão geral nos presentes, particularmente na recepcionista á sua frente, cujo lábio inferior estremecia de medo como se estivesse a assistir ao advento do Anticristo. Sem se perturbar com aquele alvoroço todo, o autor apresentou-se. - Chamo-me Marco Fonseca, e estou aqui em resposta ao desafio que vocês lançaram a todos os contistas freelancers.