Sonho túmido

Rosa gorda, a adolescente mais macambúzia e complexada da escola, está sentada numa cadeira a um canto do salão de bailes, esquecida pelas amigas e pelos rapazes. Todos, ou quase todos, dançam, e ela meneia a cabeça ao som da música com uma expressão ausente. Do caos de pessoas que caminham e dançam diante dos seus olhos, emerge, como num sonho, a figura adorada do Fred, o ídolo masculino da escola. Para sua incredulidade, Fred convida-a para dançar, e pega-lhe pelas mãos para a conduzir para o centro da pista e, como se o universo inteiro esperasse por esse gesto, a banda começa a tocar uma música mais lenta e romântica. Os dois dançam abraçados, os seus corpos se roçam, os seus lábios brincam e insinuam-se, saboreando-se. Estão juntos, apertados um contra o outro, o desejo cresce e as carícias tornam-se mais inconformadas. Ele pega-lhe de novo pelas mãos e juntos abandonam a pista e saem do salão. No exterior, a um canto do edifício, há uma escadaria exterior na penumbra, e os dois abrigam-se aí, na intimidade precária daquele leito de degraus. Enquanto se despem um ao outro, Fred inclina inadvertidamente a cabeça e dá uma violenta cabeçada na esquina da mesa-de-cabeceira. Senta-se de um salto na cama e solta um grito de terror. Levanta-se ás pressas, esfrega os braços com energia, e não descansa enquanto não lava a boca e a cara no lavatório, e bochecha a boca com elixir. Só então, mais refeito do susto, passa água fria no alto que se formou na cabeça, inchaço acidental que sucedeu ao inchaço entre as pernas que desenvolvera antes de acordar.

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