Pequeno-almoço substancial





Nos anos oitenta, seis autores mantiveram no ar um programa na Rádio Comercial, o PÃO COM MANTEIGA, que foi do melhor que já se fez em Portugal. Os seus nomes: Carlos Cruz, Bernardo Brito e Cunha, José Duarte, Eduarda Ferreira, Orlando Neves e Mário Zambujal. E o que conseguiram é difícil ser menosprezado – um programa de textos inovadores, com um humor muito non-sense, histórias pródigas em ironia e absurdo, frases inspiradas e diálogos desconcertantes e, muitas vezes, sem nexo. O Pão com Manteiga tinha ouvintes incondicionais, como eu, que ainda comprei um ou dois exemplares da revista homónima, e adquiri na época os dois tomos em que se reuniram esses textos (livros esses que acabei por empresta-dar). No ano de 2007, a Oficina do Livro, reeditou o Pão com Manteiga, numa obra única, e é esse livro, que acabo agora de ler, que motivou este pequeno apontamento. Há um ou outro texto original que retenho de memória e que não reencontrei nas páginas desta reedição, pelo que não terá sido, certamente, uma edição na íntegra de todos os textos (o que seria justo e merecido); mas, naturalmente, que essa era uma prerrogativa natural da editora e dos autores dos textos.

Programa de referência para uma geração e um país, o Pão com Manteiga oferecia aos ouvintes textos que, pelo seu formato radiofónico, tinham necessariamente de ser breves, condicionante que reencontramos hoje no mundo célere e volúvel das páginas da Web. Decorria daí que, a par de trocadilhos que faziam com palavras, expressões e provérbios, tenham privilegiado diálogos e outros pequenos textos ficcionais que hoje poderíamos classificar nos géneros do miniconto e, mesmo, da micronarrativa (quando esta estava a anos-luz de sonhar ser um género literário). Os recursos e processos criativos usados nessa época foram reiventados nos nossos dias pelos “luso-bloggers”; mas entre uns e outros há, por vezes, um fio condutor, uma passagem de testemunho, seja na primeira pessoa (pelos menos teenagers), seja pela leitura da obra original adquirida por um pai, um tio ou um irmão mais velho.

A título de ilustração, transcrevo meia-dúzia de frases construídas com trocadilhos, a última das quais, foi retirada do Pão com Manteiga 2 e escapou, com outros textos de valor, à reedição da Oficina do Livro:


O Euclides não é responsável pelas hipóteses nuas em que você, ás vezes, pensa.
 *
Um lar onde ninguém se deita, é um lar perpendicular.
 *
Os parênteses andam sempre virados um para o outro, mesmo quando são parênteses afastados.
 *
As orações subordinadas devem ser lidas de joelhos.
 *
Um versa, é sempre mais do que um vice-versa.
 *
Nem sempre o pecado mora ao lado; gasta-se um dinheirão em transportes


Mensagens populares deste blogue

A viagem

Abril de 1918 - o caminho para uma Primavera de sangue