Excalibur

Xavier Pereguão sentia-se divorciado do mundo, nada lhe despertava interesse ou trazia prazer, e persistiu nessa apatia insulsa e sem esqueleto até ao dia em que se propôs cometer o crime perfeito. E consagrou-se a esse ideal com todas as suas energias e capacidades.
Para cometer o crime perfeito, concebeu ele, não podia haver o mínimo laço ou relação entre o perpetrador e a vítima, teria de ser um acto fortuito e absurdo, um fogacho na noite como uma beata de cigarro que se atira para longe. Consumada a morte, era desejável que esta pudesse ser atribuída a uma outra pessoa, também elegida ao acaso e manipulada à distância por ténues e translúcidos fios de seda.
Primeiro que tudo, escolheu a arma, um punhal, que se adequava ao plano que se levantara no seu espírito - o punhal tinha uma lâmina semelhante à de uma adaga Kris, sinuosa e mortalmente afiada, e um punho metálico com belas decorações geométricas  - e obteve a arma da única forma que seria desejável, roubando-a com um envolvente gesto do braço numa banca de feira com ferramentas e cutelaria. Desta forma, nenhum papel ou memória estabeleceria uma relação entre ele e a arma.
Escolher o lugar do crime, foi uma tarefa que cumpriu de forma elementar. Conduziu o seu carro sem destino certo por estradas de asfalto e de terra batida, até lhe aparecer um lugar que lhe pareceu apropriado - uma estrada de terra e cascalho que se afastava duma aldeia de casas caiadas de branco por entre colinas enxameadas de caniços, fetos e tojos. Sem se deter, marcou o lugar no seu GPS, e na noite seguinte, voltou lá, a penantes, com uma mochila nas costas com o punhal enrolado num pano de linho, um par de luvas novas, uma garrafa de água e alguma comida, porque aquele seria um labor de muita calma e resistência. Fez o caminho a desoras profundas, e antes dos primeiros alvores do dia, já ele estava emboscado junto à tal estrada, agachado numa pequena clareira no meio das canas.
Matar não foi difícil, não tinha uma particular repulsa à ideia de o fazer, e o acto não lhe trouxe qualquer tipo de azia ou inquietação. Aproveitando o lugar e o tempo, sabia ser também ali que tinha de descobrir o bode expiatório, o ser inocente que seria condenado e punido na sua vez. Na berma do caminho, cravou o punhal nas ervas. A lâmina ensanguentada quase oculta à vista, mas com o belo punho metálico a rebrilhar ao sol. Voltou a esconder-se. Só precisava que aparecesse alguém que se sentisse tentado a pegar no punhal, que o desembainhasse do solo, imprimindo no cabo as suas impressões digitais. Um telefonema anónimo para a polícia completaria o plano. E esse alguém apareceu na forma duma mulher acorcovada, de lenço na cabeça e apoiada numa bengala, e ela viu o punhal nas ervas, e curvada como andava, não precisou de se curvar mais para desdenhar aquela oferenda inesperada; e retomou a marcha, não esperando também que um homem surgisse nas suas costas, reavesse o punhal e a matasse com ele. Para ser perfeito, o crime não podia comportar pontas soltas, detalhes minimizados, porque tudo era da máxima importância. Arrastou a mulher para o meio das canas, e voltou a enterrar o punhal no mesmo lugar, como um isco para atrair alguém a quem atribuir as culpas.
Para sua fortuna, não se esquecera de trazer comida e água, porque passou ali as horas seguintes, e as horas dos dias que se seguiram, até render-se à evidência e abandonar o local a horas semelhantes às que ali chegara. Não tinha outra coisa a fazer, não havia quem se sentisse tentado a empunhar o raio da arma, o seu crime teimava em permanecer imperfeito, e o caniçal estava a ficar cheio de gente morta.

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