Cinefilia com c

A curta-metragem La Langue de Cláudio da Silva, constitui um belíssimo e subtil ensaio sobre a ambiguidade da natureza humana, e destaca-se já como uma das obras mais relevantes do cinema francês dos últimos vinte anos. É um filme arrojado, experimental, com cenas arrastadas e prodigiosos jogos de luz. O filme conta apenas com uma actriz ou, se quiserem, com uma actriz e meia, e isso só enfatiza o propósito conceptual da obra, exumando-a da crítica e da opinião das massas.
O filme abre com o plano duma porta, uma porta fechada ou encostada, a câmara acaricia a porta, a fechadura de maçaneta redonda, as almofadas e os lambris da porta, segue os veios da madeira, os nós aplainados, as escamas de verniz; e quando começamos a divergir sobre o simbolismo da porta e das portas, esta abre-se, lentamente, como se deslizasse por vontade própria, o nosso olhar insinua-se então numa divisão pequena, uma sala, na penumbra, uma mulher está reclinada num divã, soerguida sobre um dos cotovelos, numa posição que nos recorda as figuras reclinadas dos sarcófagos etruscos e a relação próxima e iniludível entre a vida e a morte. A mulher está de costas, o seu ombro nu resplandece como se fosse de marfim, aproximamo-nos até o nosso nariz quase tocar a sua pele, percebemos a leve penugem da sua pele, os sinais e os poros dilatados, as marcas deixadas pelo amor e pela violência, são mais de cinquenta minutos de película que se desenrolam em volta desta ninfa, até sentirmos que ela entrou no nosso mundo, que nos pertence, dos cabelos longos e rebeldes ao detalhe quase maneirista das mãos de dedos finos e compridos, há um poético toque de sensualidade no modo como o realizador nos mostra o ventre descoberto, ou a curva dócil dos seios. Quando a nossa sensibilidade se nutre deste ser e desta carne, há um estímulo diferente que nos tenta como uma sugestão, um zumbido, primeiro quase inaudível, como um ruído de fundo captado no filme, mas logo se torna mais insistente, até a avistarmos, á mosca, que voa junto á cabeça da nossa protagonista, de cada vez que passa perto das suas orelhas, o som aumenta de volume, e decresce novamente sempre que o seu voo nervoso a conduz a outros cantos da sala. Há uma identidade e uma comunhão perfeitas entre nós e a actriz. Depois de muitas idas e vindas da mosca, que frequentes vezes conseguimos fixar no nosso ângulo de visão, notamos que a mulher reclina a cabeça para trás, e quando a mosca se volta a aproximar, uma língua fina e comprida sai da sua boca e captura a mosca em voo, a língua recolhe, enrola-se de novo, e o silêncio volta a dominar a cena, o filme termina connosco a recuarmos para a saída e a abandonar a mulher e o seu reino por detrás da porta que se volta a fechar. Quando as letras correm sobre a superfície da porta, temos a sensação de que penetramos num universo paralelo, do qual podemos e devemos esperar muito mais.


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