INSTRUÇÕES:

Outros dados, e cartas, no final da página

Maiudência


No próprio instante em que a excursão chegou ás ruínas de Delfos, o turista nipónico separou-se do seu grupo para poder captar melhor o ambiente e a mística do lugar com a sua máquina fotográfica. De calções e mochila, chapéu largo de jardinagem e óculos de aros grossos, caminhou, escalou, esgueirou-se por entre caminhos de pedra, muros em ruínas e colunas coríntias. Fotografou quase tudo o que via, os monumentos, o Parnaso, as encostas verdejantes, os regatos murmurantes onde em tempos se haviam refrescado sibilas e deuses. Era estranho pensar que meio mundo antigo considerava aquele lugar, o Umbigo do Mundo, o Centro, ponto sagrado do cosmos onde um eixo invisível unia a terra ao céu e aos infernos. Reuniu-se ao seu grupo e prosseguiu com eles, satisfeito com o acervo de imagens que reunira. Próximo ao Tholos de Delfos, um comerciante empreendedor montara uma pequena tenda adossada a uma muralha onde vendia souvenirs - postais, pedaços de pedra que afirmava terem pertencido ás ruínas, réplicas de vasos gregos, figurinhas evocativas dos antigos gregos e dos seus deuses consagrados.
Na muralha, por detrás do comerciante, estava pendurada uma ilustração do rochedo da sibila, com uma serpente enrolada em volta. O pequeno quadro estava torto, e o nosso turista fez menção de o endireitar, mas um olhar de poucos amigos do comerciante, demoveu-o do intento. Mas não desistiu, fez que fez que folheava uns postais ao pé do quadro, esperando o momento certo. O centro do mundo não podia estar assim inclinado, ao menos este, que o outro, o eixo de rotação da terra, estava, de facto, inclinado. Aproveitou quando o comerciante tentava vender uns tapetes á entrada, esticou-se todo e endireitou o quadro, e nesse preciso instante, todos gritaram em coro porque o chão parecia ter-lhes fugido debaixo dos pés. O solo plano sob os seus pés adquirira a inclinação anterior do quadro, e não só o chão, o recorte das colinas e do monte Parnaso, as árvores e a verticalidade daquele sol do meio-dia. Antes que o turista pudesse reagir, já o vendedor alcançara o quadro em três pulos de lebre, e voltara a incliná-lo na parede, repondo a normalidade do universo, ao mesmo tempo em que lhe dirigia copiosas obscenidades, represadas pela barreira da língua.

Top audiências

O sátiro sentou-se no pufe em forma de pêra, tentando não o danificar com os seus cascos, ficara instalado entre um centauro de olhos muito abertos e um grifo tasquinhando pipocas numa taça de vidro. 


Estava a chegar a hora, e os convidados do tritão continuavam a chegar, íncubos e súcubos, uma cria de hidra, a bera quimera, uma lâmia enlameada.


Todos se acomodavam rapidamente, de olhos fixos no televisor de plasma. Estava quase a começar o programa preferido de todos, um Irreality Show de uma cadeia nacional.

- Sinto-me tranquilo e em plenitude - proclama o Político Todo-Sorrisos - sou um guardião do bem público, e desempenho o meu cargo com honestidade e dedicação. Toda a suspeita que erigiram à minha volta era apenas uma cortina de fumo levantada por pessoas invejosas e malévolas, não existe qualquer prova das acusações que me fazem, e se existissem, estariam destruídas, por serem ridículas e desprezíveis.
- Agghhh - rouquejou a sua consciência, para aclarar a garganta. Ela estava de pé sobre o seu ombro, como o grilo do Pinóquio. E enquanto o Político Todo-Sorrisos a olhava de soslaio, ela falou por fim - não sei se acreditas naquilo que acabaste de dizer, mas só te digo, que tal é a minha vergonha e a minha decadência, que não me sinto capaz de vir cá fora apanhar ar sem primeiro esconder a minha cara com uma máscara.

Cinefilia com c

A curta-metragem La Langue de Cláudio da Silva, constitui um belíssimo e subtil ensaio sobre a ambiguidade da natureza humana, e destaca-se já como uma das obras mais relevantes do cinema francês dos últimos vinte anos. É um filme arrojado, experimental, com cenas arrastadas e prodigiosos jogos de luz. O filme conta apenas com uma actriz ou, se quiserem, com uma actriz e meia, e isso só enfatiza o propósito conceptual da obra, exumando-a da crítica e da opinião das massas.
O filme abre com o plano duma porta, uma porta fechada ou encostada, a câmara acaricia a porta, a fechadura de maçaneta redonda, as almofadas e os lambris da porta, segue os veios da madeira, os nós aplainados, as escamas de verniz; e quando começamos a divergir sobre o simbolismo da porta e das portas, esta abre-se, lentamente, como se deslizasse por vontade própria, o nosso olhar insinua-se então numa divisão pequena, uma sala, na penumbra, uma mulher está reclinada num divã, soerguida sobre um dos cotovelos, numa posição que nos recorda as figuras reclinadas dos sarcófagos etruscos e a relação próxima e iniludível entre a vida e a morte. A mulher está de costas, o seu ombro nu resplandece como se fosse de marfim, aproximamo-nos até o nosso nariz quase tocar a sua pele, percebemos a leve penugem da sua pele, os sinais e os poros dilatados, as marcas deixadas pelo amor e pela violência, são mais de cinquenta minutos de película que se desenrolam em volta desta ninfa, até sentirmos que ela entrou no nosso mundo, que nos pertence, dos cabelos longos e rebeldes ao detalhe quase maneirista das mãos de dedos finos e compridos, há um poético toque de sensualidade no modo como o realizador nos mostra o ventre descoberto, ou a curva dócil dos seios. Quando a nossa sensibilidade se nutre deste ser e desta carne, há um estímulo diferente que nos tenta como uma sugestão, um zumbido, primeiro quase inaudível, como um ruído de fundo captado no filme, mas logo se torna mais insistente, até a avistarmos, á mosca, que voa junto á cabeça da nossa protagonista, de cada vez que passa perto das suas orelhas, o som aumenta de volume, e decresce novamente sempre que o seu voo nervoso a conduz a outros cantos da sala. Há uma identidade e uma comunhão perfeitas entre nós e a actriz. Depois de muitas idas e vindas da mosca, que frequentes vezes conseguimos fixar no nosso ângulo de visão, notamos que a mulher reclina a cabeça para trás, e quando a mosca se volta a aproximar, uma língua fina e comprida sai da sua boca e captura a mosca em voo, a língua recolhe, enrola-se de novo, e o silêncio volta a dominar a cena, o filme termina connosco a recuarmos para a saída e a abandonar a mulher e o seu reino por detrás da porta que se volta a fechar. Quando as letras correm sobre a superfície da porta, temos a sensação de que penetramos num universo paralelo, do qual podemos e devemos esperar muito mais.


Lealdade

Gonçalo não era homem para ter ou manter muitos amigos, simplesmente, não tinha feitio para isso. Bem vistas as coisas, tinha apenas um amigo, com quem conversava amiúde sobre a sua vida e os seus dias, um amigo que não se cansava de o ouvir e que nunca o deixaria só ou defraudaria a sua confiança. Por um tortuoso elipse do seu espírito, nunca se deu ao trabalho de se questionar como seria possível ao amigo abandoná-lo, estando ele enterrado no jardim da casa, aos pés da oliveira centenária.

Epílogo

...também se conta que a senhora Pinóquio, quando os anos começaram a pesar sobre a vida íntima do casal, dava consigo a fantasiar sobre os tempos em que o marido era feito de pau.

balança

Pediu um pouco de arroz à vizinha, e esta ofereceu-lhe um quilo e depois, não aceitou que ela retribuísse ou pagasse o seu valor. Como se sentisse constrangida com isso, não descansou enquanto não ofereceu á vizinha um jogo de naperons, porque preferia que lhe devessem lavores, do que ser ela a dever favores.

Georgia on my Mind- Ray Charles

Eureka!

O meu amigo Vargas cursou Direito porque achou que era uma profissão com muito futuro, e viu-se formado em advocacia numa sociedade e numa cidade a abarrotar de advogados, eram às centenas, atulhando as empresas e firmas, preenchendo todos os espaços como formigas dentro dum açucareiro. O Vargas andou uns tempos descoroçoado, duvidando que tivesse escolhido o curso certo, mas quando o reencontrei, estava ele numa esplanada do café e chamou-me de longe, oferecendo-me uma cerveja. Sentei-me ao seu lado, a bebericar a cerveja, e deu para ver que o Vargas estava eufórico, renascido.
- Os dias cinzentos acabaram, descobri que o segredo de exercer advocacia é a especialização - e prosseguiu numa voz mais miúda, sigilosa - vou montar um escritório, vocacionado para proporcionar o habeas corpus em pessoas com prisão de ventre.

Excalibur

Xavier Pereguão sentia-se divorciado do mundo, nada lhe despertava interesse ou trazia prazer, e persistiu nessa apatia insulsa e sem esqueleto até ao dia em que se propôs cometer o crime perfeito. E consagrou-se a esse ideal com todas as suas energias e capacidades.
Para cometer o crime perfeito, concebeu ele, não podia haver o mínimo laço ou relação entre o perpetrador e a vítima, teria de ser um acto fortuito e absurdo, um fogacho na noite como uma beata de cigarro que se atira para longe. Consumada a morte, era desejável que esta pudesse ser atribuída a uma outra pessoa, também elegida ao acaso e manipulada à distância por ténues e translúcidos fios de seda.
Primeiro que tudo, escolheu a arma, um punhal, que se adequava ao plano que se levantara no seu espírito - o punhal tinha uma lâmina semelhante à de uma adaga Kris, sinuosa e mortalmente afiada, e um punho metálico com belas decorações geométricas  - e obteve a arma da única forma que seria desejável, roubando-a com um envolvente gesto do braço numa banca de feira com ferramentas e cutelaria. Desta forma, nenhum papel ou memória estabeleceria uma relação entre ele e a arma.
Escolher o lugar do crime, foi uma tarefa que cumpriu de forma elementar. Conduziu o seu carro sem destino certo por estradas de asfalto e de terra batida, até lhe aparecer um lugar que lhe pareceu apropriado - uma estrada de terra e cascalho que se afastava duma aldeia de casas caiadas de branco por entre colinas enxameadas de caniços, fetos e tojos. Sem se deter, marcou o lugar no seu GPS, e na noite seguinte, voltou lá, a penantes, com uma mochila nas costas com o punhal enrolado num pano de linho, um par de luvas novas, uma garrafa de água e alguma comida, porque aquele seria um labor de muita calma e resistência. Fez o caminho a desoras profundas, e antes dos primeiros alvores do dia, já ele estava emboscado junto à tal estrada, agachado numa pequena clareira no meio das canas.
Matar não foi difícil, não tinha uma particular repulsa à ideia de o fazer, e o acto não lhe trouxe qualquer tipo de azia ou inquietação. Aproveitando o lugar e o tempo, sabia ser também ali que tinha de descobrir o bode expiatório, o ser inocente que seria condenado e punido na sua vez. Na berma do caminho, cravou o punhal nas ervas. A lâmina ensanguentada quase oculta à vista, mas com o belo punho metálico a rebrilhar ao sol. Voltou a esconder-se. Só precisava que aparecesse alguém que se sentisse tentado a pegar no punhal, que o desembainhasse do solo, imprimindo no cabo as suas impressões digitais. Um telefonema anónimo para a polícia completaria o plano. E esse alguém apareceu na forma duma mulher acorcovada, de lenço na cabeça e apoiada numa bengala, e ela viu o punhal nas ervas, e curvada como andava, não precisou de se curvar mais para desdenhar aquela oferenda inesperada; e retomou a marcha, não esperando também que um homem surgisse nas suas costas, reavesse o punhal e a matasse com ele. Para ser perfeito, o crime não podia comportar pontas soltas, detalhes minimizados, porque tudo era da máxima importância. Arrastou a mulher para o meio das canas, e voltou a enterrar o punhal no mesmo lugar, como um isco para atrair alguém a quem atribuir as culpas.
Para sua fortuna, não se esquecera de trazer comida e água, porque passou ali as horas seguintes, e as horas dos dias que se seguiram, até render-se à evidência e abandonar o local a horas semelhantes às que ali chegara. Não tinha outra coisa a fazer, não havia quem se sentisse tentado a empunhar o raio da arma, o seu crime teimava em permanecer imperfeito, e o caniçal estava a ficar cheio de gente morta.

No labirinto

Numeropatia, no Sonho do Minotauro.


Grazie, Stefano!

Tradição natalícia

Em Inglaterra, os gatos domésticos, na véspera do Natal, reservam uma parte do leite que lhes dão, e uma iguaria como um biscoito ou um pedaço de ratito, para atrair a visita a suas casas do Santa Claws.

Laikais

(imagem daqui)

Noite, a lua alveja,
e a minha cadela uiva,
num banho de cerveja


Pátio pungente
a corrente de ferro,
fez-me descrente


Casa em ruínas,
No velho pórtico,
Respondo ao vento


Guia o cego na estrada,
deita-se a seus pés
e come bordoada


Carros indo e vindo,
a puta faz-me uma festa,
e diz-me que sou lindo


arrazoado

As Danaides eram cinquenta irmãs que figuram na mitologia clássica, diz-se que eram irmãs, porque é mais cómodo do ponto de vista narrativo, sendo mais provável tratar-se de mulheres duma mesma tribo com vagos laços de sangue entre elas - é difícil acreditar que, mesmo nesses tempos, um casal conseguisse gerar e criar cinquenta filhas diferentes, com tudo o que isso acarreta de encargos danados com pediatras, pré-escola e escola, planos de saúde, vacinação, galas de debutantes, pensos higiénicos, etecétera.


As ditas Danaides, são reputadas como um modelo de amor matrimonial, mas também se lhes atribui algum engenho no modo como criaram e mantiveram um insólito método de regadio. Elas construíram um gigantesco tanque com o feitio dum tonel ou ânfora no meio dos seus campos hortícolas, tanque em volta do qual estavam dispostas sete escadas diferentes pintadas com cores diferentes. As Danaides carregavam água em ânforas que vertiam para dentro do tanque, na parte inferior deste, orifícios abertos em efígies de seios femininos deixavam essa água gotejar para o interior de caleiras em vidro que a espalhavam pelos campos de cultivo. O tanque era, em si mesmo, um símbolo da mãe geratriz, dadora de vida, e as Danaides exerciam o seu trabalho como sacerdotisas da deusa. Elas eram quarenta e nove (a quinquagésima, Hipermnestra, era excedentária), divididas em sete colégios de sete mulheres, cada um deles trabalhando num dia diferente da semana, ou seja, num dos dias consagrados a um diferente potência estelar (sol, lua, e cinco planetas). A cor das roupas que elas usavam, as escadas usadas para subir ao topo do tanque, os metais moídos que eram adicionados à agua do tanque, tudo estava em conformidade com esses atributos astrais dos sete colégios. Não é de estranhar que alguns autores reencontrem nos símbolos implícitos ao tonel das Danaides, alusões disfarçadas ao trabalho alquímico.


O Tonel do Ódio

de Baudelaire


O Ódio é o tonel das brancas danaídes;
A Vingança febril, de braços rubros, fortes,
Tenta precipitar nessas trevas vazias
Grandes baldes com o sangue e as lágrimas dos mortos,

Em segredo o Diabo fura esses abismos
Por onde verteriam mil suores e esforços
Se o Ódio, ele mesmo, reanimasse as vítimas
E para as espremer ressuscitasse os corpos.

O Ódio é um bêbado numa taberna,
Que quanto mais bebeu mais sede ainda vai tendo,
Vendo-a multiplicar-se, qual hidra de Lerna.

- Mas, se o ébrio feliz conhece quem o vence,
A sorte lamentável o Ódio está votado:
A de nunca poder adormecer saciado.


Monotonia

"A vida é um poço de surpresas, mas eu não passo dum balde furado".
Lúcio anda a ser acompanhado por um psicanalista.
- Todos me perseguem - queixa-se - julgam que podem fazer de mim o que querem, capturar-me, puxar-me dum lado para o outro - faz uma pausa com um suspiro infeliz, e conclui - e a culpa é deste meu nome que carrego.
Antes que o analista conteste, Lúcio aponta o anzol de pesca que ainda trazia espetado no lábio.


O candelabro de três velas está a precisar de velas novas, coisa que não existe em stock e, por isso, deixaram-no de lado por uns tempos. Os mecânicos da oficina disseram que ia levar algum tempo até as velas serem expedidas da fábrica.


O anacoreta vive há anos no topo dum poste de madeira, dedicando quase todo o seu tempo à meditação. Todos o conhecem nas redondezas, e acham benfazeja a sua presença a meio-caminho entre a terra e o céu, eles acham que ele atrai boa-sorte e fertilidade. O anacoreta sente-se feliz na sua morada no cimo do poste, mesmo depois de ter descoberto no reflexo dum lago, que não passava duma cegonha.

Reparo

Apesar de todas as campanhas contra o analfabetismo e a iliteracia, não há ninguém que deseje conhecer ou aprender o avecedário.

Numeropatia

Nascera a onze de Abril, a filha havia nascido a quatro de Novembro (outro quatro e outro onze), os pais dele haviam falecido num acidente de carro na estrada Nacional 114, e havia outras coincidências, o seu número de operário, quatrocentos e onze, ou o do número do seu cartão de caçador, cento e catorze. O acumular dessas coincidências tornou-o supersticioso com aquelas duas datas de Abril e Novembro, vivendo plenamente convencido de que morreria numa delas. Duas vezes por ano, e depois de uma véspera em que se mostrava acentuadamente fogoso na cama, teimava em dormir na noite daquele dia, vestido com o seu melhor fato e calçado com uns sapatos novinhos, para cruzar a passagem com estilo. Ironicamente, cruzou-a completamente nu e transpirado, quando o coração lhe falhou na véspera dum onze de Abril.

sentidos aguçados



Os olhos são as janelas da alma, mas muitos cegos conseguem ver o mundo sem paredes de permeio.

Uma obsessão persistente

O bom Dr. Guillotin idealizou no seu tempo uma tesoura revolucionária que tinha as lâminas soldadas, e que, quando se fazia pressão com os dedos nas argolas exteriores, estas fechavam-se sobre os ditos com dois pares de lâminas afiadas.
O mito menos improvável que conheço, é o de uma cómoda de madeira de faia numa casa de gente preguiçosa, que criou raízes nos pés, dada a abundância de nutrientes no lixo do chão.

Pesadelo

O pior pesadelo dum atum de conserva, é sonhar com uma lata de atum de conserva, que ele abre, puxando com os dentes a argola da chave, para ver sair lá de dentro um homem armado com uma rede.

Vivia com a mulher há quinze anos, e já tinham três filhos, quando ela, ao encontrar numa arca um vestido de noiva á sevilhana que pertencera a uma prima, achou que os dois se deveriam casar, pela igreja, com padre, chuva de arroz e banquete. Ele concordou, do mesmo modo que concordaria se ela lhe pedisse para fumar uma passa do seu cigarro; na verdade, era tudo muito simples - ele trocava uma união de facto, por uma união de fato e gravata.


stretched

Natalie Victor, poderia ser apenas um nome comum, se não fosse o nome de uma astronauta belga que desapareceu no espaço, e que a História se encarregou de fixar ao lado de uma galáxia de pequenos e grandes nomes. Natalie vogava no espaço, a poucos metros da Estação Espacial, quando entrou involuntariamente num portal dimensional, foi como se tivesse caído por um buraco, desaparecendo da vista de todos. Do outro lado, Natalie desembocou na superfície dum planeta situado numa galáxia a milhões de anos-luz da nossa, e por conseguinte, também muito mais afastada do que a nossa do centro do universo. Nesse planeta, onde a vida inteligente prosperou numa raça vagamente antropomórfica, Natalie constatou que o tempo decorria muito mais lentamente do que na terra, um segundo terrestre equivaleria nesse planeta a vários dias de cinquenta horas. Depois de estabelecer comunicação com os seres inteligentes do planeta, e de ambas as partes desenvolverem os rudimentos duma partilha de conhecimentos e dados, Natalie, dada a natureza do tempo cronológico que presidia agora à sua vida, achou que a coisa mais inteligente a fazer, era procurar ter sexo.

Pequeno-almoço substancial





Nos anos oitenta, seis autores mantiveram no ar um programa na Rádio Comercial, o PÃO COM MANTEIGA, que foi do melhor que já se fez em Portugal. Os seus nomes: Carlos Cruz, Bernardo Brito e Cunha, José Duarte, Eduarda Ferreira, Orlando Neves e Mário Zambujal. E o que conseguiram é difícil ser menosprezado – um programa de textos inovadores, com um humor muito non-sense, histórias pródigas em ironia e absurdo, frases inspiradas e diálogos desconcertantes e, muitas vezes, sem nexo. O Pão com Manteiga tinha ouvintes incondicionais, como eu, que ainda comprei um ou dois exemplares da revista homónima, e adquiri na época os dois tomos em que se reuniram esses textos (livros esses que acabei por empresta-dar). No ano de 2007, a Oficina do Livro, reeditou o Pão com Manteiga, numa obra única, e é esse livro, que acabo agora de ler, que motivou este pequeno apontamento. Há um ou outro texto original que retenho de memória e que não reencontrei nas páginas desta reedição, pelo que não terá sido, certamente, uma edição na íntegra de todos os textos (o que seria justo e merecido); mas, naturalmente, que essa era uma prerrogativa natural da editora e dos autores dos textos.

Programa de referência para uma geração e um país, o Pão com Manteiga oferecia aos ouvintes textos que, pelo seu formato radiofónico, tinham necessariamente de ser breves, condicionante que reencontramos hoje no mundo célere e volúvel das páginas da Web. Decorria daí que, a par de trocadilhos que faziam com palavras, expressões e provérbios, tenham privilegiado diálogos e outros pequenos textos ficcionais que hoje poderíamos classificar nos géneros do miniconto e, mesmo, da micronarrativa (quando esta estava a anos-luz de sonhar ser um género literário). Os recursos e processos criativos usados nessa época foram reiventados nos nossos dias pelos “luso-bloggers”; mas entre uns e outros há, por vezes, um fio condutor, uma passagem de testemunho, seja na primeira pessoa (pelos menos teenagers), seja pela leitura da obra original adquirida por um pai, um tio ou um irmão mais velho.

A título de ilustração, transcrevo meia-dúzia de frases construídas com trocadilhos, a última das quais, foi retirada do Pão com Manteiga 2 e escapou, com outros textos de valor, à reedição da Oficina do Livro:


O Euclides não é responsável pelas hipóteses nuas em que você, ás vezes, pensa.
 *
Um lar onde ninguém se deita, é um lar perpendicular.
 *
Os parênteses andam sempre virados um para o outro, mesmo quando são parênteses afastados.
 *
As orações subordinadas devem ser lidas de joelhos.
 *
Um versa, é sempre mais do que um vice-versa.
 *
Nem sempre o pecado mora ao lado; gasta-se um dinheirão em transportes


Mail dum ambientalista preocupado

Caro coordenador
do movimento Earth-Watchers:


Devo alertar para um indício de contaminação ambiental, que vou investigar com brevidade para colher mais informações e provas.
Suspeito que estamos perante novos atentados ambientais (químicos? radioactivos?) que estão a causar a degradação e perda de visão de espécies faunísticas. E a base da minha suspeita é esta: ontem à noite, e a altas horas da noite, regressava a casa de carro pelo meio dos campos, e atropelei um coelho bravo. Não parei o carro, porque não conservava a lucidez suficiente para lidar com um percalço desses. Mas o facto, é que esta manhã, ao examinar o meu carro encontrei um par de óculos pendurados por uma haste na grelha do radiador.


Nas próximas horas, conto fazer a viagem inversa para tentar recuperar o corpo do coelho atropelado, para um atento exame laboratorial que possa determinar as causas da sua perda de visão.
Irei dando informações
                                                                                                                    

Atentamente

S. M. (membro n.º 1278 dos EW)


Sonho túmido

Rosa gorda, a adolescente mais macambúzia e complexada da escola, está sentada numa cadeira a um canto do salão de bailes, esquecida pelas amigas e pelos rapazes. Todos, ou quase todos, dançam, e ela meneia a cabeça ao som da música com uma expressão ausente. Do caos de pessoas que caminham e dançam diante dos seus olhos, emerge, como num sonho, a figura adorada do Fred, o ídolo masculino da escola. Para sua incredulidade, Fred convida-a para dançar, e pega-lhe pelas mãos para a conduzir para o centro da pista e, como se o universo inteiro esperasse por esse gesto, a banda começa a tocar uma música mais lenta e romântica. Os dois dançam abraçados, os seus corpos se roçam, os seus lábios brincam e insinuam-se, saboreando-se. Estão juntos, apertados um contra o outro, o desejo cresce e as carícias tornam-se mais inconformadas. Ele pega-lhe de novo pelas mãos e juntos abandonam a pista e saem do salão. No exterior, a um canto do edifício, há uma escadaria exterior na penumbra, e os dois abrigam-se aí, na intimidade precária daquele leito de degraus. Enquanto se despem um ao outro, Fred inclina inadvertidamente a cabeça e dá uma violenta cabeçada na esquina da mesa-de-cabeceira. Senta-se de um salto na cama e solta um grito de terror. Levanta-se ás pressas, esfrega os braços com energia, e não descansa enquanto não lava a boca e a cara no lavatório, e bochecha a boca com elixir. Só então, mais refeito do susto, passa água fria no alto que se formou na cabeça, inchaço acidental que sucedeu ao inchaço entre as pernas que desenvolvera antes de acordar.

Sexta-Feira santa

O marinheiro fumou um cigarro, deitado no convés sob a luz das estrelas. Um braço feminino envolveu o seu peito, e a voz doce da sereia perguntou-lhe ao ouvido.
- Estás contente por eu ter aparecido?
- Estou, e hoje, não podia mesmo comer carne!

mística fotónica

Sempre sentiu dentro de si,
   esse fascínio, atracção, pelo
      alto
         pelo que está acima de 
             si, pela luz superior,
                que brilha acima
                da sua cabeça e da sua vida,
             umas vezes 
         a luz do farol, 
      outras o Sol, 
   outras a luz da lâmpada 
no tecto

A ceia

Os gansos são o melhor animal de vigia, afirmou Renato á mulher, salvaram Roma de ser invadida, e também preservarão os nossos bens se alguém tentar assaltar a nossa casa, eles não dormem e não facilitam - a qualquer hora do dia ou da noite, eles encarregam-se de dar o alarme. Pondo á prova a sua teoria, ofereceu a um amigo o seu cão de guarda, e construiu no recanto onde estivera a casota do animal, um pequeno cercado com um casal de gordos gansos. Os gansos revelaram-se eficazes. Da primeira vez que tentaram transpor o muro para dentro do quintal, os gansos fizeram um alvoroço tal que acordaram o bairro inteiro, e os ladrões fugiram de mãos vazias. Na vez seguinte, o alvoroço foi semelhante, mas desta feita, os larápios capturaram e levaram os gansos. Como Renato, mas por razões diferentes, eles preferiam-nos aos cães.


Um homem não é nada, não é um rochedo de pórfiro, uma viga de aço, um molhe de pedra, cai-lhe uma parede em cima, é apanhado pela força descomunal dum carro acelerado, engolido por uma vaga tímida, ou engasga-se com uma côdea de pão, e desaparece, como uma bola de sabão que arrebenta. Não fica nada. Seria de supor que a magnitude da força de um homem, fizesse subir a fasquia, e que fossem necessárias catástrofes bíblicas para aniquilar um homem poderoso, mas nem nisso podemos estar seguros. Tome-se o exemplo do duque d’Alençon, um dos guerreiros mais temíveis do seu tempo. Venceu batalhas sem conta, e derrotou inimigos em torneios, era uma figura pavorosa, de porte gigantesco, sempre envergando a sua armadura negra e o seu elmo banhado a prata. Com a fortuna reunida em conquistas e saques, ergueu para si um castelo apalaçado que todos consideravam inexpugnável, com muralhas de cor negra, como a sua armadura, e um belo dia, no centro do seu jardim, morreu quando uma folha de avelaneira pousou na sua testa descoberta, sem mais, a folha pousou e ele caiu fulminado.

Rainha

                Subiu lesto os parcos degraus que separavam o átrio do hotel do recinto sobrelevado onde haviam instalado a receção. Ab...