«A um dia assim como o de hoje costumo chamar, no meu calão de poeta em férias, dia "incoincidente".
«O céu desde manhã que se conserva azul com gradações cruas de quadro mau; as árvores escorrem verde e chilreios de pássaros; as ruas riscam-se da rapidez das sombras. Uma serenidade tépida cinge toda esta paisagem de trapeiras e de ceroulas a secarem ao sol numa sinfonia natural de cores, pombas, luz e árvores com flores azuis no Largo do Rato.
«(...) Mal deitei o nariz fora da porta, logo pressenti o desconcerto do dia, bem visível nesta não-coincidência do azul do céu com as carantonhas de palmo e meio das pessoas que me acotovelavam na rua.
«"A minha também deve estar de meter medo" - pensei. E disfarçadamente mirei-me no espelho lateral duma montra.
«Mas não cheguei a qualquer conclusão. Limitei-me a verificar mais uma vez o espanto de trazer por fora um ser tão completamente diferente de mim, e pus-me de novo a caminho»

(extracto do conto "A Sombra", de José Gomes Ferreira, que pode ler na íntegra aqui)

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