Último grito

Reunião de accionistas da empresa, formal e padronizada. Declarações iniciais, leitura dos itens da agenda, pequenas conversas discretas entre vizinhos de cotovelo. Nesta atmosfera manietada por gravatas e fatos, começa-se a ouvir um som diferente e invulgar. Uma mulher de fato, advogada, está ao telemóvel, e emite pequenos gemidos luxuriosos. As pessoas entreolham-se, mas ninguém se atreve a chamar-lhe a atenção, até porque ela parece ter perdido o domínio de si, geme e grita de prazer, sem contenções, as suas mãos exploram os seus próprios seios e intrometem-se entre as pernas que se esfregam uma na outra, e ela próprio desliza para o chão no seu bailado sensual, e rebola sobre a mesa electrizando o ar com os seus gritos. Quando atinge o êxtase e sossega em ondas de prazer e fadiga que se espraiam no silêncio, o administrador da empresa levanta-se da cadeira, enxuga uma gota de saliva que se perlara no canto do lábio e declara.
- Se algum dos presentes já adquiriu um dos telemóveis de última geração, destes que possuem a opção de sexo virtual, agradecia que não os usassem dentro desta sala. Em nome do bom andamento dos trabalhos...

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