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À entrada da gruta, os moradores sentaram-se em círculo, em redor duma fogueira de calor agradável. Era seguro, parecia seguro, os animais selvagens não se aproximariam deles, e o tempo estava ameno, apesar de ainda estarem no segundo mês após o solstício de Inverno. Ruiz, o viajante, abriu uma sacola que trazia a tiracolo, extraindo dela uma resma de papéis e alguns livros encadernados.
- Desta vez fui mais longe - começa por narrar - cheguei a uma cidade em ruínas junto ao mar, ainda se vêem os carros e eléctricos a enferrujar nas ruas, e nos prédios desabitados e a ameaçar ruínas, ainda existe muita coisa que poderíamos aproveitar, isto, se não vos fizer impressão os esqueletos e as sombras que juncam as casas e as ruas.
Fez-se um silêncio grave e embaraçado, logo soprado para longe pela voz alegre dum jovem.
- E o que nos trazes desta vez, Ruiz? Histórias? Poemas? contos?
Ruiz encolheu os ombros.
- Muita coisa, estive a ler muitas delas, mas o sentido escapa-me. Já se somaram mais de cinquenta anos desde o fim da guerra, e há muitas coisas que já não conseguimos interpretar. Como esta... - anunciou, desdobrando um pequeno folheto que guardara no bolso - tentem acompanhar-me e, se tiverem alguma ideia, não hesitem em interromper-me. Eu acho que deve fazer parte dum manual dum mágico ou herbanário. Vejam, vou ler uma parte - este medicamento tem aplicação como analgésico e deve ser administrado em situações clínicas como hipertermias infecciosas, reacções hiperérgicas da vacinação, cefaleias, enxaquecas, dores de dentes, de ouvidos, menstruais, traumáticas, musculares, articulares, osteoartrose; zumbidos na cabeça, e desacertos da vontade. Deve ser tomado ás refeições, mas nunca antes do sol nascer ou depois dele desaparecer no céu. O que é que acham?
- É sem dúvida dum mago ou curandeiro, e dos últimos tempos do antigo regime, ainda tem muitas palavras estranhas e não fala a língua de todos nós. Não percebo porque fala do sol...
- Essa é fácil - respondeu Ruiz - nós sabemos que o sol é um dos regentes dos humores do corpo, e esta mezinha não deve fazer efeito sem a sua influência.
- O que é uma osteoartrose? - perguntou outro.
Todos pensaram um pouco, e só João, o Gramático, é que se atreveu a intervir.
- Deve estar relacionado com ostras ou outras criaturas do mar. Nós sabemos que a aplicação de conchas aquecidas ao sol sobre os centros do corpo ajuda a recobrar das doenças. Deve ser isso...
Todos pareceram concordar.
- Antes da próxima lua tenho de lá voltar - anunciou Ruiz - Vi um bidão fechado pequeno com uma caveira e dois ossos num sinal vermelho. Acho que deve conter mesinhas ou fármacos para combater as dores nos ossos e articulações. Queria trazê-lo, mas vou precisar de ajuda, se tiver mais dois braços para carregar, arma-se uma padiola forte e traz-se o bidão até aqui.
- Eu vou! - exclamou o jovem que o interpelara antes - eu ajudo-o a trazer, vamos trazer os remédios e ajudar os nossos.
- Vocês são os mensageiros da esperança - considerou o Gramático, com uma gravidade de épico.



Rainha

                Subiu lesto os parcos degraus que separavam o átrio do hotel do recinto sobrelevado onde haviam instalado a receção. Ab...