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a outra face do medo

- Não faças isso, senão és castigado, vem aí o homem do saco e leva-te.
O argumento era poderoso e impunha respeito, o homem do saco, personagem imaginária, hedionda e assustadora que fazia as crianças da aldeia andarem na linha e obedecerem aos pais, não respondas torto senão o homem do saco...não ajudes e não arrumes que o homem do saco...
Na vida de todos, há um dia em que a ficção nos entra pela vida adentro como se não existissem portas nem fronteiras e ela sempre tivesse morado lá, e esse dia chegou para as crianças da aldeia quando a ela arribou o mal-afamado homem do saco, um mendigo sem dentes de cabelos e barba grisalhos e roupas miseráveis, carregando ás costas um saco grande com as coisas que aproveitava dos caixotes do lixo plantados pelas ruas. Por onde vagueava, o homem do saco era vigiado por uma ou mais crianças, e quando finalmente, a criatura abandonou a aldeia, foi seguido à distância por uma matilha de crianças precavidas, e quando um e outros alcançaram um descampado sem vivalma, as crianças, confiantes no seu número, mais do que na sua força, atiraram-se a ele com facas e machadinhas de lenha e golpearam-no até o homem do saco ficar imóvel e sem vida na valeta da berma da estrada.
Desse dia em diante, tornou-se mais difícil impor-lhes disciplina, e as ameaças vagas dos adultos com o homem do saco, apenas obtinham em resposta, um sorriso velado e sobranceiro.

A sombra dos dias

               Um galão direto e uma torrada com pouca manteiga  - pediu a empregada no balcão à colega. Podia até ter pedido antes,...