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Doriano Cinzento

Logo no primeiro dia em que se aventurou pelos universos da Web, o jovem Doriano criou um perfil pessoal, para blogs, redes sociais, chats, e outros achados. O perfil era generoso consigo mesmo. Belo, atlético, culto, escrevia poesia e desenvolvia trabalho comunitário, escrevera uma tese sobre Hölderlin, e prosseguia um trabalho exaustivo de anos para facilitar a leitura e compreensão dos antigos tratados alquímicos. Não faltava no perfil uma assombrosa listagem de obras lidas, e o ecletismo dos seus gostos musicais e artísticos, tornavam-no apto a discutir qualquer coisa com qualquer pessoa.
Os anos passaram sobre Doriano, mas não sobre o seu perfil, que se manteve jovem, belo e atraente como nos primeiros dias, melhorado ao longo dos anos com novos itens, reais e imaginários, que Doriano tivera o cuidado de acrescentar.
O perfil de Doriano não experimentou as suas doenças e desavenças, não soube o que era a traição e a ira, o tédio e a dor. Quando Doriano desencarnou, ninguém se apercebeu disso, as suas palavras e ideias permaneciam, e o semblante do seu perfil resplandecia como sempre, como o rosto laminado a ouro de um buda oriental. Na sua ausência, o seu perfil não lhe foi desleal, e tomou o seu lugar nas justas e encontros da Web, e com um vigor e energia que Doriano perdera trinta anos antes. Só uma pessoa muito atenta é que poderia notar que na foto do perfil, se notava alguma palidez no rosto, rugas microscópicas em volta dos olhos e uma sombra de tristeza nas suas pupilas.

Dicionário

                O “seu” dicionário não tinha muitas palavras, e entre estas, havia muitas quase virginais, intocadas, outras devassadas e p...