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Outros dados, e cartas, no final da página

Último grito

Reunião de accionistas da empresa, formal e padronizada. Declarações iniciais, leitura dos itens da agenda, pequenas conversas discretas entre vizinhos de cotovelo. Nesta atmosfera manietada por gravatas e fatos, começa-se a ouvir um som diferente e invulgar. Uma mulher de fato, advogada, está ao telemóvel, e emite pequenos gemidos luxuriosos. As pessoas entreolham-se, mas ninguém se atreve a chamar-lhe a atenção, até porque ela parece ter perdido o domínio de si, geme e grita de prazer, sem contenções, as suas mãos exploram os seus próprios seios e intrometem-se entre as pernas que se esfregam uma na outra, e ela próprio desliza para o chão no seu bailado sensual, e rebola sobre a mesa electrizando o ar com os seus gritos. Quando atinge o êxtase e sossega em ondas de prazer e fadiga que se espraiam no silêncio, o administrador da empresa levanta-se da cadeira, enxuga uma gota de saliva que se perlara no canto do lábio e declara.
- Se algum dos presentes já adquiriu um dos telemóveis de última geração, destes que possuem a opção de sexo virtual, agradecia que não os usassem dentro desta sala. Em nome do bom andamento dos trabalhos...

concordância

- Estás saído da casca. Sabes disso, não sabes? - disse a velha tartaruga.
- Sei, tio, e cá fora está mais frio - e ditas estas palavras, a pequena tartaruga voltou a enfiar-se dentro da carapaça.

a outra face do medo

- Não faças isso, senão és castigado, vem aí o homem do saco e leva-te.
O argumento era poderoso e impunha respeito, o homem do saco, personagem imaginária, hedionda e assustadora que fazia as crianças da aldeia andarem na linha e obedecerem aos pais, não respondas torto senão o homem do saco...não ajudes e não arrumes que o homem do saco...
Na vida de todos, há um dia em que a ficção nos entra pela vida adentro como se não existissem portas nem fronteiras e ela sempre tivesse morado lá, e esse dia chegou para as crianças da aldeia quando a ela arribou o mal-afamado homem do saco, um mendigo sem dentes de cabelos e barba grisalhos e roupas miseráveis, carregando ás costas um saco grande com as coisas que aproveitava dos caixotes do lixo plantados pelas ruas. Por onde vagueava, o homem do saco era vigiado por uma ou mais crianças, e quando finalmente, a criatura abandonou a aldeia, foi seguido à distância por uma matilha de crianças precavidas, e quando um e outros alcançaram um descampado sem vivalma, as crianças, confiantes no seu número, mais do que na sua força, atiraram-se a ele com facas e machadinhas de lenha e golpearam-no até o homem do saco ficar imóvel e sem vida na valeta da berma da estrada.
Desse dia em diante, tornou-se mais difícil impor-lhes disciplina, e as ameaças vagas dos adultos com o homem do saco, apenas obtinham em resposta, um sorriso velado e sobranceiro.

signos

À entrada da gruta, os moradores sentaram-se em círculo, em redor duma fogueira de calor agradável. Era seguro, parecia seguro, os animais selvagens não se aproximariam deles, e o tempo estava ameno, apesar de ainda estarem no segundo mês após o solstício de Inverno. Ruiz, o viajante, abriu uma sacola que trazia a tiracolo, extraindo dela uma resma de papéis e alguns livros encadernados.
- Desta vez fui mais longe - começa por narrar - cheguei a uma cidade em ruínas junto ao mar, ainda se vêem os carros e eléctricos a enferrujar nas ruas, e nos prédios desabitados e a ameaçar ruínas, ainda existe muita coisa que poderíamos aproveitar, isto, se não vos fizer impressão os esqueletos e as sombras que juncam as casas e as ruas.
Fez-se um silêncio grave e embaraçado, logo soprado para longe pela voz alegre dum jovem.
- E o que nos trazes desta vez, Ruiz? Histórias? Poemas? contos?
Ruiz encolheu os ombros.
- Muita coisa, estive a ler muitas delas, mas o sentido escapa-me. Já se somaram mais de cinquenta anos desde o fim da guerra, e há muitas coisas que já não conseguimos interpretar. Como esta... - anunciou, desdobrando um pequeno folheto que guardara no bolso - tentem acompanhar-me e, se tiverem alguma ideia, não hesitem em interromper-me. Eu acho que deve fazer parte dum manual dum mágico ou herbanário. Vejam, vou ler uma parte - este medicamento tem aplicação como analgésico e deve ser administrado em situações clínicas como hipertermias infecciosas, reacções hiperérgicas da vacinação, cefaleias, enxaquecas, dores de dentes, de ouvidos, menstruais, traumáticas, musculares, articulares, osteoartrose; zumbidos na cabeça, e desacertos da vontade. Deve ser tomado ás refeições, mas nunca antes do sol nascer ou depois dele desaparecer no céu. O que é que acham?
- É sem dúvida dum mago ou curandeiro, e dos últimos tempos do antigo regime, ainda tem muitas palavras estranhas e não fala a língua de todos nós. Não percebo porque fala do sol...
- Essa é fácil - respondeu Ruiz - nós sabemos que o sol é um dos regentes dos humores do corpo, e esta mezinha não deve fazer efeito sem a sua influência.
- O que é uma osteoartrose? - perguntou outro.
Todos pensaram um pouco, e só João, o Gramático, é que se atreveu a intervir.
- Deve estar relacionado com ostras ou outras criaturas do mar. Nós sabemos que a aplicação de conchas aquecidas ao sol sobre os centros do corpo ajuda a recobrar das doenças. Deve ser isso...
Todos pareceram concordar.
- Antes da próxima lua tenho de lá voltar - anunciou Ruiz - Vi um bidão fechado pequeno com uma caveira e dois ossos num sinal vermelho. Acho que deve conter mesinhas ou fármacos para combater as dores nos ossos e articulações. Queria trazê-lo, mas vou precisar de ajuda, se tiver mais dois braços para carregar, arma-se uma padiola forte e traz-se o bidão até aqui.
- Eu vou! - exclamou o jovem que o interpelara antes - eu ajudo-o a trazer, vamos trazer os remédios e ajudar os nossos.
- Vocês são os mensageiros da esperança - considerou o Gramático, com uma gravidade de épico.



alien

- O que está para dentro não é nada bonito – avisou ele ao terapeuta.
- Mas eu quero que se solte, que abra as portas, que destranque as coisas que guarda dentro.
- Mas não vai ser uma coisa bonita de se ver…
- Deixe-me ser eu a ajuizar sobre isso!
Ele aquiesceu, já sem argumentos. Abriu a boca, e da boca saiu uma longa haste com uma corola rubra na ponta, que por sua vez se abriu numa segunda boca semeada de dentes curvos. A dentada no crânio do terapeuta antecipou o seu juízo clínico.

O filho contempla o pai deitado numa cama de hospital como se estivesse num berçário, na verdade, tem tantos aparatos em volta como um prematuro numa incubadora. O filho tenta captar a sua atenção e sorri.
- Um dia, quando saíres daqui, vou-te mostrar coisas, havemos de passear, e ir á pesca, E quando largares as fraldas e a ama deixar, iremos beber umas cervejas, pode ser numa cervejaria que conheço ali no Lumiar, que tem uns petiscos de estalo, e havemos de ir ao futebol, ou á tourada, que é quase a mesma coisa, e acabar o dia a jantar num restaurante cabo-verdiano onde as mornas acompanham a comida quente, e têm umas fêmeas do caraças a servir.
Calou-se, deu um jeito á cadeira para deixar passar a enfermeira que ia verificar um dos aparelhos ou sacos pendurados. Enfastiou-se de estar ali, olhou o relógio, coçou a escrófula que começara a criar nas costas da mão, olhou em redor, o pai adormecido, as paredes brancas, os armários brancos, um cabelo longo e louro enrolado sobre um dos mosaicos do chão. Voltou a olhar o relógio, os números não andavam. Achou que tinha de dizer alguma coisa. O casal que visitava o outro doente acamado no quarto olhava-o de soslaio, analisavam-no como se fosse contra-natura não ter nada para dizer a alguém do nosso sangue quanto o visitamos no hospital, estavam a examinar e a criar uma opinião sobre ele, tão agradável ao tacto como um belo dum tumor. Que obsessão, a de algumas pessoas que vivem para se meterem na vida dos outros, e andarem por ali a cagar e a andar, contaminando tudo com os seus juízos pedantes e acastelados, e a sua reconhecida superioridade de deidades amassadas em bosta.
- A Lucinda manda cumprimentos, aliás, vindos dela, são mais larguras o que ela lhe manda. Ela não pôde vir, e anda emburrada comigo por causa da pequena que eu arranjei, mas você sabe como é, você contava tantas histórias sobre as tipas e as criadas…
O casal da outra cama abandonou o quarto, e ele sentiu-se mais aliviado. Levantou-se também. O pai continuava sem dar de si, adormecido ou em coma, não sabia, mas o homem acamado e entubado na outra cama estava bem acordado, e não tirava os olhos de si. Olhou em volta, e não viu mais ninguém, aproximou-se do homem e inspirou com força sobre o seu corpo com uma expressão de felicidade.
- Ah!! O doce cheiro da morte!


- João, acorda, vá, acorda!
- O que foi? Algum ladrão?
- Não sei, acho estranho, não se ouve o rio, a gente ouve sempre o rio, esteja zangado ou esteja para amores, ouve-se sempre o rio…
- Velha, acordas-me para andares com poesias? Deixa-me dormir…
A mulher levantou-se, enrolou um xaile ao pescoço e calçou as suas tamancas enlameadas. Quando saiu á porta, a sua surpresa não foi muita, o rio subira mais uma vez e a margem era ali mesmo, a um metro da porta, e corria depressa sob o luar, engordado com fragmentos de vegetação e carcaças humanas. Sustendo a respiração como se fosse mergulhar de cabeça, meteu as pernas na água escura e ensaiou alguns passos até segurar o velho bote de pesca que pairava junto á casa como um fiel animal de estimação. Amarrou a corda do barco ao batente da porta e voltou ao quarto, asinha. Junto ao leito, afastou o andarilho do seu homem, e pegou nele como se pega numa criança crescida. Ele continuou a dormir enquanto era carregado até ao exterior, e só entreabriu os olhos quando ela o deitou no fundo do barco.
- Velha – ouviu-o resmungar – destapaste-me outra vez!

(“Quando o rio não faz ruído, ou não leva água, ou vai crescido” – adágio tradicional)


Vivia tão impregnado de realidade, tão amassado e embrutecido por imperativos rotineiros e mecânicos, que os espanta-espíritos á porta das casas deixaram de ter efeito sobre ele.

prova dos novos

Sentiu que estava a ficar velho quando uma das suas turmas de alunos, declarou em peso que nunca tinham ouvido falar dos Pink Floyd. Pior se sentiu quando uma adolescente de fones nos ouvidos lhe cedeu a cadeira na sala de espera do dentista, mas o que o arrumou de vez, foi um copo para a dentadura que o seu neto Luís lhe ofereceu na festa dos avós do infantário.

Charlie Parker - "My old flame"

rotina


Etimologia não-autorizada de rotina: palavra que deriva de roto (roto+ina), de sentirmos que andamos rotos todos os dias, maltratados, castigados, de mistura com o desejo em surdina de nos diluirmos numa valente bebedeira, ou de nos atirarmos para a frente dum comboio.

Doriano Cinzento

Logo no primeiro dia em que se aventurou pelos universos da Web, o jovem Doriano criou um perfil pessoal, para blogs, redes sociais, chats, e outros achados. O perfil era generoso consigo mesmo. Belo, atlético, culto, escrevia poesia e desenvolvia trabalho comunitário, escrevera uma tese sobre Hölderlin, e prosseguia um trabalho exaustivo de anos para facilitar a leitura e compreensão dos antigos tratados alquímicos. Não faltava no perfil uma assombrosa listagem de obras lidas, e o ecletismo dos seus gostos musicais e artísticos, tornavam-no apto a discutir qualquer coisa com qualquer pessoa.
Os anos passaram sobre Doriano, mas não sobre o seu perfil, que se manteve jovem, belo e atraente como nos primeiros dias, melhorado ao longo dos anos com novos itens, reais e imaginários, que Doriano tivera o cuidado de acrescentar.
O perfil de Doriano não experimentou as suas doenças e desavenças, não soube o que era a traição e a ira, o tédio e a dor. Quando Doriano desencarnou, ninguém se apercebeu disso, as suas palavras e ideias permaneciam, e o semblante do seu perfil resplandecia como sempre, como o rosto laminado a ouro de um buda oriental. Na sua ausência, o seu perfil não lhe foi desleal, e tomou o seu lugar nas justas e encontros da Web, e com um vigor e energia que Doriano perdera trinta anos antes. Só uma pessoa muito atenta é que poderia notar que na foto do perfil, se notava alguma palidez no rosto, rugas microscópicas em volta dos olhos e uma sombra de tristeza nas suas pupilas.

Ânusdota

A duzentos metros do centro da cidade, o carro ficou sem gasolina e o assaltante abandonou-o, arrastando o saco cheio de notas do Banco. Olha nervosamente sobre o ombro e entra num pequeno jardim com sebes e canteiros de flores. Nesse instante, sente uma cólica súbita e ajoelha-se por trás de uma sebe para aliviar a tripa. Depois é que se lembrou: como é que eu me vou limpar? Olhou o saco cheio de notas, mas logo mudou de ideias. O dinheiro não, o dinheiro é sujo!


Ino-ciência


Ela está sentada numa mesa de café, pediu um café, ainda podia. Abre o jornal á sua frente na secção de classificados. Classificados-Emprego-Ofertas. Tira a tampa do marcador vermelho e assinala alguns com um círculo em volta, a ponta do marcador hesita e adeja o papel enquanto a mulher pesa e sopesa as palavras, e depois segue ou não, chia ou cala-se. Bebe o café, que já esfriara, e ergue os olhos cansados para o movimento indiferente do estabelecimento. Uma menina está de pé junto á sua mesa, com a mãe a olhá-la da mesa vizinha com um sorriso benevolente. A criança hesita, apenas um instante, e depois pergunta-lhe:
- Também posso desenhar bolinhas?

a vida perfeita

O ancião de feições enrugadas não precisava mais do que o seu canto no asilo, precisava apenas do seu pequeno território de um metro quadrado junto á janelas de alumínio onde, quando não o importunavam, representava o seu pequeno teatro pessoal de gestos e expressões que fazia gala em repetir todos os dias a toda a hora, era uma exibição mímica, uma história inenarrável para alguém ou alguma coisa fora de si, mas que se deliciava a evocar para si mesmo - o esticar de braços de alguém que acorda, o andar em volta com os olhos ausentes na distância, algumas palavras murmuradas entredentes, expressões e sorrisos de quem conversa com outra pessoa com lampejos de gargalhadas e exclamações.
Os seus companheiros do asilo, e as funcionárias, deixam-no entregue às suas fantasias, ignorando as tramas e as raízes daquilo que representava no seu fosso abissal.
O que os outros não estavam aptos a compreender, era que a memória daquele velho implodira sobre si mesma, esfumara-se nos céus, deixando para trás, apenas um dia da sua vida a luzir como uma estrela desvanecida de luz cerúlea, um dia inteiro que tomara o lugar de toda uma vida, e que repetia mal acordava, entrando e saindo dele como se não houvesse mais tempo ou mais universo. Cumprindo com esse rito fundador, o espírito daquele velho repetia as mesmas acções como se as inventasse em cada dia, acordar no leito e espreguiçar-se ao lado da mulher que dorme, admirara sua beleza serena sob a luz tímida da madrugada, desperta-a com beijos, e conversa com ela, saem para a rua agitada e passeiam sob o sol, passa o dia com ela, urdindo as rotinas e os gestos comuns que um colapso caprichoso imortaliza e fixa no tecido da memória. Se naquele espírito e naquele coração, houvesse espaço para outros conceitos ou emoções, aquele velho deveria sentir gratidão por ter soçobrado do naufrágio, um dia impoluto e alegre em que o amor e a luz abundavam.

«A um dia assim como o de hoje costumo chamar, no meu calão de poeta em férias, dia "incoincidente".
«O céu desde manhã que se conserva azul com gradações cruas de quadro mau; as árvores escorrem verde e chilreios de pássaros; as ruas riscam-se da rapidez das sombras. Uma serenidade tépida cinge toda esta paisagem de trapeiras e de ceroulas a secarem ao sol numa sinfonia natural de cores, pombas, luz e árvores com flores azuis no Largo do Rato.
«(...) Mal deitei o nariz fora da porta, logo pressenti o desconcerto do dia, bem visível nesta não-coincidência do azul do céu com as carantonhas de palmo e meio das pessoas que me acotovelavam na rua.
«"A minha também deve estar de meter medo" - pensei. E disfarçadamente mirei-me no espelho lateral duma montra.
«Mas não cheguei a qualquer conclusão. Limitei-me a verificar mais uma vez o espanto de trazer por fora um ser tão completamente diferente de mim, e pus-me de novo a caminho»

(extracto do conto "A Sombra", de José Gomes Ferreira, que pode ler na íntegra aqui)

Entre a parede e o poste, havia um círculo de luz, intenso como lava, que nada tinha a ver com esses raios trémulos coados pelo bailado das folhas da videira, nesse espaço iluminado entre a terra e o céu ou entre o inferno e aquela, aglomeravam-se os moscardos como abelhas nos favos. Olhando para eles, Gervásio não conseguia perceber o que é que atraía aqueles insectos nojentos àquele espaço de tijolo e reboco esfarelado, podia ser do odor das fêmeas no cio, ou a a sedução dalgum cacho esmagado contra a parede cujos vestígios tivessem maturado num vinho inebriante. De todas as formas, Gervásio enojava-se de os ver ali, tão perto de si e sempre a zumbirem e, quando se sentia com forças, erguia-se do cadeirão sob as vides suspensas, e tremendo com as mãos aferroadas ás bengalas, aproximava-se deles e aniquilava uns quantos à bordoada. Quando retornava ao seu pouso, exangue e cansado, os moscardos voltavam ao seu lugar de eleição, tão numerosos como antes. Num fim de tarde em que se preparava para se refugiar em casa aos primeiros sinais da aragem fria do entardecer, viu um dos moscardos pousado no braço do cadeirão, a um palmo da sua mão. Pensou de imediato em esmagá-la com força, mas fez algo insólito, aprisionou o insecto dentro da mão em concha, e com os dois dedos da outra mão, explorou o interior dessa gaiola improvisada e conseguiu segurá-lo pelas asas translúcidas. O que fez em seguida parecia inevitável e ditado por alguma sina longínqua, esticou-se sobre a mesa e alcançou a lupa na outra extremidade, o neto deixara-a ali quando estivera a exibir a sua colecção de selos, e agora iria ser-lhe útil. Erguendo o insecto à luz, centrou-o nas lentes arredondadas da lupa, e estudou a criatura. Era como todos os insectos do género, pegajoso e repugnante, com dois olhos enormes e patinhas e pêlos minúsculos distribuídos corpo. Naquele instante, e vá o diabo perceber porquê, aquele insecto fez-lhe lembrar o Amílcar, o Amílcar da campanha em França, o Amílcar das patuscadas e das bebedeiras. Eram como irmãos, mas com o fim da guerra deixara de o ver e nada soubera dele durante anos a fio até lhe contarem que havia morrido em casa, a vomitar sangue na cama, e a recordação mais viva que guardava dele era particularmente agreste, ele e o Amílcar andavam a fazer a ronda numa aldeia em ruínas e surpreenderam um grupo de soldados que se serviam do corpo de uma mulher, uma mulher quase menina, batiam-lhe e penetravam-na à vez entre gritos e urros. Usando as coronhas das armas, os dois conseguiram fazer dispersar aquela alcateia de violadores, e, enquanto eles corriam dali para fora, ele e o Amílcar despiram as calças e tomaram o lugar deles sobre a jovem desmaiada. Pousou a lupa, e soltou as asas do Amilcar. Os moscardos continuavam engalfinhados sobre a nesga de tijolo iluminada pelo sol do fim do dia. Gervásio ergueu-se a custo sobre as bengalas. A aragem fria no seu rosto lavado em lágrimas, pareceu-lhe um sinal de que a morte se avizinhava, rindo-se dos seus medos.

Rainha

                Subiu lesto os parcos degraus que separavam o átrio do hotel do recinto sobrelevado onde haviam instalado a receção. Ab...