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A mostrar mensagens de Março, 2010

Último grito

Reunião de accionistas da empresa, formal e padronizada. Declarações iniciais, leitura dos itens da agenda, pequenas conversas discretas entre vizinhos de cotovelo. Nesta atmosfera manietada por gravatas e fatos, começa-se a ouvir um som diferente e invulgar. Uma mulher de fato, advogada, está ao telemóvel, e emite pequenos gemidos luxuriosos. As pessoas entreolham-se, mas ninguém se atreve a chamar-lhe a atenção, até porque ela parece ter perdido o domínio de si, geme e grita de prazer, sem contenções, as suas mãos exploram os seus próprios seios e intrometem-se entre as pernas que se esfregam uma na outra, e ela próprio desliza para o chão no seu bailado sensual, e rebola sobre a mesa electrizando o ar com os seus gritos. Quando atinge o êxtase e sossega em ondas de prazer e fadiga que se espraiam no silêncio, o administrador da empresa levanta-se da cadeira, enxuga uma gota de saliva que se perlara no canto do lábio e declara. - Se algum dos presentes já adquiriu um dos telemóveis d…

concordância

- Estás saído da casca. Sabes disso, não sabes? - disse a velha tartaruga.
- Sei, tio, e cá fora está mais frio - e ditas estas palavras, a pequena tartaruga voltou a enfiar-se dentro da carapaça.

a outra face do medo

- Não faças isso, senão és castigado, vem aí o homem do saco e leva-te.
O argumento era poderoso e impunha respeito, o homem do saco, personagem imaginária, hedionda e assustadora que fazia as crianças da aldeia andarem na linha e obedecerem aos pais, não respondas torto senão o homem do saco...não ajudes e não arrumes que o homem do saco... Na vida de todos, há um dia em que a ficção nos entra pela vida adentro como se não existissem portas nem fronteiras e ela sempre tivesse morado lá, e esse dia chegou para as crianças da aldeia quando a ela arribou o mal-afamado homem do saco, um mendigo sem dentes de cabelos e barba grisalhos e roupas miseráveis, carregando ás costas um saco grande com as coisas que aproveitava dos caixotes do lixo plantados pelas ruas. Por onde vagueava, o homem do saco era vigiado por uma ou mais crianças, e quando finalmente, a criatura abandonou a aldeia, foi seguido à distância por uma matilha de crianças precavidas, e quando um e outros alcançaram um descampa…

signos

À entrada da gruta, os moradores sentaram-se em círculo, em redor duma fogueira de calor agradável. Era seguro, parecia seguro, os animais selvagens não se aproximariam deles, e o tempo estava ameno, apesar de ainda estarem no segundo mês após o solstício de Inverno. Ruiz, o viajante, abriu uma sacola que trazia a tiracolo, extraindo dela uma resma de papéis e alguns livros encadernados.
- Desta vez fui mais longe - começa por narrar - cheguei a uma cidade em ruínas junto ao mar, ainda se vêem os carros e eléctricos a enferrujar nas ruas, e nos prédios desabitados e a ameaçar ruínas, ainda existe muita coisa que poderíamos aproveitar, isto, se não vos fizer impressão os esqueletos e as sombras que juncam as casas e as ruas.
Fez-se um silêncio grave e embaraçado, logo soprado para longe pela voz alegre dum jovem.
- E o que nos trazes desta vez, Ruiz? Histórias? Poemas? contos?
Ruiz encolheu os ombros.
- Muita coisa, estive a ler muitas delas, mas o sentido escapa-me. Já se somaram mais de c…

alien

- O que está para dentro não é nada bonito – avisou ele ao terapeuta.
- Mas eu quero que se solte, que abra as portas, que destranque as coisas que guarda dentro. - Mas não vai ser uma coisa bonita de se ver… - Deixe-me ser eu a ajuizar sobre isso! Ele aquiesceu, já sem argumentos. Abriu a boca, e da boca saiu uma longa haste com uma corola rubra na ponta, que por sua vez se abriu numa segunda boca semeada de dentes curvos. A dentada no crânio do terapeuta antecipou o seu juízo clínico.

O filho contempla o pai deitado numa cama de hospital como se estivesse num berçário, na verdade, tem tantos aparatos em volta como um prematuro numa incubadora. O filho tenta captar a sua atenção e sorri. - Um dia, quando saíres daqui, vou-te mostrar coisas, havemos de passear, e ir á pesca, E quando largares as fraldas e a ama deixar, iremos beber umas cervejas, pode ser numa cervejaria que conheço ali no Lumiar, que tem uns petiscos de estalo, e havemos de ir ao futebol, ou á tourada, que é quase a mesma coisa, e acabar o dia a jantar num restaurante cabo-verdiano onde as mornas acompanham a comida quente, e têm umas fêmeas do caraças a servir. Calou-se, deu um jeito á cadeira para deixar passar a enfermeira que ia verificar um dos aparelhos ou sacos pendurados. Enfastiou-se de estar ali, olhou o relógio, coçou a escrófula que começara a criar nas costas da mão, olhou em redor, o pai adormecido, as paredes brancas, os armários brancos, um cabelo longo e louro enrolado sobre um dos mo…
- João, acorda, vá, acorda! - O que foi? Algum ladrão? - Não sei, acho estranho, não se ouve o rio, a gente ouve sempre o rio, esteja zangado ou esteja para amores, ouve-se sempre o rio… - Velha, acordas-me para andares com poesias? Deixa-me dormir… A mulher levantou-se, enrolou um xaile ao pescoço e calçou as suas tamancas enlameadas. Quando saiu á porta, a sua surpresa não foi muita, o rio subira mais uma vez e a margem era ali mesmo, a um metro da porta, e corria depressa sob o luar, engordado com fragmentos de vegetação e carcaças humanas. Sustendo a respiração como se fosse mergulhar de cabeça, meteu as pernas na água escura e ensaiou alguns passos até segurar o velho bote de pesca que pairava junto á casa como um fiel animal de estimação. Amarrou a corda do barco ao batente da porta e voltou ao quarto, asinha. Junto ao leito, afastou o andarilho do seu homem, e pegou nele como se pega numa criança crescida. Ele continuou a dormir enquanto era carregado até ao exterior, e só entreabr…
Vivia tão impregnado de realidade, tão amassado e embrutecido por imperativos rotineiros e mecânicos, que os espanta-espíritos á porta das casas deixaram de ter efeito sobre ele.

prova dos novos

Sentiu que estava a ficar velho quando uma das suas turmas de alunos, declarou em peso que nunca tinham ouvido falar dos Pink Floyd. Pior se sentiu quando uma adolescente de fones nos ouvidos lhe cedeu a cadeira na sala de espera do dentista, mas o que o arrumou de vez, foi um copo para a dentadura que o seu neto Luís lhe ofereceu na festa dos avós do infantário.

Charlie Parker - "My old flame"

rotina

Etimologia não-autorizada de rotina: palavra que deriva de roto (roto+ina), de sentirmos que andamos rotos todos os dias, maltratados, castigados, de mistura com o desejo em surdina de nos diluirmos numa valente bebedeira, ou de nos atirarmos para a frente dum comboio.

Doriano Cinzento

Logo no primeiro dia em que se aventurou pelos universos da Web, o jovem Doriano criou um perfil pessoal, para blogs, redes sociais, chats, e outros achados. O perfil era generoso consigo mesmo. Belo, atlético, culto, escrevia poesia e desenvolvia trabalho comunitário, escrevera uma tese sobre Hölderlin, e prosseguia um trabalho exaustivo de anos para facilitar a leitura e compreensão dos antigos tratados alquímicos. Não faltava no perfil uma assombrosa listagem de obras lidas, e o ecletismo dos seus gostos musicais e artísticos, tornavam-no apto a discutir qualquer coisa com qualquer pessoa. Os anos passaram sobre Doriano, mas não sobre o seu perfil, que se manteve jovem, belo e atraente como nos primeiros dias, melhorado ao longo dos anos com novos itens, reais e imaginários, que Doriano tivera o cuidado de acrescentar. O perfil de Doriano não experimentou as suas doenças e desavenças, não soube o que era a traição e a ira, o tédio e a dor. Quando Doriano desencarnou, ninguém se aper…

Ânusdota

A duzentos metros do centro da cidade, o carro ficou sem gasolina e o assaltante abandonou-o, arrastando o saco cheio de notas do Banco. Olha nervosamente sobre o ombro e entra num pequeno jardim com sebes e canteiros de flores. Nesse instante, sente uma cólica súbita e ajoelha-se por trás de uma sebe para aliviar a tripa. Depois é que se lembrou: como é que eu me vou limpar? Olhou o saco cheio de notas, mas logo mudou de ideias. O dinheiro não, o dinheiro é sujo!

Ino-ciência

Ela está sentada numa mesa de café, pediu um café, ainda podia. Abre o jornal á sua frente na secção de classificados. Classificados-Emprego-Ofertas. Tira a tampa do marcador vermelho e assinala alguns com um círculo em volta, a ponta do marcador hesita e adeja o papel enquanto a mulher pesa e sopesa as palavras, e depois segue ou não, chia ou cala-se. Bebe o café, que já esfriara, e ergue os olhos cansados para o movimento indiferente do estabelecimento. Uma menina está de pé junto á sua mesa, com a mãe a olhá-la da mesa vizinha com um sorriso benevolente. A criança hesita, apenas um instante, e depois pergunta-lhe: - Também posso desenhar bolinhas?

a vida perfeita

Imagem
O ancião de feições enrugadas não precisava mais do que o seu canto no asilo, precisava apenas do seu pequeno território de um metro quadrado junto á janelas de alumínio onde, quando não o importunavam, representava o seu pequeno teatro pessoal de gestos e expressões que fazia gala em repetir todos os dias a toda a hora, era uma exibição mímica, uma história inenarrável para alguém ou alguma coisa fora de si, mas que se deliciava a evocar para si mesmo - o esticar de braços de alguém que acorda, o andar em volta com os olhos ausentes na distância, algumas palavras murmuradas entredentes, expressões e sorrisos de quem conversa com outra pessoa com lampejos de gargalhadas e exclamações.
Os seus companheiros do asilo, e as funcionárias, deixam-no entregue às suas fantasias, ignorando as tramas e as raízes daquilo que representava no seu fosso abissal. O que os outros não estavam aptos a compreender, era que a memória daquele velho implodira sobre si mesma, esfumara-se nos céus, deixando pa…
«A um dia assim como o de hoje costumo chamar, no meu calão de poeta em férias, dia "incoincidente".
«O céu desde manhã que se conserva azul com gradações cruas de quadro mau; as árvores escorrem verde e chilreios de pássaros; as ruas riscam-se da rapidez das sombras. Uma serenidade tépida cinge toda esta paisagem de trapeiras e de ceroulas a secarem ao sol numa sinfonia natural de cores, pombas, luz e árvores com flores azuis no Largo do Rato.
«(...) Mal deitei o nariz fora da porta, logo pressenti o desconcerto do dia, bem visível nesta não-coincidência do azul do céu com as carantonhas de palmo e meio das pessoas que me acotovelavam na rua.
«"A minha também deve estar de meter medo" - pensei. E disfarçadamente mirei-me no espelho lateral duma montra.
«Mas não cheguei a qualquer conclusão. Limitei-me a verificar mais uma vez o espanto de trazer por fora um ser tão completamente diferente de mim, e pus-me de novo a caminho»

(extracto do conto "A Sombra", de J…
Entre a parede e o poste, havia um círculo de luz, intenso como lava, que nada tinha a ver com esses raios trémulos coados pelo bailado das folhas da videira, nesse espaço iluminado entre a terra e o céu ou entre o inferno e aquela, aglomeravam-se os moscardos como abelhas nos favos. Olhando para eles, Gervásio não conseguia perceber o que é que atraía aqueles insectos nojentos àquele espaço de tijolo e reboco esfarelado, podia ser do odor das fêmeas no cio, ou a a sedução dalgum cacho esmagado contra a parede cujos vestígios tivessem maturado num vinho inebriante. De todas as formas, Gervásio enojava-se de os ver ali, tão perto de si e sempre a zumbirem e, quando se sentia com forças, erguia-se do cadeirão sob as vides suspensas, e tremendo com as mãos aferroadas ás bengalas, aproximava-se deles e aniquilava uns quantos à bordoada. Quando retornava ao seu pouso, exangue e cansado, os moscardos voltavam ao seu lugar de eleição, tão numerosos como antes. Num fim de tarde em que se prep…