Por vergonha

A desculpa estava pronta para sair, vestira o seu melhor fato, estava bem calçada, e penteada primorosamente. Enquanto se dirigia para a porta, teve de encostar-se a uma das paredes para deixar passar uma bola fumegante de comida mastigada, e ao fazê-lo acabou por resvalar no piso ensalivado e andar aos trambolhões no meio dos dentes em exercício, escapou a custo de ser triturada pelo marfim, e segurou-se com força à língua enquanto esta subia e descia como o rabo dum cachalote a fustigar as águas. Quando a actividade mastigatória atingiu um momento de pausa, procurou recompor-se, mas verificou que isso seria impossível, porque tinha o vestido todo rasgado e cheio de buracos. E a desculpa, esfarrapada como estava, mudou de ideias e não chegou a sair da boca.

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