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Por ocasião da sua festa de formatura, os primos, que conheciam os seus hobbies e predilecções, ofereceram-lhe em conjunto um puzzle de três mil e quinhentas peças, acondicionado numa caixa elegante em couro. Por preguiça ou por desleixo, descintou a caixa mas nunca montou aquele puzzle, que de uma forma ou de outra o acompanhou ao longo dos anos. Mudou algumas vezes de casa, trabalhou em cidades diferentes e coleccionou uma série de relacionamentos falhados; e num dia de modorra em que acabava de encaixotar os seus pertences para uma nova mudança, reencontrou o puzzle e começou a juntar as peças ali mesmo, no chão do apartamento despojado. Levou algumas horas até encontrar o lugar de cada peça, e quando terminou, e terminou como podia, teve de se render à evidência – faltava uma peça ao puzzle, uma peça minúscula como um trevo recortado. Não conseguiu conter uma gargalhada pelo absurdo da situação, um riso gelado como o som de um látego. Achava inacreditável que se tivesse perdido tão pouca coisa ao longo daqueles anos todos.


2 comentários:

  1. Quanto foi perdido sem que ele percebesse, não?

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  2. Vivemos sob uma erosão constante e implacável, diante da qual é de admirar como ainda conservamos algo da nossa identidade e força. A peça solitária que se perdera parecia um contratempo mesquinho

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