O problema e o problema

Na pequena casa de subúrbio, não havia grandes problemas de ruído ou defeitos de estrutura, o único problema que atormentava os seus moradores, era as formigas. Desde sempre se lembravam de haver infestação de formigas naquela casa, um prato esquecido na pia, a rodela da base do copo em que ele bebera a sua ginja, um migalha de biscoito, e logo se formava espontâneamente um carreirinho de formigas que serpenteava por entre móveis e objectos até ao lugar das delícias. Com o inverno a acentuar os seus rigores, o problema das formigas agudizou-se, mesmo com os dois hiperatentos a qualquer migalha ou vestígio adocicado que pudessem deixar, o menor descuido originava um novo carreiro de formigas. Exasperada, ela propôs que se comprasse um remédio para pulverizar o chão e os orifícios de onde as viam sair, mas ele foi contra, porque achava que não se devia usar agentes químicos, uma vez que deixavam sempre vestígios, que podiam passar para o solo e subsolo sob e em volta da casa. E enunciado o motivo da recusa, vestiu um casaco e saiu de casa em busca duma solução. Voltou horas depois com um papa-formigas preso por uma trela. Soltaram-no dentro de casa e foi um vê-se-te-avias de formigas capturadas e engolidas pela língua comprida do exótico animal. Mas a infestação de formigas era tão persistente e incessante que o animal não conseguia dar aviamento a tanto insecto, e quando se aperceberam disso, já o casal tinha, começando na porta de casa e percorrendo o bairro por entre pracetas e ruelas, um carreirinho sinuoso de papa-formigas.


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