INSTRUÇÕES:

Outros dados, e cartas, no final da página

escheriano

Quem olhasse com atenção aquela garrafa sob a mesa mal iluminada do anexo, muito dificilmente a consideraria desprovida de interesse. Continha um mundo dentro das suas paredes de vidro. Pela diminuta abertura do gargalo, haviam montado peça sobre peça um barco a vapor, com todos os detalhes, e pintada com arte. O madeiramento, as vigias, a roda gigante na popa, e a mesa no convés, exactamente igual àquela em que a garrafa repousava, e onde, sob uma parca luz e com gestos quase imperceptíveis, um velho de barbas brancas compõe dentro duma garrafa de vidro, as peças dum barco a vapor.



- Mãe, eu não gosto de palhaços, tenho medo deles!
- Eu também, filha, eu também! – respondeu a mãe, enquanto o palhaço, armado de um revólver, recolhia as carteiras dos convidados da festa.

Apresentação de livro

A sala, uma livraria de centro comercial, está apinhada. Alguns passantes, curiosos, e oitenta e quatro familiares e amigos do autor – mais o seu Grand Danois. O autor sorri, apesar do calor, aponta o livro no topo da estante, e pronuncia com algum nervosismo.
- Este é o meu novo livro!!
Cava-se um súbito silêncio após as suas palavras. Os curiosos não reagem porque não têm puto de ideia do teor do livro ou da arte contida na escrita, e os apaniguados do autor hesitam se devem aplaudir ou dar hurras. Perante este silêncio, o livro, ofendido, abandona a sala.

Evolução

Homo sapiens


Homo sapiens sapiens


Homo corruptus

desconforto

- Amo-te e tu és a mulher da minha vida - confessou ele, arrebatado.
- Também gosto de ti, mas não posso aceitar isso, as vidas são muito grandes e é muita responsabilidade. Não me voltes a dizer isso, a não ser, que penses morrer em breve.

Desacordo ortográfico

Há regras precisas para nos exprimirmos, e as nossas palavras caminham por cercados com os seus pés lanudos de carneiros, balindo com bê, caminhando com cê, mas as regras confundem os regrantes, e o carneiro veste a pele do lobo e do pastor, e quando sonha alto na noite funda, não arranja sítio para arrumar a cedilha ou a sua sombra, e não sabe se há-de acordar bem humorado, com agá mudo, ou se continue no seu tormento nocturno sob o seu dossel de hífens e tremas.

O Mar da Tranquilidade

O homem era um permanente dínamo de ansiedade e nervos, mal se levantava da cama, e se não via um chinelo a jeito, começava a resmungar: Ainda ontem aqui o deixei, isto é uma coisa impressionante! E toca de coleccionar monólogos enervados. Não consigo obrar, isto é uma coisa impressionante! O leite nunca mais ferve, isto é uma coisa impressionante! Onde é que deixei o relógio, isto é uma coisa impressionante! Lá está a parva do segundo esquerdo a ralhar com os netos, isto é uma coisa impressionante! Já reviraram outra vez o tapete, isto é uma coisa impressionante! Sai á porta e diante dos seus olhos o seu carro está reduzido a um feixe de chapas e peças metálicas, esmagado por um meteoro – Agora como é que eu encontro a fechadura do carro? Isto é uma coisa impressionante!

(Ninguém me acredita, mas eu sei que por trás de todas as aparências, a existência é uma roda gigante, com raios paralelos nos quais tenho de firmar os pés, e esses raios têm nomes, nomes de anos de frequência escolar, de pessoas e mestres, sargentos e chefes, nomes de leis e regras a que tenho de obedecer, de deveres que me são impostos, de sonhos calados e mundos por nascer. Ninguém me leva a sério, mas não me canso de afirmar que não faço outra coisa na vida do que correr dentro dessa roda giratória, como o meu hamster na roda da sua gaiola).

História científica

- Agora é chegada a hora embarcar para o norte de África  – disse o rei D. Sebastião, já vestido com a sua armadura resplandecente.
- ...para combater os infiéis e espalhar a fé de Cristo! – Prosseguiu um fradeco ao seu lado.
- Não! Claro que não! Embarco para estabelecer uma testa-de-ponte sócio-economica, potenciar a recuperação da moeda e influenciar os mercados financeiros em nosso favor!



O camelo do deserto que acelera o passo à vista do oásis, é um desertor.

Vida Sacra I

Primeiro dia no emprego, e recebeu logo uma incumbência da maior importância, fora ele o escolhido para administrar a injecção letal. O condenado esperava-o numa divisão ampla e iluminada, cuja parede livre era preenchida por um vidro que permitia o visionamento da morte por convidados e imprensa. Foi tudo muito sereno e sem dramas, o que não era estranho ao facto da primeira injecção que lhe coube dar, colocar o condenado num estado em que, mesmo que o sentisse, não poderia exteriorizar a sua dor ou medo. Aquele acto não abalou muito o guarda, recebera treino e formação, e tinha nervos de aço.

Naquela noite, enquanto assistia em casa a um filme, tocaram á campainha e foi espreitar. Eram seis agentes da polícia, fardados a rigor e com um ar carrancudo. Mandou-os entrar para a sala e, só então, o mais graduado lhe explicou ao que vinham.

- Hoje mataste um homem que havia morto outros homens. Ele já pagou, é a Lei de Talião, olho por olho, dente por dente, vida por vida. Como mataste um homem, agora é a tua vez de pagares com a própria vida. Trazemos uma ordem para te prender, para seres julgado e morto. Não vão ser necessárias muitas provas...todos viram.

Encolheu os ombros, o que diziam fazia sentido, mas lembrou-se de perguntar.

- E se for preciso que seja um de vocês a matar-me? Qual é o que está mais preparado?

Levantaram-se de imediato seis dedos indicadores apontados, todos elegendo um dos seus colegas.


Por vergonha

A desculpa estava pronta para sair, vestira o seu melhor fato, estava bem calçada, e penteada primorosamente. Enquanto se dirigia para a porta, teve de encostar-se a uma das paredes para deixar passar uma bola fumegante de comida mastigada, e ao fazê-lo acabou por resvalar no piso ensalivado e andar aos trambolhões no meio dos dentes em exercício, escapou a custo de ser triturada pelo marfim, e segurou-se com força à língua enquanto esta subia e descia como o rabo dum cachalote a fustigar as águas. Quando a actividade mastigatória atingiu um momento de pausa, procurou recompor-se, mas verificou que isso seria impossível, porque tinha o vestido todo rasgado e cheio de buracos. E a desculpa, esfarrapada como estava, mudou de ideias e não chegou a sair da boca.

boas notícias

O sofrimento da dona Eulália não podia ser mais terrível, o seu filho, o Humberto, que ainda vivia em casa apesar dos seus trinta anos, andava enrolado com uma mulher muito mais velha do que ele, e que já dobrara a esquina dos cinquenta. Soubera-o pelas amigas, que haviam enegrecido o retrato, a mulher, além de mais velha, exercera já a mais antiga profissão do mundo, e agora especializara-se no ofício de madame, tendo sob a sua tutela três profissionais de origem eslava. O meu Beto, soluçava a mulher pelos cantos, em vez de arranjar uma noiva e criar família, anda metido com uma velha. O marido não se deixou contagiar por esse rosário de lamentos e prantos, era mais prático, e era homem. Pediu ao Humberto para o ajudar a mudar o óleo do carro, e enquanto os dois bebiam uma cerveja na garagem, perguntou-lhe:

- A coisa com a tipa, é sério?

- Não, claro que não, fui até lá para um encontro com uma das meninas e acabei por preferir a mulher feita.

- E na cama, como é que ela é?

- Do melhor, tem a escola toda e gosta do que faz, acho que, por ela, não saía de lá o dia todo.

- Ainda bem, ainda bem…ao contrário do que a tua mãe diz, não acho que tenhas falta de gosto.

E a conversa ficou por ali, os dois voltaram para dentro de casa, lavaram as mãos e Humberto saiu de imediato para reciclar o óleo usado. Mal a porta se fecha, a dona Eulália pergunta de estalo.

- E então? Conversaste com ele?

- Conversei! E acho que não precisas de andar tão preocupada. Afinal, tal como desejavas, o teu filho já arranjou noiva..

O problema e o problema

Na pequena casa de subúrbio, não havia grandes problemas de ruído ou defeitos de estrutura, o único problema que atormentava os seus moradores, era as formigas. Desde sempre se lembravam de haver infestação de formigas naquela casa, um prato esquecido na pia, a rodela da base do copo em que ele bebera a sua ginja, um migalha de biscoito, e logo se formava espontâneamente um carreirinho de formigas que serpenteava por entre móveis e objectos até ao lugar das delícias. Com o inverno a acentuar os seus rigores, o problema das formigas agudizou-se, mesmo com os dois hiperatentos a qualquer migalha ou vestígio adocicado que pudessem deixar, o menor descuido originava um novo carreiro de formigas. Exasperada, ela propôs que se comprasse um remédio para pulverizar o chão e os orifícios de onde as viam sair, mas ele foi contra, porque achava que não se devia usar agentes químicos, uma vez que deixavam sempre vestígios, que podiam passar para o solo e subsolo sob e em volta da casa. E enunciado o motivo da recusa, vestiu um casaco e saiu de casa em busca duma solução. Voltou horas depois com um papa-formigas preso por uma trela. Soltaram-no dentro de casa e foi um vê-se-te-avias de formigas capturadas e engolidas pela língua comprida do exótico animal. Mas a infestação de formigas era tão persistente e incessante que o animal não conseguia dar aviamento a tanto insecto, e quando se aperceberam disso, já o casal tinha, começando na porta de casa e percorrendo o bairro por entre pracetas e ruelas, um carreirinho sinuoso de papa-formigas.


Um conto Sufi

O Velho que Nunca Amou

Contam que o elevado e santo Bajezid Bistami orava diante duma multidão que estava presa das suas palavras e que, no auge deste encantamento, quando seu discurso enlevava a todos, entrou um fumador de ópio, e com a fala algo arrastada disse:

- Mestre, perdi o meu burro. Ajude-me a encontrá-lo.

- Paciência, meu filho, eu vou achá-lo! - disse-lhe Bajezid Bistami, continuando o seu sermão.

Após algum tempo, enquanto ainda discursava, perguntou aos presentes:

- Existe alguém entre nós que nunca amou?

- Eu - disse um velho, levantando-se - eu nunca amei ninguém desde a minha mais remota juventude. Nunca o fogo da paixão consumiu a minha alma. Para que não turvasse a limpidez da minha mente, nunca deixei o amor ocupar o meu coração.

O venerando Bajezid Bistami voltou-se então para o fumador de ópio, que pouco antes o havia interrompido, e disse-lhe:

- Vê, meu filho, acabo de achar o teu burro! Pega-o e leva-o daqui.




Numa cidade qualquer, num dia como qualquer outro em que o sol morre sobre os prédios, uma estação de rádio passa Love Is In the Air, numa programação anestesiante patrocinada por uma marca de bombons de chocolate.
Em três lugares diferentes da cidade, três pessoas distintas são acometidas por imagens induzidas pela música.
A primeira delas, sentada no seu carro enquanto a namorada lhe faz um bico, imagina uma antena de telecomunicações erecta no mais alto e fálico prédio da cidade, da qual se soltam aos quatro ventos sobre as ruas da cidade centenas de preservativos que esvoaçam em volta. Outra, uma mulher abandonada pela vida, imagina pétalas de rosa que caem sobre a cabeça das pessoas e que galvanizam os seus corações como se elas tivessem sido tocadas por línguas de fogo, e ela também participa na fantasia e está nua numa banheira de pedra num terraço de prédio, adulada por um amante imaginário e perfeito que lhe dá à boca bagos de uva enquanto lhe debita versos ao ouvido. Uma terceira pessoa ouve a mesma música enquanto lava o chão duma agência de seguros deserta, e no seu afã permite-se olhar a cidade pela janela, e dá consigo a pensar que a melhor ilustração para a canção seria uma chuva ácida.

À descoberta

Acabara de comprar um telemóvel e começa a explorá-lo. Humm, deixa-me ver os toques - murmura, caminhando pelo passeio. Musicais, Missão Impossível, Tubarão, Top Gun. Não, demasiado conhecidos. Dobra a esquina e experimenta outros, uma cadência crescente de música tecno, o retinir arcaico dos telefones, um sapo a coaxar, um relincho agudo. Desce o passeio e atravessa a rua. Valeu bem o dinheiro, isto tem toques que nunca mais acaba, - o choro dum bebé, o rás-ris dum ris-rás, louça a quebrar, um chamamento de marujo, a buzina dum camião. Caramba, este é potente! - Exclama.
O camião também era.


Diz o roto ao nu:


- Aquela roupa que despiste...pode ficar para mim?

Diz o nu ao roto:


-
Eu avisei-te que era perigoso vir vestido para esta praia!


Por ocasião da sua festa de formatura, os primos, que conheciam os seus hobbies e predilecções, ofereceram-lhe em conjunto um puzzle de três mil e quinhentas peças, acondicionado numa caixa elegante em couro. Por preguiça ou por desleixo, descintou a caixa mas nunca montou aquele puzzle, que de uma forma ou de outra o acompanhou ao longo dos anos. Mudou algumas vezes de casa, trabalhou em cidades diferentes e coleccionou uma série de relacionamentos falhados; e num dia de modorra em que acabava de encaixotar os seus pertences para uma nova mudança, reencontrou o puzzle e começou a juntar as peças ali mesmo, no chão do apartamento despojado. Levou algumas horas até encontrar o lugar de cada peça, e quando terminou, e terminou como podia, teve de se render à evidência – faltava uma peça ao puzzle, uma peça minúscula como um trevo recortado. Não conseguiu conter uma gargalhada pelo absurdo da situação, um riso gelado como o som de um látego. Achava inacreditável que se tivesse perdido tão pouca coisa ao longo daqueles anos todos.



A sua companheira surpreendeu-o no regresso a casa, quando voltavam do cinema, sussurrando-lhe algo ao ouvido. Parar aqui? Perguntou ele, mas o olhar dela era firme. Estacionou sobre o separador da avenida, e tiveram sexo, faminto, ardente, sob o vago receio de que alguém os surpreendesse. Reatou a marcha, e ainda antes de chegarem ao prédio, um novo gesto da mulher, e ele meteu o carro encostado a uns arbustos dum pequeno parque, e repetiram a dose. Entrados no prédio, ela insistiu para que o fizessem no patamar das escadas, era tarde, podia aparecer alguém, mas isso fazia parte do jogo, e da mesma forma ela negou-se a entrar no apartamento e quis um pouco mais do mesmo no chão do corredor. Ele estava incrédulo - Nunca te vi assim tão fogosa! Ela sorriu enquanto tentava dar um novo alento ao seu pénis, e ciciou - Hoje acordei assim. Deve ser do aquecimento global!


Antes de partir para a costa, acomodou na bagageira do carro os seus apetrechos de pesca - a cana semi-profissonal, o estojo com anzóis e bóias, o balde de iscos, e um arpão, um arpão de aço com metro e meio, enrolado em lona. Era um optimista e gostava de estar preparado para todas as eventualidades.


Tristão Alves bateu o recorde europeu dos dez mil metros, mas o seu recorde durou apenas algumas horas porque se descobriu que correra dopado com hormonas. "É uma injustiça atroz" - terá declarado o atleta, off the record.


“Deixem-me explicar o processo. Vocês vão prestar uma prova escrita para nós seleccionarmos quem vai ocupar a vaga aberta no exigente e árduo cargo de tesoureiro da nossa insigne instituição científica. As perguntas são em sistema americano, e foram elaborados por um colégio de especialistas. Os testes não são todos iguais. Há um que possui a particularidade de ter sido revisto pelo Dr. Vaidecunha”.



Um pouco por se sentir tristonha e insegura, um pouco por não trabalhar e não ter em que ocupar o tempo e a pensamento, ela orbitava em volta das suas dúvidas e perguntava-lhe com insistência: “Amas-me?”. Sim, respondia ele, tentando lembrar-se de quantas vezes ela lhe perguntara aquilo naquela semana, “Amo-te até ao fim dos meus dias!”. Era um diálogo construído sobre dois monólogos – amas-me-amas-me, sim-amo-te-sim-amo-te. Com o tempo, ela deixou de perguntar, porque não tinha a quem perguntar. Ele saíra de casa, mas ironicamente, mesmo sem ele ali estar, as suas dúvidas haviam-se convertido em certezas, ele amava-a, até ao fim dos seus dias, mesmo que houvesse alguma distância pelo meio.


eternidade

Passeou os olhos pelo expositor da loja de artigos informáticos, procurava um tinteiro para a sua impressora de combate, encontrou um da marca e um outro, reciclado, para a mesma impressora, mas que custava menos de metade do preço. "Talvez dure..." pensou para consigo e comprou o segundo. Chegado a casa, instalou o tinteiro, e apareceu-lhe um aviso no monitor: "O tinteiro instalado não é da marca original. Deseja mesmo continuar?" Clicou Sim na caixa de verificação, e viu aparecer no monitor uma nova mensagem: "Cometeu um pecado capital. O seu futuro no paraíso dos consumidores acaba de ser posto em risco!".

motards

- Estás com má cara, o que é que se passa?
- Não sei, sinto-me desconfortável, sei lá! Venho de noites mal dormidas, em que levo muito tempo a adormecer, e acordo mal, com a cabeça a doer-me. É um espécie de peso na testa, somado a uma dor terrível no pescoço, e depois ando o dia todo assim, irascível e sem cabeça para nada.
- Eu não tenho nada a ver com isso, mas acho que devias deixar de dormir com o capacete na cabeça...


o mar dá e tira





upside 2 - vida saudável


O ginasta sentia-se descoroçoado, torcera um pulso e via-se na contingência de se privar do seu pequeno passeio diário.


upside


Os novos inquilinos do bairro não eram do género de viver com a cabeça na lua, mas revelavam alguma dificuldade em manter os pés bem assentes no chão.

Rainha

                Subiu lesto os parcos degraus que separavam o átrio do hotel do recinto sobrelevado onde haviam instalado a receção. Ab...