A Telma e a Luísa

Quadro 1 (Jim Nutt)

O cordão policial estava montado no promontório do Sítio da Nazaré, mais de oitenta polícias controlavam uma área considerável, num perímetro que começava na praça defronte do santuário e que se estendia até a meio-caminho entre esta e o farol. Os polícias por ali andavam, sem saberem muito bem a fazer o quê, ou para proteger ou prender quem. Tinham-lhes falado que havia duas criminosas que eram uma ameaça pública e que tinham de ser presas, e eles ali estavam, como disse, e ali continuariam, pelo menos, enquanto não lhes dessem ordens em contrário, mas eles também não tinham a certeza se isso era verídico, ou mais um boato criado pelo gabinete de motivação para os manter alerta e em actividade. Qualquer um dos oitenta agentes tinha um aspecto desleixado - gordos, de uniforme lasso e torto, e botas de atacadores desatados. Alguns, recolhidos por trás dos carros, comiam tremoços e trocavam chalaças. O mais graduado dos polícias, um latagão de nariz adunco e negro, e rosto com bexigas, aproveitava o tempo morto para desabafar com um camarada.

- Isto é uma atrofia geral, as pessoas já não se sabem divertir. Antigamente, era fácil um tipo juntar um grupo de amigos e pintar a manta, mas agora não se pode confiar em ninguém e é tudo uma cambada de somíticos. Olha que eu fui á festa do Santo Antão com a mulher, e comprei lá uns quilos valentes de chouriça e um garrafão de vinho. No regresso a casa, parei num pinhal, juntei lenha e pinhas e acendi uma fogueira e pus as chouriças a assar. Quando se começou a sentir o cheiro, começaram a aparecer pessoas de todos os lados, que faziam de conta que me conheciam, e que comeram as chouriças todas e beberam-me o vinho. Pareciam uns galifões. Esses é que deviam ser presos, não essas tipas que andam por aí…Eu devia, era aproveitar agora e ir comer alguma coisa, que só falar nisto, deu-me uma fome terrível.

Quadro 2 (Fischl)

Telma e Luísa estão sentadas no seu velho Fiat 600, partilhando uma garrafa de uísque gamada na estação de serviço. As duas sabiam bem que aquilo era o fim do caminho. Os polícias tinham fechado os acessos ao promontório, e formavam uma fila de efectivos que ia avançando a passo, reduzindo-lhe o espaço em volta, também se avistava os seus meios aéreos – três polícias armados até aos dentes e que pairavam no ar, suspensos dos seus parapentes. Dum lado, a polícia, e do outro, o abismo, o vazio, e os rochedos no fim do precipício, ameaçadores como dentes afiados.

- Os homens são uns porcos – repetiu a Telma – se os deixássemos, andavam ás cavalitas em cima de nós, e só nos saíam dos ombros para usarem os nossos corpos.

- Sem dúvida que os homens são uns porcos – aquiesce Luísa – e os porcos também são uns porcos, e os cães, desses nem se fala. Nunca viste um cão engatado a uma cadela? O cão sem conseguir tirar o coiso e a cadela ali a sofrer, a coitadita?

- Sim, Luísa, mas agora chegamos ao fim, os homens podem ter-nos cercado, mas não nos capturarão com vida. Entre a crueldade e o abismo, escolho o abismo.

- Eu também, aceleramos o carro e saltamos para o abismo. Se quiserem os nossos corpos, terão de recolher os nossos restos com uma pá.

Quadro 3 (El Greco)

Às últimas palavras de Luísa, seguiu-se um jorro de luz que parece dividir o céu em dois e que se materializa dentro do carro na forma de uma mulher minúscula e brilhante com um véu azul na cabeça. Era a Virgem em pessoa, com as suas sete saias e os ombros curvados com o peso dos ex-votos dos peregrinos. As duas não sabem o que dizer, todo o habitáculo do carro se revestiu de cores vivas e electrizantes, azul-eléctrico, amarelo brilhante, verde-néon, magenta fluorescente.

- Quem és tu? – pergunta Telma.

- Sou a Senhora, mas podem tratar-me por miss. Estou aqui para vos impedir de cometer um erro, porque é um erro atirarem-se daqui no vosso carro!

- É contra o suicídio?

- Não é por isso, só vos digo para deixarem o vosso carro cá em cima. O carro é um amontoado de metais e compostos químicos. Se depois não conseguirem tirar o vosso carro lá de baixo, ele contaminará o mar durante anos sem conta, prejudicando a apanha do marisco e a pesca do robalo. Saltem pelo vosso próprio pé, e terão a gratidão da mãe-natureza.

As duas concordaram mudamente, envergonhadas com a decisão irresponsável a que haviam chegado. A Senhora dissolveu-se então no ar, deixando os estofos do carro tingidos com cores vivas e electrizantes que dariam um trabalhão para serem removidas. Telma e Luísa abandonaram o carro, beberem um último trago de uísque e saltaram para o abismo, mas foram apanhadas a meio da queda pelos polícias de parapente, que desceram com elas até à base do promontório, onde as esperava o mais graduado dos polícias, que assava chouriças na areia da praia.


Mensagens populares deste blogue

A viagem

Abril de 1918 - o caminho para uma Primavera de sangue