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a rainha e o plebeu

No refeitório da escola, a menina-bem aproximou-se do gandulo da turma, fazendo chiar no pavimento húmido os seus ténis All Star.

- Sabes - disse-lhe - sei que gostas muito de Jim Morrison e que conheces de cor muitos textos e poemas dele…

- Sim, é verdade, porque é que perguntas?

- Tinha alguma curiosidade em saber o que é que esse personagem tinha de tão interessante, não que eu simpatize com a figura, que acho até um pouco asqueroso. Perguntava-me e pergunto-te, se me podes arranjar um poema dele para eu traduzir?

- Está bem, tens na net, mas eu imprimo-te um e ofereço-te.

Dito e feito, no dia seguinte ele trouxe-lhe um papel com o poema pedido; que a menina-bem se meteu logo a traduzir, refugiando-se na biblioteca da escola para poder ter à mão os dicionários que precisasse de consultar. O poema era o Lament for my cock. Quando acabou a tradução, ela procurou-o no seu pouso habitual, na sala de jogos à roda da mesa de snooker, e encontrou-o-o no meio da névoa do tabaco, ele muito espantado com a sua aparição, e ela mal contendo um sorrisinho de triunfo.

- Aqui tens o teu poema, vertido para a nobre língua de Camões, é estranho e um pouco repetitivo, mas até gosto dele. Só tenho uma questão – porque é que ele fala tanto no galo? É o poema inteiro a falar no mesmo, galo, galo, galo. Ele gostava de animais, era?

- Acho que gostava, sobretudo de cães, mas não é esse o tema da canção; cock é gíria para pénis, falo.

- Oh! – exclamou ela abrindo a boquinha num perfeito ó, e abandonou de imediato a sala de jogos, abandonando também a sua tradução no verde altar do silêncio. A sua vocação de tradutora morreu naquele instante. Como o galo.


1 comentário:

Rainha

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