a solidão é feita de pequenas coisas

Foi na curva do rio que o rapaz perdeu de vista a família e a carrinha Pickup estacionada na berma da estrada, fazia um calor abrasador, e ondas de vapor exalavam-se do solo como se a terra estivesse a transpirar. Naquela altura do ano, era assim por todo o Midwest, tudo tomava do sol os tons dourados, dos milheirais secos, aos prados e aves. Sabia bem estar ali, próximo ao rio quase seco, na sombra precária dos canaviais. O rapaz abriu o canivete afiado e começou talhar a ponta de um caniço. Pareceu-lhe ouvir a voz da mãe, mas não ligou, tenteando caminho pelo meio das canas, avançando os seus passos por onde outras criaturas, pessoas ou animais, haviam já pisoteado as ervas. A uns passos do leito do regato, avistou a cobra morta, na mesma fracção de segundo em que o cheiro da podridão lhe encheu as narinas. Aproximou-se com precaução. Era uma cobra grande, com quase metro e meio, e tinha a cabeça esmagada. Não sentiu medo nem asco, apenas uma curiosidade emocionada, como um misto de excitação e euforia. A cobra não devia estar morta há muitas horas, mas fedia terrivelmente. Descobriu-lhe um alto a meio do corpo, e com a ponta da navalha fez uma incisão no ventre da cobra, esventrando-a com cuidado. Com o caniço e a ponta da navalha, separou a carne em volta do corte que fizera, revelando o corpo empapado em muco de um rato que a cobra guardava no ventre na altura da morte. O rapaz guinchou de alegria, e com o caniço extraiu o pequeno animal, que colocou na palma da mão para o admirar melhor. Aquele ser diante dos seus olhos, a luz bruxuleante que se coava por entre os caniços e o murmúrio dissipado do riacho, envolveu o rapaz numa violenta comoção, como se tivesse entrado em transe religioso.

- Hannibal!! – a voz da mãe regressara, agora imperativa – Hannibal! Where the hell are you?


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