INSTRUÇÕES:

Outros dados, e cartas, no final da página

Ponto, traço

Na Era da internet e do virtual, teimou e cismou em aprender de cor o código Morse. Para seu infortúnio, porque acaba sempre por se sentir angustiado enquanto viaja de comboio entre a casa e o trabalho.


E-finance, e-learning, e-writing, e-book, e-messenger, e-mail, e-dreams, e-conference, e-workshop.
É-uma-porra-quando-ficamos-sem-net!



É uma parte determinante do método policial, apurar a verdade a partir dos mais diferentes testemunhos. Neste caso em particular, a versão das testemunhas coincidia com o registo das câmaras de vídeo: o Banco fora assaltado por dois criminosos disfarçados de Arlequim e Colombina. Até aí tudo batia certo, mas depois, já não havia câmaras, e enquanto algumas testemunhas afirmavam que os assaltantes carnavalescos haviam fugido na garupa duma mota, alguns insistiam em que eles haviam usado uma gôndola engalanada para o efeito.

Ironia:

Sentir-se afundado em silêncios sob a luz da clarabóia do sótão


a solidão é feita de pequenas coisas

Foi na curva do rio que o rapaz perdeu de vista a família e a carrinha Pickup estacionada na berma da estrada, fazia um calor abrasador, e ondas de vapor exalavam-se do solo como se a terra estivesse a transpirar. Naquela altura do ano, era assim por todo o Midwest, tudo tomava do sol os tons dourados, dos milheirais secos, aos prados e aves. Sabia bem estar ali, próximo ao rio quase seco, na sombra precária dos canaviais. O rapaz abriu o canivete afiado e começou talhar a ponta de um caniço. Pareceu-lhe ouvir a voz da mãe, mas não ligou, tenteando caminho pelo meio das canas, avançando os seus passos por onde outras criaturas, pessoas ou animais, haviam já pisoteado as ervas. A uns passos do leito do regato, avistou a cobra morta, na mesma fracção de segundo em que o cheiro da podridão lhe encheu as narinas. Aproximou-se com precaução. Era uma cobra grande, com quase metro e meio, e tinha a cabeça esmagada. Não sentiu medo nem asco, apenas uma curiosidade emocionada, como um misto de excitação e euforia. A cobra não devia estar morta há muitas horas, mas fedia terrivelmente. Descobriu-lhe um alto a meio do corpo, e com a ponta da navalha fez uma incisão no ventre da cobra, esventrando-a com cuidado. Com o caniço e a ponta da navalha, separou a carne em volta do corte que fizera, revelando o corpo empapado em muco de um rato que a cobra guardava no ventre na altura da morte. O rapaz guinchou de alegria, e com o caniço extraiu o pequeno animal, que colocou na palma da mão para o admirar melhor. Aquele ser diante dos seus olhos, a luz bruxuleante que se coava por entre os caniços e o murmúrio dissipado do riacho, envolveu o rapaz numa violenta comoção, como se tivesse entrado em transe religioso.

- Hannibal!! – a voz da mãe regressara, agora imperativa – Hannibal! Where the hell are you?


uma vaga

A beira da cama da sua amada moribunda, o amante vê aparecer aos pés da cama o anjo da morte, sem asas e com o aspecto dum amanuense aplicado, com uma longa lista de nomes na mão.
- Não a leves a ela, leva-me antes a mim! - rogou-lhe.
- Hum! Fazemos promoções, mas não fazemos trocas.
E levou os dois.

headline

Todos conhecemos a história do João, o rapaz pateta que vivia sempre com a cabeça nas nuvens, e que, num aparente fiasco comercial, obtém uns feijões mágicos que planta nas traseiras da sua casa.

A tradição comum apresenta uma série de peripécias improváveis que sucedem ao aluado João quando este sobe pelo feijoeiro mágico, mas uma versão mais desencantada do conto narra que o pequeno João sobe pelo feijoeiro mágico, mas que não consegue entrar no castelo do gigante onde pensava surripiar umas coisitas para vender no mercado negro, e que se deita a dormir na sua horta, no meio de rábanos e rabanetes. Enquanto dorme, a sua cabeça é decapitada pelo enxada do gigante que recolhe verduras para a sua cozinha. É natural que esta versão do conto não tenha vendido muito nem tenha sido adaptada ao cinema, mas possui, pelo menos, a virtude de nos apresentar um personagem credível, que é coerente até ao fim.


Esboço de artigo

Método Pilatos: conjunto de exercícios físicos e de coordenação de movimentos que visam a tonificação dos músculos, a saúde óssea e o combate ao stress. O método Pilatos tem uma premissa prévia que foi incorporada pelo seu criador: antes de cada um dos exercícios, o praticante deve lavar muito bem as mãos. Tendo sempre uma tigela com água ao pé, a pessoa é desafiada a lavar as mãos em qualquer da posições em que se encontre, deitada no tapete com o rosto para baixo, de pernas para o ar, ou com o corpo assente na região sacro-lombar. Diversos testemunhos comprovam que praticar o Pilatos sem lavar as mãos, não produz nem metade dos benefícios físicos e mentais que esse método pode atrair.


Lidadores

Duas pessoas não têm de ser parecidas para que a sua relação se firme nalgum tipo de afinidade que, aos outros, parecerá imperscrutável; e não podia haver duas pessoas mais diferentes do que Hector e Luísa, ele um dedicado toureiro de profissão, que consagrava os seus dias à nobre arte de lidar os touros na arena, e Luísa, uma doméstica tranquila,que nunca ambicionara mais do que o esmero colocado nas suas lides caseiras. Os dois lidavam muito bem com o que o outro e eles próprios faziam e, sobretudo e sem que os outros pudessem saber, davam-se muito bem na cama.



A casa onde vivia tinha vizinhos peculiares, matemáticos, físicos, filósofos, técnicos estatísticos. Às vezes dava consigo a pensar que a vida o tratara com alguma crueldade, porque entrara já na casa dos quarenta e encontrava-se a viver num bairro problemático.



Os dois queriam muito comemorar em grande as suas bodas de ouro, mas a ganância dos filhos foi mais rápida.


actualização


Ele sentia por ela um intenso amor platónico, que não passava disso. No processo, ela cansou-se disso e mandou-o de volta para a academia.


debalde


Esforçava-se por ler nas entrelinhas, mas acabava sempre por ler branco no branco.


retrospectiva familiar


Uns dígitos numa placa ou a marca da sola duma bota, é o que diferencia o veículo em que ando daquele que usava o meu bisavô.


A Telma e a Luísa

Quadro 1 (Jim Nutt)

O cordão policial estava montado no promontório do Sítio da Nazaré, mais de oitenta polícias controlavam uma área considerável, num perímetro que começava na praça defronte do santuário e que se estendia até a meio-caminho entre esta e o farol. Os polícias por ali andavam, sem saberem muito bem a fazer o quê, ou para proteger ou prender quem. Tinham-lhes falado que havia duas criminosas que eram uma ameaça pública e que tinham de ser presas, e eles ali estavam, como disse, e ali continuariam, pelo menos, enquanto não lhes dessem ordens em contrário, mas eles também não tinham a certeza se isso era verídico, ou mais um boato criado pelo gabinete de motivação para os manter alerta e em actividade. Qualquer um dos oitenta agentes tinha um aspecto desleixado - gordos, de uniforme lasso e torto, e botas de atacadores desatados. Alguns, recolhidos por trás dos carros, comiam tremoços e trocavam chalaças. O mais graduado dos polícias, um latagão de nariz adunco e negro, e rosto com bexigas, aproveitava o tempo morto para desabafar com um camarada.

- Isto é uma atrofia geral, as pessoas já não se sabem divertir. Antigamente, era fácil um tipo juntar um grupo de amigos e pintar a manta, mas agora não se pode confiar em ninguém e é tudo uma cambada de somíticos. Olha que eu fui á festa do Santo Antão com a mulher, e comprei lá uns quilos valentes de chouriça e um garrafão de vinho. No regresso a casa, parei num pinhal, juntei lenha e pinhas e acendi uma fogueira e pus as chouriças a assar. Quando se começou a sentir o cheiro, começaram a aparecer pessoas de todos os lados, que faziam de conta que me conheciam, e que comeram as chouriças todas e beberam-me o vinho. Pareciam uns galifões. Esses é que deviam ser presos, não essas tipas que andam por aí…Eu devia, era aproveitar agora e ir comer alguma coisa, que só falar nisto, deu-me uma fome terrível.

Quadro 2 (Fischl)

Telma e Luísa estão sentadas no seu velho Fiat 600, partilhando uma garrafa de uísque gamada na estação de serviço. As duas sabiam bem que aquilo era o fim do caminho. Os polícias tinham fechado os acessos ao promontório, e formavam uma fila de efectivos que ia avançando a passo, reduzindo-lhe o espaço em volta, também se avistava os seus meios aéreos – três polícias armados até aos dentes e que pairavam no ar, suspensos dos seus parapentes. Dum lado, a polícia, e do outro, o abismo, o vazio, e os rochedos no fim do precipício, ameaçadores como dentes afiados.

- Os homens são uns porcos – repetiu a Telma – se os deixássemos, andavam ás cavalitas em cima de nós, e só nos saíam dos ombros para usarem os nossos corpos.

- Sem dúvida que os homens são uns porcos – aquiesce Luísa – e os porcos também são uns porcos, e os cães, desses nem se fala. Nunca viste um cão engatado a uma cadela? O cão sem conseguir tirar o coiso e a cadela ali a sofrer, a coitadita?

- Sim, Luísa, mas agora chegamos ao fim, os homens podem ter-nos cercado, mas não nos capturarão com vida. Entre a crueldade e o abismo, escolho o abismo.

- Eu também, aceleramos o carro e saltamos para o abismo. Se quiserem os nossos corpos, terão de recolher os nossos restos com uma pá.

Quadro 3 (El Greco)

Às últimas palavras de Luísa, seguiu-se um jorro de luz que parece dividir o céu em dois e que se materializa dentro do carro na forma de uma mulher minúscula e brilhante com um véu azul na cabeça. Era a Virgem em pessoa, com as suas sete saias e os ombros curvados com o peso dos ex-votos dos peregrinos. As duas não sabem o que dizer, todo o habitáculo do carro se revestiu de cores vivas e electrizantes, azul-eléctrico, amarelo brilhante, verde-néon, magenta fluorescente.

- Quem és tu? – pergunta Telma.

- Sou a Senhora, mas podem tratar-me por miss. Estou aqui para vos impedir de cometer um erro, porque é um erro atirarem-se daqui no vosso carro!

- É contra o suicídio?

- Não é por isso, só vos digo para deixarem o vosso carro cá em cima. O carro é um amontoado de metais e compostos químicos. Se depois não conseguirem tirar o vosso carro lá de baixo, ele contaminará o mar durante anos sem conta, prejudicando a apanha do marisco e a pesca do robalo. Saltem pelo vosso próprio pé, e terão a gratidão da mãe-natureza.

As duas concordaram mudamente, envergonhadas com a decisão irresponsável a que haviam chegado. A Senhora dissolveu-se então no ar, deixando os estofos do carro tingidos com cores vivas e electrizantes que dariam um trabalhão para serem removidas. Telma e Luísa abandonaram o carro, beberem um último trago de uísque e saltaram para o abismo, mas foram apanhadas a meio da queda pelos polícias de parapente, que desceram com elas até à base do promontório, onde as esperava o mais graduado dos polícias, que assava chouriças na areia da praia.


noveauté

Quando a manhã amanheceu no bairro (mais ou menos na mesma altura em que se lembrou de aparecer nos bairros e terras em redor) os transeuntes matutinos descobriram algo insólito - a velha palmeira no quintal do senhor Quatorjuille encontrava-se decapitada. A parte superior com o capitel e as folhas tinha desaparecido, e o tronco terminava em bico como uma tosca estaca afiada. As pessoas passavam e interrogavam-se se teria sido efeito da tempestade da véspera, ou se tinha sido o senhor Quatorjuille a cortá-la por algum estranho motivo, aliás, todos os que por ali passavam habitualmente, reparavam no mesmo e comentavam com inquietação, como se lhes tivessem contado da doença dum amigo ou familiar. Neste desfile de opiniões, argumentos e impressões, calhou por fim a vez duma palmeira desfilar pela mesma rua, uma palmeira tão velha como a outra, mas que conservava o seu belo toucado vegetal. Ao contrário das pessoas, esta palmeira não se mostrou impressionado com a visão da árvore decapitada, e não só não emitiu nenhuma opinião ao respeito, como prosseguiu imperturbável o seu caminho enquanto cantava alto A Marselhesa, movida por puro fervor revolucionário.

Não te preocupes, porque vai ser rápido e indolor! Acho eu...


as divisões da casa

- Sabes, lonelygirl, enter

tu és a única pessoa com quem posso falar, enter

tou sozinha nesta batalha – escreveu no teclado, sentada diante do pc, no escritório.

- Tb sinto u mesmo, enter

so tu me compreendes, enter

a minha casa é um inferno, enter

e se eu não tivesse net, dava em doida – respondeu a filha, dedilhando no portátil e enxugando as lágrimas, deitada na sua cama.

objectivo

O seu projecto de vida era viver num condomínio fechado, mas como todo o projecto, também esse tinha falhas – aprendeu que os condomínios fechados não deixam de fora a morte.


História

Depois que a civilização aprendeu a dominar a viagem no tempo, passou a haver mais espaço para todos.

a rainha e o plebeu

No refeitório da escola, a menina-bem aproximou-se do gandulo da turma, fazendo chiar no pavimento húmido os seus ténis All Star.

- Sabes - disse-lhe - sei que gostas muito de Jim Morrison e que conheces de cor muitos textos e poemas dele…

- Sim, é verdade, porque é que perguntas?

- Tinha alguma curiosidade em saber o que é que esse personagem tinha de tão interessante, não que eu simpatize com a figura, que acho até um pouco asqueroso. Perguntava-me e pergunto-te, se me podes arranjar um poema dele para eu traduzir?

- Está bem, tens na net, mas eu imprimo-te um e ofereço-te.

Dito e feito, no dia seguinte ele trouxe-lhe um papel com o poema pedido; que a menina-bem se meteu logo a traduzir, refugiando-se na biblioteca da escola para poder ter à mão os dicionários que precisasse de consultar. O poema era o Lament for my cock. Quando acabou a tradução, ela procurou-o no seu pouso habitual, na sala de jogos à roda da mesa de snooker, e encontrou-o-o no meio da névoa do tabaco, ele muito espantado com a sua aparição, e ela mal contendo um sorrisinho de triunfo.

- Aqui tens o teu poema, vertido para a nobre língua de Camões, é estranho e um pouco repetitivo, mas até gosto dele. Só tenho uma questão – porque é que ele fala tanto no galo? É o poema inteiro a falar no mesmo, galo, galo, galo. Ele gostava de animais, era?

- Acho que gostava, sobretudo de cães, mas não é esse o tema da canção; cock é gíria para pénis, falo.

- Oh! – exclamou ela abrindo a boquinha num perfeito ó, e abandonou de imediato a sala de jogos, abandonando também a sua tradução no verde altar do silêncio. A sua vocação de tradutora morreu naquele instante. Como o galo.


lição de vida

Um homem perde o controle do carro e bate com a quilha do mesmo num candeeiro de rua que cai sobre um quiosque, vitimando dois jornais semanários, quinze revistas de moda e uma revista bimestral dedicada a exaltar a existência zen dos quiosques de cidade. E o mestre disse: se os quiosques levam uma existência zen, o que faz aqui aquele carro? Quiosquinho, o seu filho e discípulo, ouvindo essas palavras, sentiu-se tomado de um amor profundo por aquela máquina, e atingiu a iluminação.


É mais fácil apanhar um mentiroso do que um coxo, sobretudo, se o dito mentiroso estiver amarrado a uma cadeira.

Réveillon

A frigideira já frigia quando a mulher reparou que não tinha mais açúcar para os sonhos, algo que era imperdoável, por se ter esquecido do açúcar e por considerar ser um atributo importante estar sempre a lembrar ao seu homem o quanto era uma pessoa doce. Vou lá acima á minha cunhada pedir algum, disse-lhe, cuidas dos camarões, não é preciso nenhum tutorial, vais mexendo e virando para eles não se pegarem á frigideira e, á medida que for evaporando o molho, vais adicionando azeite, sal e uísque. É melhor provares de vez em quando, para verificares o sabor. Ela saiu porta fora e ele ficou entregue aos camarões, e seguiu á risca as instruções. Mexer, virar, renovar o molho, não gostava de camarões encruados que resistiam ao marfim dos dentes como talo de couve, mexer, virar, renovar o molho, é melhor ir provando, lembrou-se, pegou num pouco de pão e provou, mas não lhe soube bem, é melhor provar directamente, descascou um camarão e comeu-o, estava bom, descascou outro e mais outro, e provou-os também, precisavam de mais uísque e mais picante. O uísque! Era uma pena gastar-se uísque daquela maneira, verteu uma boa porção numa chávena de café e bebeu-a em pequenos goles enquanto mexia e virava os camarões. Camarões com uísque e uísque sem camarões. A mulher demorava. Para se refrescar do calor da chama, abriu e bebeu uma cerveja, e para acalmar o gelo que se insinuara no estômago, bebeu mais umas chávenas de uísque. Os camarões iam saindo, e sendo devorados entre tragos de uísque e cerveja. Por fim, entra a mulher, traz o açúcar, e uma travessa de aletria que a cunhada lhe dera, mais um quilo de coscuvilhices nos bolsos do avental. A sua cozinha convertera-se num cenário de guerra. O molho da frigideira havia secado e o fogão parecia a chaminé duma locomotiva a vapor, e o seu homem está deitado sobre a mesa, a gemer. Ele esbraceja com energia e ela aproxima-se, a medo.

- Tenho camarões a mexerem-se na minha barriga – confidencia – não faças barulho, que os acordas…


- Pai, posso trazer um amigo cá a casa para lhe mostrar os meus dvd's?
- Está bem, mas não quero álcool nem cigarradas cá dentro.
- De acordo, pai, podes ficar descansado.
- E também não quero que fiquem à conversa até muito tarde, porque sabes que eu tenho muita dificuldade em adormecer e o mínimo ruído representa uma catástrofe para mim.
- Quanto a isso também podes ficar descansado, pai, nós os dois temos de apresentar um trabalho de grupo ás sete, na universidade sénior.



- Eu acho que ele é invejoso, e orgulhoso.
- Eu também, se ele era subalterno e subordinado, porque é que quis tomar o lugar do outro?
- Sim, por aí vê-se logo, podia ficar quietinho no seu canto sem fazer ondas, e escusava de começar uma guerra. Também temos de dar-lhe algum desconto porque a história é sempre escrita pelos vencedores e esses anjinhos sonsos acentuaram-lhe muito os defeitos.
- Vale! Mas é melhor ficarmos por aqui, porque acho que é ele que vai a passar.
- É o que eu digo! Fala-se no diabo e ele aparece!

magonia

Diante de múltiplas câmaras de filmar, que abririam passagem para a casa de largos milhares de espectadores, o célebre mago televisivo iniciou a sua actuação, ajudado por duas beldades louras vestidas de odaliscas. Foi levantado uma lona gigantesca entre dois postes, diante dum Citroen 2 cavalos, ele formula umas palavras mágicas num dialecto estranho enquanto os tambores rufam, e puxa a corda que segura a lona, esta cai, e todos os olhos e tele-olhos descobrem com espanto que a viatura se esfumara nos ares. Ainda não haviam recuperado da surpresa e já um jipe militar reboca para o palco um helicóptero, e o mago repete a proeza, para êxtase da multidão. Depois dalguns compromissos publicitários que rentabilizam as audiências conquistadas, o mago faz desaparecer em sequência, uma avioneta civil e um avião de combate. Quando pretende dar por terminado o seu show, uma das suas assistentes passa-lhe um walkie-talkie. Do outro lado do aparelho, uma tensa voz anasalada identifica-se como sendo o responsável pelo acondicionamento das aeronaves daquele porta-aviões e pergunta-lhe, com um tom irritado, se ele iria precisar por muito mais tempo do elevador do convés.

Começou o novo ano com o pé direito (é útil e oportuno lembrar que esse é o único pé que tem), embora tivesse considerado o propósito de iniciar uma nova tradição e começar o ano com a mão direita enquanto fazia o pino (é oportuno lembrar também, que tal era fisicamente impossível porque não conserva qualquer uma das mãos). Não nos devemos admirar porque é que ele assumia propósitos tão irrealistas, como se não fizesse uso da cabeça(talvez seja oportuno, mais uma vez, referir que ele usa o boné assente no ombro direito).

2010 - Uma Odisséia no Espaço II

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Rainha

                Subiu lesto os parcos degraus que separavam o átrio do hotel do recinto sobrelevado onde haviam instalado a receção. Ab...