INSTRUÇÕES:

Outros dados, e cartas, no final da página


Gostava de vos dizer uma coisa para terminar.

Às vezes tenho medo, muito medo.
Às vezes sofro.
Às vezes, penso nas pessoas que amo e penso na possibilidade de as perder.
Às vezes vejo alguém doente e fico incomodado.
Pode não ser um amigo ou um familiar.
Posso estar a vê-lo pela primeira vez.
Mas fico incomodado.
Aquela doença pertence-me.

Todas as doenças pertencem a toda a gente.
Todos os sofrimentos pertencem a toda a gente.
Todas as mortes pertencem um pouco a toda a gente.
Às vezes sinto isso muito,
outras vezes sinto menos.
Quando sinto menos posso preocupar-me com o mundo, brincar com a poesia, com a filosofia e com as palavras.
Mas quando sinto, deixo de conseguir pensar.
Quando sofro ou sinto o que alguém sofre, deixo mesmo de querer ser inteligente.
Deixo de querer parecer inteligente.
Se estivermos cheios a sentir, não temos espaço para pensar.
Não fazem sentido as lógicas, as filosofias, as discussões.
Todo o nosso corpo sente.
E o que resta? Nada.
Só existe aquela morte, aquela doença, aquela velhice.
Só aquele pai que amo e está a envelhecer. Só aquela mãe que amo e está a envelhecer.
Só aquele amigo que morreu num estúpido acidente.
Só aquele amigo que se tornou amargo porque a mulher o deixou.
Só o amor e a falta de amor.
As mulheres que nos enganam e as mulheres que são enganadas, as mulheres e os homens que enganam.
Os amigos que deixam de o ser, alguns inimigos que morrem, e temos pena.
Que importa o resto?
Onde está o livro importante?
O filme que resolve?
Podemos chorar à frente de um quadro, mas não resolve nada.
Podemos pintar um quadro, escrever um poema, mostrar às mulheres bonitas como somos bonitos, exibir o nosso corpo, mas que adianta?
Estamos sozinhos.
Se não estamos, vamos estar.
Os amigos vão-nos deixando, vão-nos deixar.
Vão morrer ou nós vamos morrer.
Ou então deixam de nos telefonar, ou então deixamos de lhes querer telefonar.
Estamos sozinhos. As pessoas que amo vão morrer.
Os livros não resolvem nada. A poesia é bonita e por vezes descansa, acalma, mas não resolve nada, não resolve nada.
Somos artistas ou não somos, e qualquer coisa que seja não adianta nada e nada impede.
Escrevemos poemas, mas não ajudam ninguém.
Escrevemos peças de teatro, sorrimos, tentamos pensar, tentamos ter ideias, tentamos distrair as pessoas, tentamos fazer pensar as pessoas, tentamos fazer chorar as pessoas, e isso é bom, e até pode ser bonito, mas não adianta nada, não resolve nada,
não adianta nada.



Gonçalo M. Tavares, "O Homem ou é Tonto ou é Mulher", Campo das Letras, Porto, 2002 

O paradoxo de Dorian Gray

Quando o jovem morreu, a família construiu-lhe um jazigo imponente encimado por um arcanjo de mármore branco, de majestosas asas abertas. O arcanjo fora esculpido em mármore, ainda que não o parecesse porque a estátua foi-se deteriorando como se de uma pessoa morta se tratasse. Caíram-lhe as penas das asas como folhas, o corpo atrofiou-se e emagreceu, e tornou-se tão delgado que se jurava distinguir-se o relevo das suas costelas. Em pouco tempo, pedaços de mármore, grossos como punhos cerrados, foram-se soltando da escultura, como se ela estivesse, de facto, a apodrecer. Ainda que ninguém o declarasse abertamente, todos acreditavam que, dentro do jazigo, no seu fato de chumbo, o jovem permanecia imputrefacto e belo, como os cadáveres santos que as pessoas de outros tempos veneravam.


Ainda o sonho

- Estou a sonhar contigo? - perguntou ela à aparição ensolarada que emergira no seu sonho como um deus que emergisse das águas nalguma ilha grega.
- Não! - respondeu a aparição - estás a viver comigo. Sonhas comigo quando te acontece estares acordada!

Prospectiva 1

Num Natal dum futuro (pouco) distante, o Pai Natal será representado por um emissário do Banco, trajado condignamente (porque isso é essencial), que trará a nossa casa as prendas e as mercearias que costumamos adquirir na quadra, em troca da assinatura duns papéis em que nos declaramos endividados e insolventes para com o Banco, legitimando a penhora dos nossos bens e a apropriação de todas as nossas reservas em acções e papel-moeda.

Prospectiva 2

No Natal dum futuro distante, o Pai Natal será um andróide de barbas cor-de-chumbo, que descerá por um elevador estreito como o primeiro descia pela chaminé, e no pequeno contentor pressurizado com o feitio dum saco de tecido, trará belos presentes para os andróides mais novos: cabeças humanas mirradas, globos de vidro com dedos e órgãos humanos preservados em formol, pequenas e melodiosas harpas construídas a partir de costelas humanas.

Conto escrito a 2 mãos

Ela não sabia quando acontecia a passagem do milénio: 1999 ou 2000? Da primeira vez foi dançar com o companheiro. Da segunda vez ficou em casa sozinha. Olhou para a sala obscurecida e resolveu enche-la de velas. Quando as zero horas aconteciam o companheiro invadiu o espaço e numa fúria de vento apagou todas as velas. Que podiam provocar um incêndio, disse .  E foi-se embora novamente.
Lentamente aconchegada pelos cobertores da cama grande e fria adormeceu. Adormeceu e sonhou. Sonhou com uma coisa estranha que, para ela, era apenas uma noção académica, sonhou com a Samsara, com o ciclo incessante de morte e renascimento, e viu almas como folhas de árvores a dançar e a espiralar sobre a roda cósmica, e quando o seu sonho sossegou, como se as almas estivessem a pousar no solo como folhas caídas das árvores, reviu o seu companheiro no outro lado do mundo, era ele, apesar da pele tisnada pelo Sol e o turbante enrolado na cabeça, e gritava em desespero numa varanda dum palacete junto ao Ganges. Podia sentir o seu desespero, como podia sentir a sua própria dor, porque se havia imolado pelo fogo no pátio defronte do palácio. Foi então que acordou, na cama grande. O seu companheiro estava sentado na beira da cama, e refrescava-lhe as linhas do rosto com um polegar embebido em água perfumada, como se lhe pedisse desculpas. Mas ela agora sabia a razão do seu gesto, e compreendia. A água consagrava as memórias que o fogo não conseguira destruir.

(José e Maria)

Silent Night

Na noite profunda da cidade, as luzes mantinham-se despertas, havia as decorações natalícias floridas e luminosas das ruas, as decorações natalícias coloridas e sugestivas das montras com as luzinhas faiscantes em cadências programadas, o brilho trémulo e natalício do olhar dalguns transeuntes em marcha.

Dentro da noite profunda da cidade, um homem solitário cruzava esse esplendor de luz, e dentro dele, havia uma sombra por cada luz ou enfeite natalício em seu redor.


Discurso afirmativo

SIM! 
    Eu vivo neste país onde a prosperidade é uma orgia dionisíaca reservada a uma minoria, para a qual a lei e as justiça reservam langorosas carícias e beijos; e todas as (involuntárias) infracções por eles cometidas, são minimizadas pela retórica e inércia de quem tem e não tem poder para mudar as coisas.


SIM!
    É este país que conheço, onde os cabecilhas e a clientela política e partidária parece um corropio de chulos e madamas, e todos eles mamam nos generosos mamilos da nação.


SIM!
    É neste meu país, que os humildes de posses e de bens arcam com a crise, enquanto os Golias os fodem como e sempre que podem.


SIM!
    Eu vivo neste país, e este meu país chama-se PORNtugal


(caricatura, de Rafael Bordalo Pinheiro, in "A Paródia", ano de 1900)

No corredor do Metropolitano, reencontrei um velho conhecido, Gallaad, o puro Gallaad, de semblante muito triste, acocorado por detrás duma pequena mesa de pés articulados, como um vendedor ambulante. Perguntei-lhe o que se passava, se precisava de ajuda para alguma coisa.
- Não, meu amigo - respondeu-me - o que se passa, é que sou um desastrado. Vê-me isto - instou - tenho estes três copos virados para baixo e esta bola vermelhinha. Em muitas feiras, vi pessoas a atrair clientes e curiosos com este jogo, mas eu não sou capaz, perco sempre. Experimenta tu!
Colocou a bola sob um dos copos, e rodou-os sobre o tampo da mesa com energia e destreza.
- Tenta adivinhar onde está a bola!
- Neste! - respondi, apontando o copo do meio.
- Certo, mas tenta outra vez - pediu, baralhando de novo os copos.
- Neste - respondi sem hesitar, quando os copos deixaram de dançar.
- Vês, eu sou mesmo um desastrado, e nem queria enriquecer com isto, apenas brincar um pouco com as pessoas, e arrancar-lhes algumas risadas ou exclamações de espanto. Agora riem-se de mim, e depenam-me como a um frango.
- Gallaad, devias experimentar outra vez... num outro dia...um dia em que tragas copos que não sejam de vidro transparente.
- Não sei...Achas mesmo que vale a pena?

cuidados

A mulher, deitada sobre a colcha, não conseguia pegar no sono, escutava com uma ponta de ansiedade porque não conseguia ouvir a respiração do filho no quarto ao lado. Consultou mudamente o marido que ressonava ao seu lado, enfiou-se dentro do robe e foi espreitar. O filho dormia realmente, podia ouvir o sibilar discreto da sua respiração na escuridão do quarto. Aproximou-se da sua beira com pés de algodão, e acocorou-se ao seu lado. O seu filho parecia um anjinho, tão sossegado que estava na paz dos seus sonhos luminosos. Ajeitou-lhe o edredão à curva do queixo, prendeu-o melhor sob o colchão e levantou-se por fim, mais satisfeita consigo mesma. Aproveitou estar ali, no quarto, e foi esvaziar ao balde de papéis da casa-de-banho, o cinzeiro cheio de beatas e cinza que o filho tinha sobre a mesa-de-cabeceira.

mono-Logos

«Possuo uma pequena cicatriz junto à curva da sobrancelha direita, não é muito nítida, parece uma sombra quando tenho a luz pela frente, mas demarca-se como um traço escadeado, quando a luz incide lateralmente sobre o meu rosto, no contraste claro-escuro das sombras. É engraçado que não tenho memória nenhuma de como ela foi feita, nem os meus familiares guardam disso qualquer lembrança, ou mesmo os meus amigos de infância e juventude, os que conservei e os que perdi. Talvez tenha acontecido num dia em que eu tenha faltado à chamada, e não estivesse em mim. Ou, mais provavelmente, aconteceu há muito mais tempo do que a minha infância, numa outra vida».

Shorcut

     Athanor e Hermenegildo, primos em segundo grau, ficaram à conversa no balcão da Associação do bairro, enquanto decorria o baile de Sábado à noite. Falaram de empregos, da carestia, do preço da cerveja e dos camarões, do dinheiro que (não) se consegue pôr de parte. Numa coisa, os dois primos estavam de acordo, ser pobre já chateava, andar na labuta todos os dias da semana e não ver retribuição justa, nem a felicidade que se extrai das pequenas alegrias que o dinheiro nos pode proporcionar. Ali mesmo, enquanto desfaziam a dedo no tampo do balcão os círculos húmidos do fundo dos copos de cerveja, ambos tomaram uma decisão: tinham de pôr cobro à coisa, dar à volta por cima, espremer o caracol. E como é que haviam de fazê-lo? Athanor lembrou-se de repente, num flash dourado: tinham de procurar o senhor Lucro Fácil, Athanor sabia onde ele morava, podiam tocar-lhe à campainha e pedir-lhe conselho sobre como remar contra a crise. Hermenegildo concordou, e os dois abandonaram a Associação e puseram-se a caminho, a pé, que nenhum dos dois tinha carro e davam graças por isso, porque assim não se precisavam preocupar com o aumento dos combustíveis.
     Seis horas e vinte e três minutos depois, os dois primos chegaram ao portão da vivenda do senhor Lucro Fácil, e que vivenda!! Alcandorada no alto duma colina relvada como um castelo de sonho, era linda de morrer, com uma bigue piscina e diversos carros topo-de-gama estacionados por tudo quanto era sítio. Um aparato de raios laser riscava o céu sobre a vivenda, como se a vivenda fosse alguma discoteca. Tocaram à campainha, e só após muita insistência, é que alguém lhes respondeu pelo intercomunicador. O senhor Lucro Fácil não estava, aliás, nenhum dos funcionários da casa sabia dele, há várias horas que andava tudo em alvoroço devido ao seu desaparecimento. Os dois sentiram-se desanimados, mas decidiram voltar à cidade, e ir procurá-lo nos clubes onde aflui o pessoal da nota. Voltaram então, sempre a pé, mas agora levaram menos tempo porque as bolhas dos pés já haviam arrebentado e conseguiam caminhar com mais desenvoltura. Na cidade, passaram os ditos clubes em revista, de uma forma indirecta, diga-se, um pequeno suborno (que o dinheiro não abundava) aos engravatados arrumadores de carros, e ficavam logo a saber que o senhor Lucro Fácil não andava por ali. Num dos últimos clubes da lista que haviam elaborado, a coisa não foi tão fácil, os empregados acharam pouco o dinheiro que eles ofereciam e recusaram-se a dar qualquer informação. Athanor e Hermenegildo adoptaram então uma reacção extrema e suicida e tentaram forçar a entrada no clube, o que foi um acto verdadeiramente tresloucado, porque lhe apareceu pela frente um regimento de seguranças, que os brindou com uma sova meticulosa, antes de os enfiarem num carro da polícia, que os levou para a esquadra.
     Quando aí chegaram, os dois maltratados primos tiveram uma surpresa colosssal - o senhor Lucro Fácil, também lá estava, preso numa cela. E o pior, é que estava de muito mau humor, e pouco receptivo a dar conselhos sobre finanças ou métodos de enriquecimento.

Primeira conversa-de-encher-chouriços


- Bom dia, vizinha, viu as notícias?
- Vi, sim, que desgraças! Enchentes, aluimentos, tufões, terramotos. Vivemos num cantinho de céu, é o que eu lhe digo. Temos sido poupados a tudo isso, e tudo nos passa ao longe, para nós vermos na televisão, sentadas nos nossos sofázinhos.
- Também concordo consigo, vivemos mesmo num cantinho do céu, e só podemos dar graças por isso.




Segunda conversa-de-encher-chouriços

- Olá vizinha, está mais resignada hoje?
- Olhe, vou ficando, tenho a eternidade para me habituar. Quem iria imaginar que no cantinho do céu que tínhamos lá em baixo também aconteciam desgraças. Uma pessoa fia-se, e depois, pumba!
- Pois é, vizinha, só é pena que neste cantinho de céu, não haja uma reles televisão para vermos as desgraças nas notícias.



Aquele homem que ali vêem, de fato azul muito justo e capa vermelha, não é um homem qualquer, é o Super-Homem. Todos o conhecem. Vive no mesmo prédio que o Batman e o Lanterna Verde, e é adepto do Rochinha Futebol Clube, uma agremiação modesta do bairro suburbano em que reside. Todos os dias da semana, o nosso valente Super-Homem levanta-se às cinco da matina para enfrentar três horas e meia de transportes públicos que o conduzirão à cozinha do restaurante Ribamar, onde trabalha como ajudante de cozinheiro. O Super-Homem é uma pessoa satisfeita consigo mesmo e com a vida que leva, não obstante o salário ridículo que aufere, o aumento dos impostos, e a dor ciática que sempre o atormenta nestes meses rigorosos de Inverno. O Super-Homem não é casado, mas vive um namoro prolongado de casas separadas com Luísa Lanuda, uma jovem aspirante a jornalista, que vai vendendo jornais no seu quiosque para aprender alguma coisa do ramo. Poderíamos censurar ao Super-Homem a sua aparente felicidade e bonomia, mas não o faríamos se nos dissessem (porque são poucos os que o sabem), que o Super-Homem possui uma identidade secreta, a de Clark Kent, um jovem herói cheio de super-poderes que se diverte a valer, a voar pelos ares e a salvar as pessoas dos perigos que as ameaçam. Todos os que conhecem o medíocre e pacato Super-Homem, com o seu fato cheio de vincos e a capa rasgada, estão longe de imaginar que ele é o secreto autor dos feitos que fazem as manchetes dos jornais que a Luísa Lanuda vende no seu quiosque. E o mundo também fica mais sossegado, por acreditar que os super-heróis que cruzam o mundo, não são homens vulgares que picam o cartão e descascam batatas em cozinhas enevoadas de vapor.

1 - A negociação

- Cinco anos! Cinco anos foi quanto a tua mãe demorou desde a última vez que fez peru para a noite de Natal. E agora, a dois dias da malfadada noite, é que lhe deu vontade outra vez.
A filha estava sentada ao seu lado no assento do Volvo creme, a brincar com uma madeixa de cabelos caída sobre a testa.
- ...e já não há perus em lado algum - concluiu - tirando o carro da estrada de alcatrão e enfiando-o por um picadeiro cheio de buracos no meio do mato.
A filha esticou o pescoço para observar melhor algumas crianças que haviam escalado o tronco dum imbondeiro, e que agitavam os braços, sentados num ramo a mais de cinco metros de altura. Tentou acenar-lhes, mas deixou de os ver com a nuvem de pó levantada pelas rodas do carro. Alguns minutos volvidos de corrida e solavancos pela estrada, e o pai deteve o carro junto ao muro duma propriedade. O pai saiu e olhou em volta, enquanto fazia rodar o tronco sobre a cintura. Era uma propriedade grande, que havia sido construída por uma família indiana, que depois se havia mudado para Quelimane, vendendo-a ao seu actual proprietário, um mulato de nome Fonseca, que mantinha uma venda nas traseiras da casa e criava perus e galinhas. Viam-se os galinheiros no pátio fronteiro da casa, e também havia algumas aves à solta em redor da propriedade. O Fonseca veio ao seu encontro, e apertou-lhe as mãos, mas não com muita força, deixando espaço para uma respeitosa deferência.
- Gosto muito de o ver, patrão - disse-lhe, adoptando tacticamente o linguajar do preto, intrigado que estava por o ver ali - o que o traz aqui, patrão?
- Fonseca, preciso que me vendas um peru. A minha mulher quer cozinhar um para a noite de Natal, e já fui a todo o lado e ninguém tem nenhum para vender. Fazes-me esse favor?
- Não posso, patrão, todos os perus que aqui vê já foram contados e vendidos, estou só à espera que os venham carregar.
- Não me podes fazer uma coisa dessas, Fonseca. Vende-me a porcaria dum peru, e eu garanto-te que não te arrependes.
- Desculpe, patrão, mas não pode ser. Como lhe disse, eu vendi-os; já não são meus.
- Vá lá, Fonseca, pago-te o dobro do preço por um, e ainda te dou um saguate para ires beber umas laurentinas fresquinhas ao acampamento.
- Não posso, patrão, mil desculpas, mas não posso!
- Seja, Fonseca, tu é que sabes...Vamos, Rosa! - chamou a filha, que observava uma lagartixa luzidia que corria na base do muro.
Os dois regressaram ao carro. Quando a Rosa voltou a enrolar nos dedos uma madeixa do cabelo, ouviu o pai perguntar-lhe.
- Achas que aquele peru está gordo?
Ela olhou e viu um peru empoeirado a debicar nas ervas, uns poucos metros mais à frente, mas não percebeu a razão da pergunta. O pai pôs o carro a trabalhar, e acelerou pelo caminho por onde haviam chegado, mas ao passar perto do peru, bastou-lhe dar uma guinada ao volante, e a criatura foi apanhada pelas rodas do carro. O volvo travou e o o pai dela saiu serenamente, puxando do maço de tabaco que guardava no bolsinho da balalaica. O Fonseca corria na direcção deles com as mãos na cabeça.
- Acho que fiz negócio - murmurou o pai, enquanto acendia o cigarro.

Prémio Dardos

O João Ventura, atribuiu-me o Prémio Dardos (Obrigado, João!), que, para quem seja novato nestas coisas, comporta a seguinte legenda:


"O Prémio Dardos é o reconhecimento dos ideais que cada blogueiro emprega ao transmitir valores culturais, éticos, literários, pessoais, etc.... que, em suma, demonstrem a sua criatividade através do pensamento vivo que está e permanece intacto entre as suas letras e as suas palavras. Estes selos foram criados com a intenção de promover a confraternização entre blogueiros, uma forma de demonstrar o carinho e reconhecimento por um trabalho que agregue valor à Web."


Este Prémio deve ser passado como um testemunho a dez outros blogues da escolha do visado (para quem apetecer), escolhas que nomeio de seguida:


Dias Felizes


All...for you


Cartas de Coimbra


Dias Desiguais


A Tradução da Memória


Na Ilha de Bruma


Acordar um Dia


Papel de Fantasia


Malefícios da Felicidade


Novo Mundo

parábola

     Alguns homens estão abrigados da chuva numa paragem de autocarros.
     - Vocês não sabem o que eu tenho passado de dificuldades - diz um - desde que perdi o meu braço, é só entraves e obstáculos.
     - Pior do que tu estou eu - afirmou o seu vizinho de abrigo - perdi de vista os meus dois braços, e não há próteses que aligeirem a minha perda.
     - E eu? - rezingou outro - sem dois braços e uma perna. Acham vocês que eu tenho uma vida fácil?
     - Esqueces-te de mim? - interveio o quarto homem - sem braços e sem pernas a conduzir a cadeira de rodas motorizada com uma manete segura pelos dentes. Desde que os meus membros se viram livres de mim, que sou uma reflexo lunar daquilo que antes fui.
     E quedaram-se todos num silêncio sofrido, cheios de pena de si mesmos e segregando um surdo desprezo pelos outros; silêncio, só interrompido pela voz de uma perna que subia sozinha o passeio junto à paragem.
     - Estava a ouvir a vossa conversa - disse a perna - e de bom grado me juntaria ao vosso coro trágico, mas não há maneira de eu conseguir compreender o vosso problema.

O sonho de António M.

António M. teve um sonho bizarro - sonhou que enquanto caminhava pela estrada caiu num buraco sem fundo, sem fundo porque, no sonho, esse buraco parecia mesmo não ter fundo, nem sequer paredes, era apenas uma espécie de túnel nas trevas em que ele mergulhava de cabeça. No sonho, para manter o domínio de si e evitar o pânico, começou a bater os braços acima da sua cabeça como se nadasse numa lagoa de águas lodosas. Por fim, ao fim do que lhe pareceu demorar horas ou dias, o túnel acabou e António M. viu-se à beira do dito buraco na praia rochosa duma ilha dos mares austrais (soube de imediato que estava nos mares austrais porque avistou a uns poucos metros de si um canguru com uma tarja com a palavra Welcome). Ainda mal se recompusera da experiência, a esfregar os braços cansados de tanto nadar, e voltou a cair no mesmíssimo buraco, empreendendo o percurso inverso a agitar os braços acima da sua cabeça. Desta vez, a viagem foi mais curta porque António M. acordou, não na estrada onde iniciara a odisseia, mas na sua própria cama no centro da sua própria casa.
António M. sentou-se na cama e ponderou um pouco. Estava na sua cama num país chamado Portugal, situado este país nos fundilhos ou no cu da Europa (o termo a usar era arbitrário), não muito diferente do buraco sem fundo do seu sonho. Atendendo a esta analogia, António M. vestiu-se e saiu para o trabalho, a dar braçadas como se nadasse numa lagoa de águas lodosas.

Podemos acomodar-nos ás coisas e situações, ou podemos sentir cansaço, e rebelarmo-nos de alguma forma, por mais passiva que seja. O pior sucede quando nos cansamos do nosso cansaço, porque aí não temos como sair porque estando encerrados no cansaço, trancamos por fora todas as portas que existiam.



Era um poliglota e começou muito cedo, aos quinze anos já dominava fluentemente sete línguas diferentes, e vinte anos depois, esse número decuplicara. O que nunca se alterara, fora a sua incapacidade para se comunicar com as outras pessoas.


Nó aberto

Dezoito horas e quarenta e cinco de um dia comum da semana. A Rosa foi a primeira a chegar a casa, saía do trabalho mais cedo do que o marido, vantagem de trabalhar por turnos numa fábrica de confecções. Enquanto o marido não chegara, tivera tempo de beber uma cerveja com duas colegas numa marisqueira ali perto, e dar um pulo ao ginásio para queimar as calorias adquiridas, e voltar a casa, de banho tomado e corpo cansado de bom cansaço. Por essa hora chegou o marido, de mãos nos bolsos e trombas amarradas ao semblante. O que é que se passa? Perguntou-lhe. Algum problema? Ele não lhe deu resposta. Sentou-se nos degraus das traseira, ao relento, o olhar fundo nos olhos cavados. Coçava aflitivamente o joelho, tique que lhe era característico quando algo de muito grave o preocupava. Ela tentou mais uma vez. Precisas dalguma coisa? Precisava de me matar! Sibilou por fim. Ela encolheu os ombros e desapareceu no ventre da casa. Ele perscrutava a noite profunda. Tinha medo, tremia de medo e de frio. E sabia que eles viriam e que não deveriam tardar. Levantou-se, colado à ombreira da porta de casa para descobrir sinais da mulher, e ouviu muito ao longe o som ténue da televisão, humedecido pelo eco de soluços ou choro. Sentiu-se ainda mais prostrado. Voltou ao exterior. Fechou a porta à chave e atirou-a para longe. E sentou-se de novo nos degraus, à espera. A tremer de medo e de frio.


tempo de desespera

     Tirou um dia de folga no trabalho para comparecer a uma consulta que havia marcado com dois anos de antecedência. A consulta era só da parte da tarde, mas tirou o dia inteiro porque lhe parecia que tanto tempo de espera exigia de si uma preparação mais cuidada. Assim sendo, naquele dia acordou de madrugada, porque a consulta era à tarde e estivera muito tempo à espera e tinha de se preparar. Mas faltavam muitas horas, e só precisava de meia-hora para vencer a pé a distância que o separava do Centro Médico onde tinha de se apresentar. Andou pela casa, folheou umas revistas, entreviu alguns programas de televisão, e parecia-lhe que ainda era de madrugada, e a consulta era só à tarde e estivera muito tempo à espera e não tinha que se preparar. Por fim, cansada, sentou-se na mesa da cozinha a amassar areia de ampulheta na água duma clepsidra, a fazer tempo.

Precognição

     Numa esquina da cidade, deteve os seus passos diante da montra duma livraria que exibia obras de rostos descorados pela luz do Sol. Uma delas sobressaía entre todas pelo magnetismo do seu título: "Este é o teu Destino!". Entrou na livraria em resposta. O livro era caro, e não conseguia folheá-lo porque estava fechada em cruz com uma cinta lacrada sobre a capa. Também não havia indicação do nome do autor ou do teor da obra, e o título, em letras prateadas sobre fundo negro, estava arrumado a um canto da capa para poder ser lido facilmente. Desprezou as suas contenções despesistas e comprou-o num impulso iluminado. Mal saiu para a rua com o seu livro do destino, desfez o lacre da cinta com as chaves do carro e abriu-o com ansiedade. Não havia nada para ler, o livro só tinha páginas em branco.
     «É verdade! Nós é que escrevemos o nosso próprio destino» - ocorreu-lhe, num floreado filosófico, mas o que lhe saiu da garganta foi um pouco diferente:
     - Cabrões!

Constatação



Há quem use lentes de contacto azuis, para afirmar que viu Agra.









(foto de Carlos Marques da Silva)

Um cliente difícil

Júlio perdeu um pé aos trinta e dois anos. Um princípio de gangrena no meio do mato, e os médicos amputaram-no. Estranhamente, mesmo sem ter o pé, continuou a senti-lo. Era frequente mudar de posição na cama durante a noite, porque lhe parecia que o peso desse pé sobre o outro o magoava, e não poucas vezes sentia comichão no lugar onde deveria estar o calcanhar e fazia descer as unhas das mãos para se coçar deliciadamente. Os médicos diziam-lhe que isso era psicológico, e Júlio concordava, mas isso não o tornava mais tolerante ou menos exigente, quando era chegado o momento, na sapataria, de experimentar um novo par de sapatos.


Muitas vezes, a sinopse editorial dum novo livro é como uma biópsia literária que retira deste a melhor análise possível, para nos facilitar a entrada num corpo de textos enfermos e a apodrecer.

Arte rodoviária

     Sentado no banco da camioneta da linha vinte e três, o aspirante a romancista inspirado alinhavava nas teclas do laptop o seu novo e ambicioso enredo onde a morte tinha um papel preponderante. Para não se repetir procurava mentalmente metáforas para a morte programada dalguns personagens, um seria ceifado pela morte, outro desencarnado como se lhe tirassem a alma com um saca-rolhas, outro colhido mas não ceifado, outro seria levado pelo vento como uma pétala de flor…
     Algures, a meio da sua criatividade fecunda, a camioneta da linha vinte e três saiu estrada fora, e explodiu quarenta metros mais abaixo. E todos os ocupantes morreram. Sem metáforas.


O cidadão comum e o tirano, divergem por uma ligeira heterofonia:
O primeiro preza e defende a liberdade de expressão; o segundo, ama e pratica a liberdade de supressão.

Da negação do vazio absoluto:

A vida de cada pessoa está cheia de ausências.
«Viver é outra coisa, eu sei. Falamos sozinhos; cruzam-se, as pessoas, na rua, como se estivessem sós, não se conhecem, não procuram conhecer-se; uns escrevem, outros revoltam-se de outra maneira contra o abismo que separa um corpo de outro corpo; vivemos, em público, uma terrível vida privada. Repara nos velhos: olham para o lado enquanto falam; sozinhos; os companheiros de seu diálogo só morreram para os outros; mas também nós, os outros, temos a nosso lado, à mesa, na cama connosco, o silêncio, e memórias».
«(…) O amor foi uma sílaba imensa quando, sobre as dunas estendidos, nos libertamos do rio caudaloso das palavras que entre nós corria».

Casimiro de Brito, “Contos da Morte Eufórica”, Publicações Dom Quixote, Lisboa, 1984


A (má) gestão da crise

Paráfrase de Kennedy:

Não perguntem como é que o país se pode endividar por vocês, mas perguntem antes, como é que vocês se podem endividar pelo vosso país.

             Estava só e sossegado no seu cantinho fresco, quando sentiu um alto suspeito no corpo, talvez maligno.
     «O que é isto? - perguntou-se - é um caroço, TENHO UM CAROÇO!, sinto-o sobre a pele. Ainda há minutos estava tão sossegado e fiado no meu futuro, e agora descubro este caroço!! Quanto tempo me restará de vida? Um mês? Um ano?».
     Ali ficou, torturando-se com estes pensamentos como um condenado a caminho do cadafalso. Eis então que surge por baixo uma vaca, pesada e lenta, guiando-se pela sombra convidativa do pessegueiro, mas que erguendo o focinho feio, o viu, suspenso duma ramada a um metro do solo e, sem demonstrar empatia pelas suas inquietações oncológicas, abriu a bocarra grande cheia de saliva e engoliu-o.

"Espaço, a última fronteira..."

A grande questão da minha vida, não é a de qual o livro que eu gostaria de levar para uma ilha deserta, mas de qual a ilha deserta que eu gostaria de trazer para a minha vida.
«Odeio ventríloquos, odeio bonecos de ventríloquos e todos aqueles que operam a ventriloquia - políticos, eleitores, padres acabados de sair do seminário, populares reféns do senso-comum. Ao contrário de muitas crianças, eu nunca senti medo de palhaços, mascarados, gente pintada, mas os ventríloquos é uma outra história. O ventríloquo projecta a sua voz para um boneco, mas a voz que nos parece vir do boneco não lhe pertence, nem ao ventríloquo que o anima, é algo de diferente, metamorfoseado. A voz do boneco tem uma natureza e uma existência própria e pode conter outras vozes, de outros mundos e dimensões, vozes de gente que já morreu ou ainda sonha existir, vozes malditas há muito condenadas a um silêncio prudente,e que assim aproveitam a oportunidade para se evadirem da sua caixa de Pandora. Quando na catequese, me tentaram explicar o artifício mito-teológico do inferno, só o consegui assimilar imaginando Satanás, em pessoa, a manuasear um boneco caricatural de ventríloquo, emprestando-lhe a sua voz, e falando ele mesmo com a voz do boneco».


(Justino Miranda, "Transgressões Pessoais", capítulo 14, 3, Editora Ataraxia, Coimbra, 1974)
     Thomas More, político e humanista, tomou sobre si o encargo de ensinar um corvo a falar e a recitar as Sagradas Escrituras, usando para isso de estímulos perversos como a privação de comida e o uso de anilhas farpadas nas patas da ave. Quando, finalmente, o corvo lhe conseguiu escapar, só reteve dessa aprendizagem, a obsessão de repetir com uma voz torturada: "Never More, Never More, Never More!".
Foi uma noite terrível, o Vento derrubou contentores, espalhou lixo, partiu coisas. Quando chegou de madrugada a casa, ainda bêbado e enraivecido, a mulher achou justo que ele carregasse esse apelido.

Imodéstia

Os dois fantasmas estão sentados num madeiro apodrecido da praia, abismados com a calmaria que tinham diante dos olhos. Parecia um lago.
- O tsunami foi terrível – conta um – e só um tsunami podia matar-me. Os meus perderam-me, a minha família, os amigos, os meus companheiros maçons, os eleitores que me respeitavam, os leitores, críticos e historiadores que me admiravam e vão perpetuar o meu nome nos anais da literatura, a carpir a minha morte precoce aos oitenta e sete anos de idade.
- Foi terrível, na verdade – concordou o outro – eu na vida só tinha um cão, e não sei o que lhe sucedeu, mas quer tenha perecido ou não com o tsunami, estou certo de que anda à minha procura por uma praia como esta!
O outro ficou calado um momento, a olhar a água da maré que a areia da praia absorvia.
- Invejo-o! – disse por fim, baixinho, como se não fosse ele a falar.

O Golpe do Século

     Marco e Eugénio eram irmãos, e quase tão irmão como eles, era o seu primo, Margunto, que fora criado com eles, e se lhes assemelhava como um dedo mais da mesma mão. Nenhum deles gostava de trabalhar, e andavam de Sol a Sol a procurar formas e esquemas para não fazer puto dum corno – pequenas vigarices, que passavam por uma ou outra carteira surripiada aos incautos, caixas de correio forçadas na ansiosa esperança de encontrarem envelopes com dinheiro dentro,destruição e descaroçamento de parquímetros. Um deles, talvez Marco ou talvez Margunto – ambos se gabariam do mesmo – teve a ideia inspirada de darem um golpe a sério, daqueles que enchem os bolsos e trazem o repouso merecido durante largas semanas ou dias. Para isso, tinham de escolher alvos potenciais, uma casa que aparentasse conter bens de valor, e que não parecesse muito difícil de ser assaltada. Mas como fazer isso? Eugénio propôs – e aqui não houve dúvidas sobre a autoria da ideia, porque ele não permitiu outras versões piratas – que trabalhassem uns tempos para uma daquelas empresas que faziam manutenção de jardins. Era o emprego ideal para ver as casas mais de perto, escolher uma e estudar os seus pontos fracos. E assim fizeram, empregaram-se os três na mesma firma de jardinagem, e dedicaram as semanas seguintes a cortar relva e esgrimir os corta-sebes electrónicos – trabalhos que os levaram à beira da mais completa exaustão física - enquanto faziam o levantamento das vivendas mais prometedoras.
     Pouco mais de um mês depois disso (com o primeiro salário a pesar no bolso), e com os três sentados na bancada do Estádio Alvalade XXI, em tempo de intervalo do jogo, compararam as notas. O alvo foi escolhido nesse mesmo momento, opinando sobre ele enquanto comiam bifanas. Havia uma vivenda de dois pisos na periferia da cidade que era tentadoramente fácil. Era isolada, os donos nunca estavam durante o dia, não havia crianças por perto, nem vizinhos á porta ou parentes a cirandar por ali. Á Quinta-Feira, todas as Quintas-Feiras, vinha uma senhora limpar a casa e passar a roupa a ferro e, com um inestimável sentido de rotina, deixava a porta das traseiras aberta para trás enquanto limpava o primeiro andar – piso onde se deviam situar os quartos - e ia e vinha por ela para pôr os cobertores a assoalhar no estendal do jardim. Se eles conseguissem trancá-la à chave numa das divisões do primeiro andar, tinham a casa à disposição para tirarem de lá o que quisessem.
     Na semana que se seguiu a esse convénio, não foram trabalhar, concentrados como estavam em preparar o golpe (só com muito descanso é que a cabeça das pessoas trabalha como deve ser). Naquela Quinta-Feira, posicionaram-se junto à casa, à espreita, ocultando os corpos magros por detrás dos troncos dum eucaliptal que se estendia do outro lado da rua. Dali, observaram os donos da casa a saírem em carros separados e, perto das dez da manhã, chegar a empregada da limpeza num xaveco de três rodas, com o tubo de escape aos soluços. Esperaram, tensos. Ouviram-na entrar em casa e começar a abrir os estores das janelas do rés-do-chão. Enquanto corriam os estores da sala, os três entraram no jardim, pulando o portão pequeno dos fundos do jardim, e cinco minutos depois estavam agachados por detrás do oleado que cobria as cadeiras e espreguiçadeiras da piscina. Ali, ficavam a um passo da porta das traseiras e no ângulo em que estavam, junto à esquina do edifício, era pouco provável que ela os visse de qualquer uma das janelas do primeiro piso.
     Eugénio, que era o mais novo dos três, mas também o mais temerário, descalçou os sapatos e declarou.
     - Eu encarrego-me da mulher. Depois dela estar arrumada, cada um carrega com o que encontrar de mais valioso, e pomo-nos para fora daqui. Não podemos demorar mais de dez minutos, porque não sei se ela tem telemóvel, e também não lhe vou perguntar.
     Os outros concordaram em silêncio, tirando dos bolsos alguns sacos de supermercado dobrados que traziam. Veio a senhora pela primeira vez ao jardim, trazendo de braçado um edredão e duas almofadas desenfronhadas, e Eugénio assentou as palmas das mãos no chão com o corpo arqueado como um atleta na linha de partida, e quando a sua vítima voltou a subir as escadas, Eugénio seguiu-a a uma prudente distância, subindo os degraus da escada para o piso de cima. Reencontrou-a dentro dum quarto grande, ela viu-o e soltou um grito agudo, mas o lesto Eugénio fechou a porta do quarto. Que não tinha chave. Sentiu um suor gelado, agarrado à maçaneta da porta enquanto do outro lado a mulher aos gritos tentava abri-la para fora. Felizmente, os dois Mares tinham-no seguido.
     - Empurrem-me esse móvel para aqui, rápido! – ordenou, aflito para conseguir manter a porta fechada.
     Pelos dois, empurraram um pequeno móvel de gavetas de encontro à porta, mas como a mulher continuasse às ombradas à porta, encostaram a este uma pesada arca de mogno, e em cima desta, sentaram-se os três, para recobrar o fôlego.
     - Quando eu contar até dez – ciciou Eugénio, ofegante - vamos à procura da truta, da fruta, do dinheiro, digo. Um, dois, três, quatro…
     O cinco, já foi contado com eles a vasculhar as gavetas das divisões do primeiro andar, e o dez já os apanhou a descer as escadas para saquear o piso inferior.
     Não encontraram numerário, notas, pilim, mas iam apanhando o que podiam. Botões de punho, esferográficas, uma estatueta de latão da Vitória de Samotrácia, uns chinelos de quarto com o feitio de coelhos, dois vasos com gerânios, saboneteiras, cinzeiros de estanho, um quadro quadrado com uma truta em louça em alto-relevo. Reuniram o espólio em poucos minutos, e convergiram para a porta das traseiras.        
     Já no jardim, Margunto fê-los deter-se. Pareceu, pareceu-lhe, que levavam poucas coisas e de pouco valor, e assim não podia ser. Confiou os seus sacos aos primos e regressou ao interior da casa em busca dum último tesouro, de algo singularmente precioso que justificasse aquelas semanas de preparativos mentais, e trabalho árduo e mal pago. Após um périplo rápido por todas as divisões, encontrou finalmente o que procurava e meteu-o debaixo do braço.
     Os primos esperavam-no, impacientes, e correram juntos para o portão dos fundos do jardim, enquanto o  ar acima deles era sacudido pelos gritos que a empregada da limpeza soltava à janela.
     - O que é que foste buscar? O que é que trazes aí?
     - Os devedês com os filmes do Jean-Claude Van Damme – gabou-se – acho que devem estar aqui os mais importantes.



(uma homenagem aos Bons Malandros)

- Tenho uma vida invejável, um trabalho que me compraz e completa, uma mulher e filhos adoráveis, amigos leais e atentos, e bens e riquezas que chegam e sobejam. E isto apenas para apontar o que é mais óbvio, e a verdade é esta - eu estou condenado a ser feliz.
- E não podes fazer nada para o evitar? O teu advogado já meteu recurso?
- Estou a tentar reagir este estado de coisas e já instruí o meu advogado para avançar com um pedido de recurso, mas sabes que estas coisas levam o seu tempo. Mas isso tem o seu lado positivo, é que enquanto espero e desespero, consigo sentir-me um pouco menos feliz.

Oceano: Desconheces, Prometeu, que as palavras são remédio para um espírito enfermo?


Prometeu: Se é que existe palavra que, a tempo, alivie o coração, e que não oprima pela força a alma transbordante.


(Ésquilo, "Prometeu Agrilhoado", 1, tradução de Fernando Melro, Editorial Inquérito Lda., Lisboa, s/d)
- E agora?
- Pressione bem o polegar no lugar do contrato destinado à assinatura...E agora nesta cópia...E nesta ainda!
- Já está, e agora?
- Temos de aguardar, porque o sangue leva algum tempo a secar...

O perfeccionista

"Vinho maduro de sabor frutado, deve-se beber sempre à temperatura ambiente de 18 graus centígrados". 
Leu duas vezes o rótulo nas costas da garrafa de vinho, esfregando-o com a mão enluvada. Chegou-se à entrada do iglu, e não conseguiu conter uma lágrima enquanto admirava a planície gelada do Ártico que tinha diante de si.

tempos mudados

     João Armando Tibório, sempre foi uma criatura obcecada pelo detalhe e pelo rigor, que abominava imprecisões, alusões vagas, e vagos equívocos. Por isso, quando se apaixonou na flor da sua juventude por uma médica estagiária em serviço na sua aldeia natal, gravou meticulosamente o registo dessa paixão com um canivete na casca lisa duma árvore do adro da igreja: João Armando Tibório (depois, a silhueta dum coração, e o nome, também completo, da eleita) – Francisca Maria Etelvina da Conceição. Assim mesmo, com todas as letras, espaços e maiúsculas. 
     O tempo passou, e o nome permaneceu gravado e o tamanho dos caracteres aumentou, inclusive, com o crescimento da árvore. João Armando Tibório, partiu da sua aldeia pouco tempo depois, em busca duma vida melhor, e andou por seca e Meca até regressar à sua aldeia natal, uns vinte anos depois, com uma nova incumbência e uma nova missão. 
     Na própria semana do seu regresso, a árvore do testemunho amoroso foi deitada abaixo, e cortada em grossos toros para serem arrumados no depósito de lenha da residência paroquial.


desabafo

    «A minha vida está cheio de caminhos apenas iniciados, lances de escada vencidos até meio, travessias e viagens com uma volta no meio onde desisti, e muitas mais coisas similares, alegóricas, ou não, relações que ficaram no preâmbulo duma vida em comum, a mulher e filhos deixados para trás, negócios e projectos desfeitos à saída do estaleiro. Toda a minha vida foi isto, apenas começar e desistir em seguida. Isto é a única coisa que eu estou a levar a sério, com seriedade mesmo, do princípio ao fim, de fio a pavio...»
    Interrompeu-se para retomar o fôlego, mas o seu interlocutor, um enfermeiro da ala de doentes terminais, continuava a acenar distraidamente com a cabeça.

Contos tradicionais - 1

     Pascia o austero bode no monte, muito senhor do seu focinho e da sua barbicha de patriarca, quando avistou, a espreitar por detrás dos degraus dum cruzeiro, a mais bela cabra que alguma vez pusera a vista em cima, jovem e lanuda, de pêlo brilhante, segurando na boca um raminho de papoilas e asfódelos.
     - Bela cabra! - baliu o bode, metendo conversa - és bela como o Sol, és, aliás, tão bela, que é como se fosses dona do Sol. Porque não deixas estes ermos onde os lobos e os caçadores rondam, e me acompanhas até onde está o rebanho do meu senhor. Farei de ti minha esposa, e defender-te-ei com a força dos meus chifres.
     - Assim farei, meu senhor, mas só se não olhares para mim enquanto caminhamos.
     E a cabra acompanhou o bode até ao planalto onde estava o resto do rebanho, mas sempre a caminhar pelo meio das ervas altas, ou resguardando o seu corpo por detrás das rochas e arbustos.
     - É tímida - pensou o bode em balês - mas o tempo e o instinto farão o resto.
     Ainda assim, o cerdoso bode estranhava, a cabra andava sempre escondida, furtiva, como se os evitasse a todos, ou guardasse algum segredo pavoroso.
     - Está muito calor - baliu-lhe o bode - porque não vais até ao arroio para te refrescares.
     A cabrita baliu afirmativamente, em resposta, e dirigiu-se ao arroio cujas águas deslizavam no outro lado do monte. O astuto bode correu por um atalho e chegou lá primeiro que ela, e ocultou-se por detrás dumas urzes a espreitar. Viu, finalmente, a cabra aproximar-se, e sair do meio das ervas. E foi aí que o terrível segredo se desvelou, a cabra era disforme, porque em vez de belos cascos arredondados, possuía na extremidade das pernas, uns apêndices grosseiros, compridos e achatados. 
     A bela cabra tinha pés de dama.

«Que sonhará o indecifrável futuro?
(...)
«Sonhará mundos tão intensos, que a voz de uma das suas aves poderia matar-te».

(Jorge Luís Borges, Alguém Sonhará, in "Os Conjurados", Difel - Difusão Editorial Lda., Lisboa, 1985)

Rumos Circulares

Homero nunca existiu, o cego Homero, o rapsodo Homero que vagueava pela Grécia apoiado no seu bastão, a cantar as guerras dos Aqueus e os ardis de Ulisses. Homero foi inventado, sonhado por uma plêiade de outros poetas, que o conceberam cego, opaco, como uma gema negra que aborvesse e guardasse a luz que brilha sobre as ilhas e os mares do mundo antigo.


Mas o cego Homero, o imaginário cego Homero, também sonhava, com Ulisses e os Aqueus, e com outro criador, cego como ele, que passeava nas praias da Ática a ouvir os delírios salinos do Egeu, apoiado no ombro de Maria Kodama enquanto acolhia a luz do coração de Homero.



estória borrascosa

Um sonho bom é algo que não conseguimos represar em nós, e que temos necessidade de partilhar, como o amor ou o espirro. Afrânio Melegundes tivera um sonho desses, no qual estava a caminhar na clareira dum bosque e se ria como um perdido, como o mais feliz ou o mais tolo dos homens. Afrânio vestiu-se num ápice, e saiu para a rua à procura de amigos a quem pudesse relatar o sonho em todos os seus mínimos detalhes; e deambulou pela cidade à procura deles, entrou nos cafés, na repartição de Finanças e na igreja, foi até à estação de comboios e ao mercado da fruta; e quando já lhe começavam a doer os pés de tanto caminhar, é que se lembrou: "Ah, pois, eu não tenho amigos!".

- Então Nunes, como vai o senhor? - Pergunta o condutor da camioneta ao passageiro que acabara de entrar.
- Olhe, estou com'ó tempo, borrascoso.
O Nunes caminha por entre os bancos, e a mesma pergunta é feita por outros dois amigos que o saúdam, e repete o mesmo com ar desalentado: "estou com'ó tempo...".
Descobre, finalmente, um assento vago ao lado duma peixeira com lenço na cabeça e saia de sete folhos. Quando se instala, a peixeira vira-se para o lado da janela, e encolhe-se, algo receosa.
Não fosse o Nunes começar a trovejar.

A vida saudável nos prédios de apartamentos

Naquele prédio gigantesco, o poço do elevador que se abria do terraço à cave era rodeado pelas escadas intermináveis, que evoluíam em volutas em torno do poço do elevador, como a serpente de Hermes em volta do bordão. Subir e descer pelo elevador, evitava um cansaço extremo e um ritmo cardíaco acelerado e, de certa forma, pode-se dizer que auxiliava a saúde dos que o utilizavam. Dum modo paralelo, subir e descer as escadas, ainda que provocasse o que o elevador evitava, eram óptimos para fazer exercício e tonificar os músculos e a irrigação sanguínea do cérebro. Duas opções saudáveis dignas do caduceu de Hermes.
Ou podia-se optar por uma terceira opção, já que voar nos é interdito por natureza - quem preferisse atirar-se do alto do terraço ou dum dos seus andares mais elevados, decerto que tomava uma decisão exterior à saúde, mas pelo menos era contemplado com o atributo precioso de não ter de se preocupar mais com escolhas e decisões (ocupação que, como é sabido, pode causar algum desgaste e ansiedade, e diminuir a esperança de vida duma pessoa).

variações

Conduzia o mesmo carro de sempre por uma estrada por onde nunca tinha passado. A seguir a uma curva apertada, distinguiu na berma da estrada um terreno em desnível balizado por uma charca de águas lodosas e espessos canaviais. Um letreiro junto ao alcatrão, anunciava:
          ACEITO PEDRA E ENTULHO
Mais à frente, e entre dois lugarejos próximos, uma tabuleta semelhante estava cravada junto a um terreno plano que confinava com a estrada:
          ACEITA-SE TERRA
A seguir ao segundo lugarejo, quando o mato e os pomares haviam substituído as linhas direitas do casario, e diante duma casa em ruínas, precariamente remendada com placas de zinco e retalhos de madeira prensada, uma terceira placa pedia em letras trémulas e inseguras:
          ACEITAÇE PÁTRIA



A hora dos livros 1

Lançamento, no Rio de Janeiro, a 17 deste mês, de O Olho da Fechadura de Angela Schnoor, pela Editora Multifoco.


Daqui envio um abraço transatlântico à Angela, com votos de muitos sucessos para o lançamento e para a obra.


a hora dos livros 2


On demand:


- Vocês escondem-se e eu vou contar até dez, e depois vou à vossa procura!
O irmão mais novo, que era mais inclinado para as Humanidades, advertiu:
- Está bem, mas quando chegar a minha vez, hei-de soletrar até ao jota.


Um poeta é sempre um poeta, sejam quais forem as suas obras - um verso, um ensaio, um filho, um barco de papel dobrado com dedos de sonhar.


(degustando a prosa de Carlos de Oliveira)

sem cartesianismos

O filósofo Descartes era um homem probo e frugal, que desprezava lautos banquetes e apreciava dormir bem e durante muitas horas, da mesma forma que era capaz de estar uma noite inteira a debater ideias com outros filósofos e amigos. Durante essas longas conversas, era comum ficarem admirados com sua habilidade argumentativa e, não raro, dirigiam-lhe brindes, ou então, incitavam-no a fazê-lo como preito às matemáticas ou à luz da razão. Descartes, que trocara o vinho por sumos de frutos pisados (para não perder a clareza das suas deduções), erguia o seu copo e, com um ar grave, repetia para si mesmo: “Cogito, e ergo o sumo!”.


Plain Story

   Após uma manhã de ressaca dolorosa, o rotundo Nero Lobo saiu finalmente à rua, com uns óculos escuros para disfarçar as olheiras fundas. No quiosque dos jornais, Albano, o seu leal amigo, foi o primeiro a avisá-lo:
   - Andaram por aí a perguntar por si, quatro homens baixos de gabardina e chapéu de palhinha. Tinham um ar ameaçador e exibiam todos uma pinta colorida na testa como as mulheres indianas.
   Nero Lobo agradeceu e passou em revista, mentalmente, o que poderiam querer dele, enquanto, em paralelo, folheava uma revista de motos. Podiam estar a mando dalgum ex-cliente insatisfeito, ou duma vítima de devassa do seu ofício de detective privado, ou podiam simplesmente ser lacaios de Ribeiro Gordão, a quem pedira uns trocados para jogar no casino da Póvoa (empréstimo que uma amnésia reincidente o impedira de pagar). Fosse como fosse, a cabeça doía-lhe e custava-lhe discorrer sobre assuntos tão complexos em fase de ressaca. Precisava de circular, sacudir as banhas, caminhar um pouco. 
   Deambulou até aos jardins do centro da avenida, onde encontrou alguns conhecidos, com os quais jogou duas partidas de xadrez, uma competição de cálculo logarítmico, e solucionou problemas de Sudoku de elevada dificuldade. E como o apetite para exercícios mentais se mantivesse, foi até ao Sublime, um bar nocturno de Strip onde as artistas, por aquelas horas da manhã, compareciam ao serviço para preparar as roupas que iriam despir à noite e lavar e desinfectar os varões onde costumavam esfregar as suas partes pudendas. Absorvido por aquele exercício Zen de contemplação, foi chamado à realidade por um paquete disfarçado de canguru (ou o inverso, que a luz do estabelecimento era fraca e os óculos escuros também não ajudavam), que lhe trouxe um bilhete rasurado pelo Silvino das apostas, que lhe davam conta de que os quatro homens de gabardina haviam voltado ao quiosque do Albano para saber do seu paradeiro, e que o tinham torturado ao obrigá-lo a ler duma ponta à outra todos os artigos e legendas de fotos duma revista cor-de-rosa. "Albano está bem", respondia o bilhete à sua questão óbvia, "apenas ganhou um espirro alérgico à conta disso, o que não aconteceria se ele estivesse aqui a olhar para aquela gata ruiva no varão". Nero Lobo disse "Basta!" em voz alta, imobilizando as artistas de strip, que pensavam que ele queria brincar às estátuas. "Basta", repetiu, mas em voz baixa, falando para o zip do seu casaco de fato-de-treino - ninguém brinca com os meus amigos!". 
   Voltou à rua e à luz do meio-dia, decidido a procurar e a caçar os seus perseguidores. E ainda nem tivera tempo para dar três passos quando deu de caras com Ribeiro Gordão, que o olhava com desconfiança do alto da sua figura magra e esguia.
   - Queres o teu dinheiro de volta, Gordão? Podias pedir-me em vez de mandares atrás de mim os quatro cavaleiros do Apocalipse. 
   - Não sei do que estás a falar, a menos que te refiras ao romance mais medíocre que alguma vez li.
   - Falo dos quatro homens que puseste no meu encalço...
   - Não fui eu, e não quero o teu dinheiro, pelo menos, não antes de preencher e entregar a minha declaração de IRS.
   - Então, porque estás aqui?
   - Procurava-te e a todos os que me devem dinheiro, para pedir para não mo pagarem já, porque quero primeiro livrar-me dos que andam a investigar as minhas contas, e também porque ando à procura de gémeas univitelinas com as quais possa iniciar um estudo sobre as mutações genéticas das glândulas mamárias.
   - Seja - contemporizou Nero, intrigado ainda pelo mistério dos quatro homens de gabardina.
   Quatro homens, raciocinou, invocando todo o seu génio de investigador, quatro homens, quarteto, quarteto de cordas, quarteto de Liverpool. Devem estar nalguma loja de música, no palco duma sala de espectáculos, ou nas casas-de-banho do Salão Magno de Ópera. Seguindo a sua intuição, começou a vistoriar todos os lugares de que se lembrava relacionados com a arte da música, começando pela casa da dona Eufémia, sua antiga explicadora, com a qual se iniciara sexualmente (experiência que o levou a cantar no banho durante quinze dias). Na terceira paragem, o Lar de Idosos para fabricantes de realejos, encontrou finalmente os quatro homens misteriosos, que esfregavam dentaduras postiças enquanto assobiavam em coro o Amazing Grace.
   Nero Lobo olhou-os com gravidade, enquanto, por uma questão de segurança, tacteava a fisga que trazia sempre no bolso do fato-de-treino.
   - Chamo-me Nero Lobo - declarou - ouvi dizer que andam à minha procura. O que me querem?
   - Encontrá-lo - responderam em uníssono - fomos criados pelo gerador aleatório de personagens, e disseram-nos que só você nos poderia indicar o que iríamos fazer em seguida.
   Os dedos de Nero aliviaram a pressão sobre o cabo da fisga, e o seu pensamento divagou. Sobre o Amazing Grace que acabara de ouvir, as madressilvas no colo da sua esposa na noite de núpcias, a porca da sua tia a parir no celeiro, o croupier cantante do casino da Póvoa...
   - Vocês têm talento para a música - lembrou - e eu sempre quis trocar a minha profissão de detective pela de cantor. Se vocês quiserem colaborar, podemos formar um grupo, e estava a pensar num nome que poderíamos usar - o que é que vocês acham de Banda Gástrica?

A sombra dos dias

               Um galão direto e uma torrada com pouca manteiga  - pediu a empregada no balcão à colega. Podia até ter pedido antes,...