simetria

Os sacerdotes tremeram de pavor à aproximação do cometa. O mundo ia acabar, afiançavam, o cometa aparecia na altura exacta de atar os anos, e isso era um presságio funesto. Mas talvez fosse possível que eles poupassem o universo, e para isso, pediram voluntários para serem sacrificados na pirâmide sagrada ao deus do sol, patrono das luminárias do céu. Coatlatl, mulher nobre da linhagem real de Texcoco, foi uma das que se ofereceram, acometida dum fervor místico. Foi a primeira a subir as escadarias, deitou-se na pedra vermelha e deixou que lhe arrancassem o coração do peito. Quando o seu corpo tépido rolou pelas escadarias, outros voluntários se seguiram até se consumar a hecatombe. Sobre ela, o cometa brilhou intensamente com a cauda a rodar enquanto se afastava da terra e deixava de constituir uma ameaça. Enquanto todos gritavam de alegria com os olhos fixos no céu, Centlotzin, filho da piedosa Coatlatl, resgatou o seu corpo do monte de cadáveres aos pés da pirâmide e levou-a dali. Em casa, encheu o buraco aberto no seu peito com papa de milho, mandou abrir em solo sagrado uma depressão no solo com a forma duma pirâmide invertida e enterrou-a ali. Ele sabia que também era preciso alimentar e contentar o sol nocturno, o patrono das potências do mundo inferior cujos olhos brilhavam como estrelas.

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