Os órgãos internos daquela empresa, colaboravam num pacto silencioso de conhecimento e cumplicidade. O Menezes e o Faria dos pagamentos desviavam substanciais somas de dinheiro, e o administrador sabia, a Dona Glória dos Recursos Humanos fazia pequenas falcatruas, e o administrador sabia, o dr. Pacheco, o economista, cobrava indevidamente despesas de deslocação e almoço, e o administrador sabia, o assessor do administrador, o Morais, transferira dinheiro dos fundos de representação da empresa para uma conta pessoal, e o administrador sabia. De tudo isso e muito mais, sabia e consentia o administrador. Alheio a todas estas dóceis concordâncias, trabalhava o Rafael do Arquivo, um empregado dedicado que não se importava de trabalhar para além do seu horário de trabalho mesmo sem ser remunerado, e o administrador sabia disso. Um certo dia o Rafael, na hora de regressar a casa, lembrou-se de que ia precisar de agrafar uns panfletos que havia escrito, e que já não tinha agrafos em casa; e meteu ao bolso uma caixa encetada de agrafos, acto infame que foi presenciado pela Dona Glória. No dia seguinte, esperava-o uma carta de despedimento por justa causa - acto enérgico que o administrador esperava que servisse de aviso a todos os prevaricadores.

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