INSTRUÇÕES:

Outros dados, e cartas, no final da página

Não é preciso viajar muito para sairmos de onde estamos, nem mesmo sair de casa; e não falo nas experiências de passagem, evasão, que muitos encontram num ecrã de televisão ou monitor, ou no consolo duma garrafeira preenchida ou um punhado de droga que compraram a peso de ouro. Aquilo a que me refiro em concreto, é que a minha casa possui uma porta que não dá para lado algum, ou seja, por ela não se passa para outra divisão da casa ou sai-se dela para a rua. A porta e o umbral da porta abrem-se para um lugar que nunca vi mas onde é sempre noite, com estrelas e nebulosas a brilharem num céu que ocupa o lugar do que deveria ser o tecto da divisão. Sempre achei esta divisão aberrante, porque se a contorno (passando duma para outra das divisões que a rodeiam) o raciocínio a que chego é que ela terá pouco mais de dois metros quadrados, mas quando entro nela, caminhando a medo por um solo irregular e juncado de pedras redondas como seixos, a impressão que tenho é que ela não acaba nunca, e que poderia caminhar durante dias do mesmo modo que já o fiz por horas a fio, e ainda assim não lhe encontraria um fim. Devo dizer que descobri essa divisão de uma forma algo ilícita. Tendo alugado esta casa na montanha para passar uma temporada afastado de tudo e de todos, não tardei a encontrar a porta fechada com um cadeado, e como alguém que toma posse daquilo que é seu de direito, parti o cadeado e arrombei-a; quando estiver na hora de partir, reporei as coisas na sua ordem prévia e sairei daqui com a consciência leve como um pássaro. Voltando ao que dizia antes, não preciso sair daqui para viajar, o gesto sumário de cruzar o umbral da porta com uma passada faculta-me isso tudo, mas também devo confessar que é uma viagem muito pobre e sem graça, e naquele lugar faz frio como um raio, um frio que atravessa a porta como um vento gélido – nos dias em que não faço tenção de entrar ali, mantenho a porta encostada, calafetada com mantas velhas que dispus em torno do aro da porta. Hoje de manhã, há um par de horas, como ouvisse o vento a uivar pelas frinchas entre a porta e o umbral, empenhei-me em isolá-la o melhor que podia, e retirei-a do lugar. Notei então que a porta também possuía um cadeado da parte de dentro, arrombado da mesma forma que eu arrombei o que me impedia de entrar naquele quarto fechado. Agora que a isolei novamente e a recoloquei no lugar, não consigo deixar de pensar sobre a função desse cadeado, de quem o teria colocado lá, e para cerrar passagem a quem ou o quê? Talvez seja alguém como eu, que vive como um selvagem sob as estrelas e que se aventurou um dia até á casa onde pernoito para espiolhar os seus cantos e recantos. Não sei se tem alguma coisa a ver com isso, mas tenho tido a crescente sensação de que o meu reflexo no único espelho que encontro na casa, é distinto daquilo que eu sou ou pareço. Muitas vezes, ao sair do banho no meio do vapor do chuveiro, limpo o espelho e este devolve-me uma imagem alterada de mim, com o corpo e a face revestida duma penugem leve e dourada, e os meus olhos também me parecem diferentes, maiores e mais vítreos, como os olhos dos animais que se acostumaram a viver no escuro. Mas o que mais me impressiona é a pele das mãos – quando limpo o espelho com a palma das mãos, a pele parece-me mais alva e enrugada, como se estivesse exposta a um frio rigoroso, o que não é o caso. Esta imagem reflexa é efémera, e dissolve-se ao cabo dalguns minutos numa vibração de luz, como se me estivesse estado a contemplar ao luar na superfície dum lago ou charco. Dentro de uma semana, acaba o período de aluguer da casa, e não posso dizer que isso me vá trazer um grande desgosto; é verdade que tenho aproveitado o sossego para por as ideias em ordem e tentar escrever alguma coisa e que até tenho trabalhado com regularidade, mas não consigo abandonar a sensação de que nunca conseguirei fechar novamente aquela malfadada porta.

A sombra dos dias

               Um galão direto e uma torrada com pouca manteiga  - pediu a empregada no balcão à colega. Podia até ter pedido antes,...