Mãe Ercília, em atenção á quadra, queria que todos passassem a usar um gorro vermelho com borla branca, mas a família foi contra porque seria insensato, ela que usasse, se fazia tanto gosto nisso. A família de Mãe Ercília é uma quadrilha de carteiristas, chegaram a ser cinco, operando de preferência nas paragens de autocarro das linhas 15 e 23, mas hoje só conta com três membros, porque o mais novo preferiu acompanhar os tempos e converteu-se em hacker informático, e a irmã deste, logo que aprendeu a tabuada, começou a fazer contas á vida, e enveredou pela prostituição sob a tutela duma cadeia de hotéis. O M.O. da quadrilha da Mãe Ercília é básico e muito fácil de imitar, se o candidato reunir o talento e a descontracção exigidos. Como preâmbulo do golpe aguardam pelo autocarro com camuflagens cuidadas, fingem ser turistas, ou estudantes com estojos de máquinas fotográficas a tiracolo ou uma pasta gasta de mola; ao contrário deles, Mãe Ercília não muda de personagem, parece ser - e é, de certo modo - uma vendedeira de mercado, usa lenço na cabeça e avental com moedas a tilintar nos bolsos, é manifestamente gorda, de pernas grossas e peludas como caules de cacto e os braços de pregas de gordura bamboleantes apoiados na bengala nodosa. Quando chega o autocarro, a vítima potencial já está escolhida e catalogada. Há uma táctica habitual e rotineira que faz avançar Mãe Ercília ao lado da vítima, e dependendo de onde esteja a carteira que se quer roubar, ela sobe primeiro, parando no primeiro degrau do autocarro como se fosse cair para trás sobre o turista, enquanto a mão ágil do Manitas de Oro extrai a carteira do bolso, ao mesmo tempo que o seu primo Tomás, o Muleta, serve de escudo, ocultando a operação dos restantes utentes que querem entrar no autocarro; se a carteira estiver num sítio mais complicado, como no bolso interior do casaco ou gabardina, a opção é mesmo o abalroamento, o turista é prensado contra a esquina da porta pelos cento e trinta quilos de Mãe Ercília, e enquanto luta para não ser esmagado, fica sem a carteira num abrir e fechar de olhos. Muitas vezes, o manitas e o Tomás não chegam a entrar no autocarro e eclipsam-se entre as pessoas que passam, e nele segue apenas a matrona que compra o seu bilhete e fala muito alto com as pessoas, queixando-se da crise e do que custa ganhar a vida. Se a vítima der pela falta da carteira na altura de comprar o bilhete, não irá suspeitar daquela mulher que entrou consigo e permanece ali . Umas semanas antes, a quadrilha da Mãe Ercília teve um percalço. A vítima escolhida era um polícia á paisana, que se deixou roubar e depois seguiu Mãe Ercília até ela se reunir com os outros dois. Apareceu então em cena, não para os prender, mas para lhes exigir que lhe dessem todo o dinheiro que tinham roubado naquele dia, e para os pressionar, afirmou que um colega gravara a operação toda com a câmara dum telemóvel que trazia consigo, e num gesto teatral mete a mão ao bolso para puxar da prova incriminatória, mas o telemóvel tinha desaparecido, tal como os dois homens da quadrilha que desataram a correr como lebres antes que ele pudesse esboçar um protesto. Mãe Ercília sentara-se no chão e garantiu ao polícia que não conseguia andar, e que se ele a quisesse levar para a prisão, tinha de a carregar ao colo. O homem desistiu, desistiu de a prender e desistiu da quadrilha, receoso de que eles, por seu turno, tivessem gravado algum trecho do seu discurso com o seu próprio telemóvel. Passado o susto, a quadrilha de três retomou a sua rotina habitual, mas o percalço que tiveram em seguida perturbou ainda mais a matrona. A vítima era um tipo alto cujo rosto de barba grisalha fazia lembrar à Mãe Ercília a cara dum tipo que aparecia na capa dum livro numa montra do bairro (era Hemingway, mas ela não sabia o nome), e a vítima até prometia, trazia na cova do braço uma bolsa de cabedal castanho que parecia recheada. O fulano tinha uma cara bondosa e até parecia simpático, sorrindo para todos e sempre pronto a ceder a sua vez a quem queria entrar; ela aceitou o oferecimento e subiu á sua frente e quando ameaçou desabar para trás como uma árvore, o simpático ergueu os braços para a amparar, deixando cair a bolsa ao chão - dois toques com a biqueira do sapato do manitas de oro, e a bolsa foi escondida num casaco dobrado que Tomás carregava preso á ilharga. Quando se juntaram os três, abriram a bolsa e sentiram-se defraudados, não trazia dinheiro, apenas cartas. Mãe Ercília abriu uma na esperança de que trouxesse algum dinheiro - daquelas notas que as pessoas teimam em mandar por correio apesar de serem avisadas para não o fazerem - mas ficou surpreendida, era mesmo uma carta, e com um teor estranho, era uma carta ao Pai Natal escrito por uma criança de nome Rafael, trazia o desenho de uma árvore com enfeites, e uma lista de pedidos escrita numa caligrafia de adulto. Mãe Ercília abriu mais duas cartas, e teve diante dos olhos outras duas cartas ao Pai Natal, e começou a sentir uma angústia crescente. Será que…? Tomás e Manitas de Oro, esforçando-se para não se rirem dela, não deram importância ao caso, aquele tipo, afirmaram, deveria ser um empregado dos Correios, que levara trabalho para casa, cartas ao Pai Natal que fora incumbido de responder em nome do dito. Mas Mãe Ercília não se mostrou vencida nem convencida com o argumento. Passou a usar na cabeça um gorro vermelho com borla branca, e transporta o maço de cartas num dos bolsos do avental. Alimenta a esperança de reencontrar o homem de barba grisalha para as entregar. E, de preferência, antes de 25 de Dezembro.


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