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Apontamento

Natacha é uma boa senhora, afável e simpática dentro das limitações do seu português rudimentar, e tem o bom-senso de fazer um uso comedido das palavras, não vá a gente pensar que trocaria o trabalho que faz por duas ou três horas de conversa de chacha. Natacha é mulher-a-dias, eslava e enorme, que, um Sábado por mês, vou buscar à porta do prédio onde mora. Desconfia da utilidade do aspirador e evita usá-lo, porque não é artigo com que tenha sido criada, e aprendeu que se pode limpar impecavelmente uma casa sem precisar desse barroquismo tecnológico. Vemo-la a atacar o cotão e a sujidade com vassouras, panos e espanadores, e quando acaba, pode-se gastar os olhos e a digital do dedo indicador, que não encontramos defeitos que se possam apontar ao seu trabalho.
Do conhecimento circunstancial e rotineiro que tenho dessa criatura aplicada, ressaltam duas ou três impressões mais incomuns e raras. Natacha tem um método simples de descascar laranjas - que eu acabei por imitar - em vez de cravar o polegar na laranja e foçar a partir daí, usa uma faca e dá uns golpes superficiais e precisos na casca da laranja, paralelos, ou cruzados como se traçasse losangos, e quando se começa a descascar a laranja, o trabalho torna-se mais fácil.
Numa outra altura, enquanto ela se entregava ás limpezas, eu amassei massa para pão na cozinha e deixei-a na masseira de barro a levedar enquanto ia preparando o forno. Nas suas idas e vindas pela casa, Natacha cedeu à curiosidade e espreitou a massa. Como a visse abanar a cabeça, perguntei-lhe o que ela achava. Ela riu-se, um pouco constrangida como se tivesse sido apanhada em falta. Na aldeia onde fora criada, explicou-me, cozer pão era uma coisa muito séria, juntavam-se muitas famílias e os fornos trabalhavam sem descanso, se alguma coisa falhava por culpa duma família, a vergonha recaía sobre o bom nome dessa família. A sua massa está fraca, disse-me por fim. Concordei, não gosto de abusar no fermento porque se nota no sabor do pão cozido, nem de o dissolver em água quente porque esta coze parcialmente o fermento, retirando-lhe as faculdades, prefiro que a massa cresça devagar enquanto o forno aquece até embranquecer os tijolos que o revestem, e regozijo-me quando os pães crescem no forno e ficam bonitos e bem cozidos (quando ficam), mas tudo no seu tempo próprio, sem as urgências que fazem as pessoas atalhar nas suas tarefas, só para ganhar algum tempo, ao qual não darão um uso melhor. O que é que você faria? Perguntei a Natacha. Ela mostrou-mo sem palavras. Separou um alguidar de plástico que usamos para a roupa, encheu-o de água quente e colocou sobre ele a masseira de barro, de forma que o fundo desta não tocava na água quente. O calor e o vapor-de-água envolviam a massa. E foi só isso, um gesto sábio como um procedimento alquímico.
A outra impressão extra-ordinária que tive de Natacha, teve também uma origem casual. Vendo que ela se detinha a olhar a capa dum livro de Dostoiévski que deixara dessarrumado na sala, lembrei-me de lhe perguntar se gostava de ler Dostoiévski, o que depois me pareceu um pouco preconceituoso, porque os russos não têm a obrigação de conhecer ou ler Dostoiévski, como os espanhóis de serem versados em Cervantes ou os portugueses, de lerem os Lusíadas; mas Natacha limitou-se a responder que já o lera, que gostava das obras mas não do homem, porque Dostoiévski era racista. Como eu tivesse mostrado alguma surpresa, ela perguntou-me se tinha lido um dos seus livros, e disse-me o título em russo, do qual só retive a palavra Doma. Descobri depois que se tratava das "Recordações da Casa dos Mortos", tinha-o lido em tempos, com uns vinte e poucos anos, e na altura tinha achado que Soljenitsine o deveria ter tido na mesa de cabeceira, mas não era livro que gostasse de ler uma segunda vez, nem mesmo para conferir a apreciação de Natacha, que me parece capaz de descascar a literatura com a mesma desenvoltura com que descasca laranjas.

A sombra dos dias

               Um galão direto e uma torrada com pouca manteiga  - pediu a empregada no balcão à colega. Podia até ter pedido antes,...