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A mostrar mensagens de Dezembro, 2009

simetria

Os sacerdotes tremeram de pavor à aproximação do cometa. O mundo ia acabar, afiançavam, o cometa aparecia na altura exacta de atar os anos, e isso era um presságio funesto. Mas talvez fosse possível que eles poupassem o universo, e para isso, pediram voluntários para serem sacrificados na pirâmide sagrada ao deus do sol, patrono das luminárias do céu. Coatlatl, mulher nobre da linhagem real de Texcoco, foi uma das que se ofereceram, acometida dum fervor místico. Foi a primeira a subir as escadarias, deitou-se na pedra vermelha e deixou que lhe arrancassem o coração do peito. Quando o seu corpo tépido rolou pelas escadarias, outros voluntários se seguiram até se consumar a hecatombe. Sobre ela, o cometa brilhou intensamente com a cauda a rodar enquanto se afastava da terra e deixava de constituir uma ameaça. Enquanto todos gritavam de alegria com os olhos fixos no céu, Centlotzin, filho da piedosa Coatlatl, resgatou o seu corpo do monte de cadáveres aos pés da pirâmide e levou-a dali. …
O paleontólogo especializado em dinossauros, apaixonou-se por uma ornitóloga toda New Age. Iniciaram uma relação e decidiram casar-se. O enlace deu-se sob o signo do dragão.
Os órgãos internos daquela empresa, colaboravam num pacto silencioso de conhecimento e cumplicidade. O Menezes e o Faria dos pagamentos desviavam substanciais somas de dinheiro, e o administrador sabia, a Dona Glória dos Recursos Humanos fazia pequenas falcatruas, e o administrador sabia, o dr. Pacheco, o economista, cobrava indevidamente despesas de deslocação e almoço, e o administrador sabia, o assessor do administrador, o Morais, transferira dinheiro dos fundos de representação da empresa para uma conta pessoal, e o administrador sabia. De tudo isso e muito mais, sabia e consentia o administrador. Alheio a todas estas dóceis concordâncias, trabalhava o Rafael do Arquivo, um empregado dedicado que não se importava de trabalhar para além do seu horário de trabalho mesmo sem ser remunerado, e o administrador sabia disso. Um certo dia o Rafael, na hora de regressar a casa, lembrou-se de que ia precisar de agrafar uns panfletos que havia escrito, e que já não tinha agrafos em casa; e m…

ludo-palavras

O anúncio de um núncio com cio.
Não é preciso viajar muito para sairmos de onde estamos, nem mesmo sair de casa; e não falo nas experiências de passagem, evasão, que muitos encontram num ecrã de televisão ou monitor, ou no consolo duma garrafeira preenchida ou um punhado de droga que compraram a peso de ouro. Aquilo a que me refiro em concreto, é que a minha casa possui uma porta que não dá para lado algum, ou seja, por ela não se passa para outra divisão da casa ou sai-se dela para a rua. A porta e o umbral da porta abrem-se para um lugar que nunca vi mas onde é sempre noite, com estrelas e nebulosas a brilharem num céu que ocupa o lugar do que deveria ser o tecto da divisão. Sempre achei esta divisão aberrante, porque se a contorno (passando duma para outra das divisões que a rodeiam) o raciocínio a que chego é que ela terá pouco mais de dois metros quadrados, mas quando entro nela, caminhando a medo por um solo irregular e juncado de pedras redondas como seixos, a impressão que tenho é que ela não acaba nunca, e …

Mais surdos do que absurdos

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Em tempo de balanços e ressacas, organizei mais uma "colectânea" doméstica de textos deste blogue que ultrapassaram o prazo de validade.
Dei-lhe o título de Surdos e Absurdos, e coloquei-os em dois miradouros distintos: o SCRIBD, e o (howdo) YUDU, o primeiro mais prático, o outro mais elegante.
Chega atrasado como prenda de Natal, mas bem a tempo de fazer companhia ás passas do Ano Novo (não às do Algarve, espero).

Apontamento

Natacha é uma boa senhora, afável e simpática dentro das limitações do seu português rudimentar, e tem o bom-senso de fazer um uso comedido das palavras, não vá a gente pensar que trocaria o trabalho que faz por duas ou três horas de conversa de chacha. Natacha é mulher-a-dias, eslava e enorme, que, um Sábado por mês, vou buscar à porta do prédio onde mora. Desconfia da utilidade do aspirador e evita usá-lo, porque não é artigo com que tenha sido criada, e aprendeu que se pode limpar impecavelmente uma casa sem precisar desse barroquismo tecnológico. Vemo-la a atacar o cotão e a sujidade com vassouras, panos e espanadores, e quando acaba, pode-se gastar os olhos e a digital do dedo indicador, que não encontramos defeitos que se possam apontar ao seu trabalho. Do conhecimento circunstancial e rotineiro que tenho dessa criatura aplicada, ressaltam duas ou três impressões mais incomuns e raras. Natacha tem um método simples de descascar laranjas - que eu acabei por imitar - em vez de cra…

"greguería"

A bola de básquete, é apenas uma bola de râguebi a atravessar uma fase de obesidade mórbida.

2=1

A bela encontrou o monstro, no espelho, mas seguia procurando a bela que um dia vira em si mesma.

Não passava de um mentiroso patológico, e teve de ser operado de urgência quando uma verdade imprevista lhe ficou atravessada na garganta.

Do caminho árduo dos que catam palavras

Feliz Natal!

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(Paul Gauguin)


desnível

Andei à deriva nos corredores apinhados do Centro Comercial e à minha frente seguia um casal de mão dada de meia-idade, ele muito alto, uma bizarma, meio acorcovado para chegar à mulher que seguia ao seu lado, e esta esticava o braço para alcançar as pontas dos dedos dele, ela não era anã, mas era baixa, muito baixa mesmo. No meio do tropel de compradores desenfreados, ouvi a voz dele, doce e amantíssima: "Minha cara, vê por onde andas, que não quero que te ponham um pé em cima!".

War Games

O comandante Greg Micthell está sentado na sala de reuniões do porta-aviões nuclear, diante duma mesa com linhas quadriculadas com uma maquete das forças em combate - porta-aviões, contratorpedeiros, submarinos... A posição das unidades bélicas varia a cada minuto, mas um assessor do comandante vai movendo os modelos segundo a intuição do seu superior hierárquico.- 4-C - grita o comandante para o microfone - Fogo! - Água, meu comandante... - 9-F! Fogo! - Água de novo, meu comandante. - Bolas! - ruge o comandante - na academia eu até era bom nisto.

Gen., I, 26

O homem, o escriba, lembrou-se de escrever uma frase próspera: «Deus disse: “Façamos o homem à nossa imagem e semelhança”». O escriba pousou a cunha com que gravava numa tábua de barro, levantou-se e encheu o peito do ar. Repetiu aquelas palavras entredentes, desfrutando do seu eco sibilino. Deus no céu e o homem na terra, as duas pontas do mesmo eixo à volta do qual tudo rodava. Saiu da tenda e olhou em volta e achou que tinha razão em pensar assim, tudo estava ordenado e submetido pela sua vontade, os animais no curral, as plantas dóceis que cresciam nos campos amanhados, a acéquia que haviam criado para irrigar os campos, e as brasas que coruscavam no centro do terreiro como se guardassem o espírito do raio. Somos como Deus, disse para si, está tudo ao nosso dispor, como uma noiva no leito, uma noiva que podemos amar e cuidar, mas também desprezar, magoar, mutilar. Quando voltou para a tenda, o homem que se sentia um rei já concebera as palavras que se seguiriam: “Que ele reine sob…
O lobo disse ao ingénuo Pedro: Vai lá, diz que eu apareci e que quero comer-te o rebanho. E Pedro foi, e em vão, porque no regresso, não se via lobo nenhum, e as pessoas a quem pedira ajuda, olhavam-no com desconfiança. E o lobo repetiu a graça uma e outra vez até deixarem de acreditar nele, porque o lobo desaparecia e Pedro ficava cercado pela animosidade dos populares. E vendo que o lobo se divertia à sua custa, Pedro caiu em si e fez publicar um anúncio no jornal para se dissociar das partidas do lobo, e contactou um seu tio, advogado, para mover ao lobo uma acção judicial por danos morais e cívicos.

Mãe Ercília, em atenção á quadra, queria que todos passassem a usar um gorro vermelho com borla branca, mas a família foi contra porque seria insensato, ela que usasse, se fazia tanto gosto nisso. A família de Mãe Ercília é uma quadrilha de carteiristas, chegaram a ser cinco, operando de preferência nas paragens de autocarro das linhas 15 e 23, mas hoje só conta com três membros, porque o mais novo preferiu acompanhar os tempos e converteu-se em hacker informático, e a irmã deste, logo que aprendeu a tabuada, começou a fazer contas á vida, e enveredou pela prostituição sob a tutela duma cadeia de hotéis. O M.O. da quadrilha da Mãe Ercília é básico e muito fácil de imitar, se o candidato reunir o talento e a descontracção exigidos. Como preâmbulo do golpe aguardam pelo autocarro com camuflagens cuidadas, fingem ser turistas, ou estudantes com estojos de máquinas fotográficas a tiracolo ou uma pasta gasta de mola; ao contrário deles, Mãe Ercília não muda de personagem, parece ser - e é,…

fait-divers

Houve, dizem, um tremor de terra á 1.37 da manhã. Recebi dois éssémeésses ao respeito, o primeiro inquiria-me se o tinha ouvido, e respondi polidamente que os meus ouvidos, tal como o resto da minha pessoa, estavam a dormir por essa altura. A segunda mensagem transmitia-me uma reclamação irónica: “A estas horas é que o Berlusconi se lembrou de reagir, é mesmo típico do gajo!”.

(Estranho destino, o dos plátanos plácidos, a quem o frio vai despindo na sua bonomia, enquanto o vento espalha as suas roupas que dançam entre os nossos passos como se executassem um bailado de despedida)

Fábula corrida

Certo dia a lebre desafiou a tartaruga para uma corrida, gabando-se de que era mais rápida e que ela nunca a poderia vencer. A tartaruga aceitou o desafio, roendo-se por dentro por saber que a lebre tinha razão, e enquanto a pobre tartaruga treinava em desespero de causa, esticando as patas diminutas para fora da carapaça, a lebre ria-se ás gargalhadas enquanto dava ágeis saltos em volta, vencendo com cada salto a distância que a tartaruga completava ao fim de dez ou quinze passos esforçados. No dia da corrida, os animais da floresta vieram assistir, mas o seu começo foi francamente decepcionante para a tartaruga, que aos primeiros passos da corrida perdeu logo de vista a lebre que desapareceu numa nuvem de pó. A tartaruga teimou na corrida, e ao fim de algumas horas reencontrou a lebre, que confiante na sua vantagem e superioridade, se deitara á sombra de uma árvore a dormir. A tartaruga aproximou-se pata ante pata, e antes que a lebre acordasse, esmagou-lhe a cabeça com um pedregulh…

Um Ovni pousou na minha caixa de correio

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E porque acredito na vida inteligente extraterrestre, transcrevo o mail: Joan Margarit na Casa Fernando Pessoa Joan Margarit, uma das grandes figuras da poesia catalã contemporânea, lança o seu primeiro livro em Portugal a 14 de Dezembro, pelas 18.30h, na Casa Fernando Pessoa. Na sessão participará também o escritor Fernando Pinto do Amaral.Casa da Misericórdia tem chancela da ovni e tradução de Rita Custódio e Àlex Tarradellas, e recebeu, entre outros, o Prémio Nacional de Poesia em 2008, galardão conferido anualmente pelo Ministério de Cultura de Espanha à obra de poesia que mais se destaca em qualquer uma das línguas oficiais do país.Para mais informações, por favor consulte:Microsite OVNI dedicado à obra de Joan MargaritCasa da Misericórdia no site da OVNICasa Fernando Pessoa

Filmes: The Sixth Sense

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Postal ilustrado 3

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Postal ilustrado 2

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Postal ilustrado

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Adicto 1

Entrou em estado catatónico, quando o Casino fechou para obras

Adicto 2

Fumava muito, e tossia com frequência, é da cigarreira, comentava com os amigos. Um dia, no regresso a casa, o carro que conduzia derrapou no piso molhado e embateu contra uma árvore. Levado ao hospital, constataram que não parecia ter nada partido mas, como se queixasse de dores no peito, fizeram-lhe exames. Estes indicaram que não havia ossos partidos, mas que padecia de tuberculose em estado avançado. A enfermeira contou-lhe, rematando: “deve dar graças a Deus pelo acidente, assim, ainda pode ser tratado!”. Ele abriu muito os olhos, como se ela falasse chinamarquês, e inquiriu: “Quer isso dizer que eu não posso fumar?”.

Adicto 3

Depois do divórcio, ela começou a sentir estranheza na sua própria casa, e saía dela para a rua como se passasse duma para outra divisão dum prédio desabitado.

Um dia, há muito tempo, existiu alegria na sua casa, lembrava-se disso, mas há muito tempo que não a encontrava. Talvez tivesse caído por uma das frinchas do soalho ou talvez - quem sabe? - a tivesse aspirado sem querer.

Estamos no mês do Natal, lembrou-lhe a mulher com um leve tom de censura, devias tentar escrever coisas menos carregadas. A contragosto, ele teve de lhe dar razão, e começou a acrescentar aos dizeres que gravava com um cinzel em lápides funerárias, um pequeno motivo a um canto que evocava um ramo de azevinho.

Novas oportunidades

Até ao dia em que foi apanhado nas malhas da lei (quando já era demasiado grande), ele havia-se especializado no furto de viaturas, que eram desmontadas em peças para venda. Quando voltou á liberdade, decidiu inovar, e aplicou todo o seu know-how no comércio de órgãos humanos.

(É recompensador ter uma casa com varandas que se abrem para o mar - sonhador quando está coroado de nevoeiro, esplendoroso quando o sol se espelha nele, em sintonia connosco se nos sentimos melancólicos e o Mar se chama Negro).

O troco do desejo

Queixava-se e condoía-se de todos o ignorarem, e sentia-se infeliz porque não conseguia levar a cabo uma vida decente; hoje, queixa-se disto por estar entre os criminosos mais procurados.

Quando os pais trocaram a casinha humilde por um apartamento minúsculo na grande cidade, o menino sentiu-se atraiçoado. Não podiam fazer isto comigo, queixou-se, a nossa casa tinha passagens secretas e túneis camuflados que me levavam a cavernas cheias de tesouros. A mãe afagou-lhe os cabelos, compassiva, procurando fazer ver-lhe as vantagens da mudança – aqui também tens tudo isso, meu pequeno, são as escadas e os elevadores que conduzem ao pequeno shopping da cave.

Mudou de casa e mudou de lugar, mas ainda sentia que não era suficiente. Ao abandonar a toca ouviu o roçagar da pele velha que deixava atrás de si, e só então sentiu que a mudança estava completa.