INSTRUÇÕES:

Outros dados, e cartas, no final da página

simetria

Os sacerdotes tremeram de pavor à aproximação do cometa. O mundo ia acabar, afiançavam, o cometa aparecia na altura exacta de atar os anos, e isso era um presságio funesto. Mas talvez fosse possível que eles poupassem o universo, e para isso, pediram voluntários para serem sacrificados na pirâmide sagrada ao deus do sol, patrono das luminárias do céu. Coatlatl, mulher nobre da linhagem real de Texcoco, foi uma das que se ofereceram, acometida dum fervor místico. Foi a primeira a subir as escadarias, deitou-se na pedra vermelha e deixou que lhe arrancassem o coração do peito. Quando o seu corpo tépido rolou pelas escadarias, outros voluntários se seguiram até se consumar a hecatombe. Sobre ela, o cometa brilhou intensamente com a cauda a rodar enquanto se afastava da terra e deixava de constituir uma ameaça. Enquanto todos gritavam de alegria com os olhos fixos no céu, Centlotzin, filho da piedosa Coatlatl, resgatou o seu corpo do monte de cadáveres aos pés da pirâmide e levou-a dali. Em casa, encheu o buraco aberto no seu peito com papa de milho, mandou abrir em solo sagrado uma depressão no solo com a forma duma pirâmide invertida e enterrou-a ali. Ele sabia que também era preciso alimentar e contentar o sol nocturno, o patrono das potências do mundo inferior cujos olhos brilhavam como estrelas.

O paleontólogo especializado em dinossauros, apaixonou-se por uma ornitóloga toda New Age. Iniciaram uma relação e decidiram casar-se. O enlace deu-se sob o signo do dragão.
Os órgãos internos daquela empresa, colaboravam num pacto silencioso de conhecimento e cumplicidade. O Menezes e o Faria dos pagamentos desviavam substanciais somas de dinheiro, e o administrador sabia, a Dona Glória dos Recursos Humanos fazia pequenas falcatruas, e o administrador sabia, o dr. Pacheco, o economista, cobrava indevidamente despesas de deslocação e almoço, e o administrador sabia, o assessor do administrador, o Morais, transferira dinheiro dos fundos de representação da empresa para uma conta pessoal, e o administrador sabia. De tudo isso e muito mais, sabia e consentia o administrador. Alheio a todas estas dóceis concordâncias, trabalhava o Rafael do Arquivo, um empregado dedicado que não se importava de trabalhar para além do seu horário de trabalho mesmo sem ser remunerado, e o administrador sabia disso. Um certo dia o Rafael, na hora de regressar a casa, lembrou-se de que ia precisar de agrafar uns panfletos que havia escrito, e que já não tinha agrafos em casa; e meteu ao bolso uma caixa encetada de agrafos, acto infame que foi presenciado pela Dona Glória. No dia seguinte, esperava-o uma carta de despedimento por justa causa - acto enérgico que o administrador esperava que servisse de aviso a todos os prevaricadores.

ludo-palavras

O anúncio de um núncio com cio.

Não é preciso viajar muito para sairmos de onde estamos, nem mesmo sair de casa; e não falo nas experiências de passagem, evasão, que muitos encontram num ecrã de televisão ou monitor, ou no consolo duma garrafeira preenchida ou um punhado de droga que compraram a peso de ouro. Aquilo a que me refiro em concreto, é que a minha casa possui uma porta que não dá para lado algum, ou seja, por ela não se passa para outra divisão da casa ou sai-se dela para a rua. A porta e o umbral da porta abrem-se para um lugar que nunca vi mas onde é sempre noite, com estrelas e nebulosas a brilharem num céu que ocupa o lugar do que deveria ser o tecto da divisão. Sempre achei esta divisão aberrante, porque se a contorno (passando duma para outra das divisões que a rodeiam) o raciocínio a que chego é que ela terá pouco mais de dois metros quadrados, mas quando entro nela, caminhando a medo por um solo irregular e juncado de pedras redondas como seixos, a impressão que tenho é que ela não acaba nunca, e que poderia caminhar durante dias do mesmo modo que já o fiz por horas a fio, e ainda assim não lhe encontraria um fim. Devo dizer que descobri essa divisão de uma forma algo ilícita. Tendo alugado esta casa na montanha para passar uma temporada afastado de tudo e de todos, não tardei a encontrar a porta fechada com um cadeado, e como alguém que toma posse daquilo que é seu de direito, parti o cadeado e arrombei-a; quando estiver na hora de partir, reporei as coisas na sua ordem prévia e sairei daqui com a consciência leve como um pássaro. Voltando ao que dizia antes, não preciso sair daqui para viajar, o gesto sumário de cruzar o umbral da porta com uma passada faculta-me isso tudo, mas também devo confessar que é uma viagem muito pobre e sem graça, e naquele lugar faz frio como um raio, um frio que atravessa a porta como um vento gélido – nos dias em que não faço tenção de entrar ali, mantenho a porta encostada, calafetada com mantas velhas que dispus em torno do aro da porta. Hoje de manhã, há um par de horas, como ouvisse o vento a uivar pelas frinchas entre a porta e o umbral, empenhei-me em isolá-la o melhor que podia, e retirei-a do lugar. Notei então que a porta também possuía um cadeado da parte de dentro, arrombado da mesma forma que eu arrombei o que me impedia de entrar naquele quarto fechado. Agora que a isolei novamente e a recoloquei no lugar, não consigo deixar de pensar sobre a função desse cadeado, de quem o teria colocado lá, e para cerrar passagem a quem ou o quê? Talvez seja alguém como eu, que vive como um selvagem sob as estrelas e que se aventurou um dia até á casa onde pernoito para espiolhar os seus cantos e recantos. Não sei se tem alguma coisa a ver com isso, mas tenho tido a crescente sensação de que o meu reflexo no único espelho que encontro na casa, é distinto daquilo que eu sou ou pareço. Muitas vezes, ao sair do banho no meio do vapor do chuveiro, limpo o espelho e este devolve-me uma imagem alterada de mim, com o corpo e a face revestida duma penugem leve e dourada, e os meus olhos também me parecem diferentes, maiores e mais vítreos, como os olhos dos animais que se acostumaram a viver no escuro. Mas o que mais me impressiona é a pele das mãos – quando limpo o espelho com a palma das mãos, a pele parece-me mais alva e enrugada, como se estivesse exposta a um frio rigoroso, o que não é o caso. Esta imagem reflexa é efémera, e dissolve-se ao cabo dalguns minutos numa vibração de luz, como se me estivesse estado a contemplar ao luar na superfície dum lago ou charco. Dentro de uma semana, acaba o período de aluguer da casa, e não posso dizer que isso me vá trazer um grande desgosto; é verdade que tenho aproveitado o sossego para por as ideias em ordem e tentar escrever alguma coisa e que até tenho trabalhado com regularidade, mas não consigo abandonar a sensação de que nunca conseguirei fechar novamente aquela malfadada porta.

Mais surdos do que absurdos


Em tempo de balanços e ressacas, organizei mais uma "colectânea" doméstica de textos deste blogue que ultrapassaram o prazo de validade.

Dei-lhe o título de Surdos e Absurdos, e coloquei-os em dois miradouros distintos: o SCRIBD, e o (howdo) YUDU, o primeiro mais prático, o outro mais elegante.

Chega atrasado como prenda de Natal, mas bem a tempo de fazer companhia ás passas do Ano Novo (não às do Algarve, espero).

Apontamento

Natacha é uma boa senhora, afável e simpática dentro das limitações do seu português rudimentar, e tem o bom-senso de fazer um uso comedido das palavras, não vá a gente pensar que trocaria o trabalho que faz por duas ou três horas de conversa de chacha. Natacha é mulher-a-dias, eslava e enorme, que, um Sábado por mês, vou buscar à porta do prédio onde mora. Desconfia da utilidade do aspirador e evita usá-lo, porque não é artigo com que tenha sido criada, e aprendeu que se pode limpar impecavelmente uma casa sem precisar desse barroquismo tecnológico. Vemo-la a atacar o cotão e a sujidade com vassouras, panos e espanadores, e quando acaba, pode-se gastar os olhos e a digital do dedo indicador, que não encontramos defeitos que se possam apontar ao seu trabalho.
Do conhecimento circunstancial e rotineiro que tenho dessa criatura aplicada, ressaltam duas ou três impressões mais incomuns e raras. Natacha tem um método simples de descascar laranjas - que eu acabei por imitar - em vez de cravar o polegar na laranja e foçar a partir daí, usa uma faca e dá uns golpes superficiais e precisos na casca da laranja, paralelos, ou cruzados como se traçasse losangos, e quando se começa a descascar a laranja, o trabalho torna-se mais fácil.
Numa outra altura, enquanto ela se entregava ás limpezas, eu amassei massa para pão na cozinha e deixei-a na masseira de barro a levedar enquanto ia preparando o forno. Nas suas idas e vindas pela casa, Natacha cedeu à curiosidade e espreitou a massa. Como a visse abanar a cabeça, perguntei-lhe o que ela achava. Ela riu-se, um pouco constrangida como se tivesse sido apanhada em falta. Na aldeia onde fora criada, explicou-me, cozer pão era uma coisa muito séria, juntavam-se muitas famílias e os fornos trabalhavam sem descanso, se alguma coisa falhava por culpa duma família, a vergonha recaía sobre o bom nome dessa família. A sua massa está fraca, disse-me por fim. Concordei, não gosto de abusar no fermento porque se nota no sabor do pão cozido, nem de o dissolver em água quente porque esta coze parcialmente o fermento, retirando-lhe as faculdades, prefiro que a massa cresça devagar enquanto o forno aquece até embranquecer os tijolos que o revestem, e regozijo-me quando os pães crescem no forno e ficam bonitos e bem cozidos (quando ficam), mas tudo no seu tempo próprio, sem as urgências que fazem as pessoas atalhar nas suas tarefas, só para ganhar algum tempo, ao qual não darão um uso melhor. O que é que você faria? Perguntei a Natacha. Ela mostrou-mo sem palavras. Separou um alguidar de plástico que usamos para a roupa, encheu-o de água quente e colocou sobre ele a masseira de barro, de forma que o fundo desta não tocava na água quente. O calor e o vapor-de-água envolviam a massa. E foi só isso, um gesto sábio como um procedimento alquímico.
A outra impressão extra-ordinária que tive de Natacha, teve também uma origem casual. Vendo que ela se detinha a olhar a capa dum livro de Dostoiévski que deixara dessarrumado na sala, lembrei-me de lhe perguntar se gostava de ler Dostoiévski, o que depois me pareceu um pouco preconceituoso, porque os russos não têm a obrigação de conhecer ou ler Dostoiévski, como os espanhóis de serem versados em Cervantes ou os portugueses, de lerem os Lusíadas; mas Natacha limitou-se a responder que já o lera, que gostava das obras mas não do homem, porque Dostoiévski era racista. Como eu tivesse mostrado alguma surpresa, ela perguntou-me se tinha lido um dos seus livros, e disse-me o título em russo, do qual só retive a palavra Doma. Descobri depois que se tratava das "Recordações da Casa dos Mortos", tinha-o lido em tempos, com uns vinte e poucos anos, e na altura tinha achado que Soljenitsine o deveria ter tido na mesa de cabeceira, mas não era livro que gostasse de ler uma segunda vez, nem mesmo para conferir a apreciação de Natacha, que me parece capaz de descascar a literatura com a mesma desenvoltura com que descasca laranjas.

"greguería"

A bola de básquete, é apenas uma bola de râguebi a atravessar uma fase de obesidade mórbida.

2=1

A bela encontrou o monstro, no espelho, mas seguia procurando a bela que um dia vira em si mesma.

Não passava de um mentiroso patológico, e teve de ser operado de urgência quando uma verdade imprevista lhe ficou atravessada na garganta.



Do caminho árduo dos que catam palavras

A escrita é um exercício burguês, exige tempo, disponibilidade, cabeça. Falta-nos o tempo, enche-se-nos a cabeça dos ecos ainda tão vivos do cansaço, e nem uma palavra nos salta dos dedos. Resta-nos pousar a cabeça sobre o dorso do silêncio, fechar os olhos, cheirar uma flor africana.


desnível

Andei à deriva nos corredores apinhados do Centro Comercial e à minha frente seguia um casal de mão dada de meia-idade, ele muito alto, uma bizarma, meio acorcovado para chegar à mulher que seguia ao seu lado, e esta esticava o braço para alcançar as pontas dos dedos dele, ela não era anã, mas era baixa, muito baixa mesmo. No meio do tropel de compradores desenfreados, ouvi a voz dele, doce e amantíssima: "Minha cara, vê por onde andas, que não quero que te ponham um pé em cima!".


War Games

O comandante Greg Micthell está sentado na sala de reuniões do porta-aviões nuclear, diante duma mesa com linhas quadriculadas com uma maquete das forças em combate - porta-aviões, contratorpedeiros, submarinos... A posição das unidades bélicas varia a cada minuto, mas um assessor do comandante vai movendo os modelos segundo a intuição do seu superior hierárquico.
- 4-C - grita o comandante para o microfone - Fogo!
- Água, meu comandante...
- 9-F! Fogo!
- Água de novo, meu comandante.
- Bolas! - ruge o comandante - na academia eu até era bom nisto.

Gen., I, 26

O homem, o escriba, lembrou-se de escrever uma frase próspera: «Deus disse: “Façamos o homem à nossa imagem e semelhança”». O escriba pousou a cunha com que gravava numa tábua de barro, levantou-se e encheu o peito do ar. Repetiu aquelas palavras entredentes, desfrutando do seu eco sibilino. Deus no céu e o homem na terra, as duas pontas do mesmo eixo à volta do qual tudo rodava. Saiu da tenda e olhou em volta e achou que tinha razão em pensar assim, tudo estava ordenado e submetido pela sua vontade, os animais no curral, as plantas dóceis que cresciam nos campos amanhados, a acéquia que haviam criado para irrigar os campos, e as brasas que coruscavam no centro do terreiro como se guardassem o espírito do raio. Somos como Deus, disse para si, está tudo ao nosso dispor, como uma noiva no leito, uma noiva que podemos amar e cuidar, mas também desprezar, magoar, mutilar. Quando voltou para a tenda, o homem que se sentia um rei já concebera as palavras que se seguiriam: “Que ele reine sobre os peixes do mar, sobre as aves dos céus, sobre os animais domésticos e sobre toda a terra, e sobre todos os répteis que se arrastem sobre a terra”.

O lobo disse ao ingénuo Pedro: Vai lá, diz que eu apareci e que quero comer-te o rebanho. E Pedro foi, e em vão, porque no regresso, não se via lobo nenhum, e as pessoas a quem pedira ajuda, olhavam-no com desconfiança. E o lobo repetiu a graça uma e outra vez até deixarem de acreditar nele, porque o lobo desaparecia e Pedro ficava cercado pela animosidade dos populares. E vendo que o lobo se divertia à sua custa, Pedro caiu em si e fez publicar um anúncio no jornal para se dissociar das partidas do lobo, e contactou um seu tio, advogado, para mover ao lobo uma acção judicial por danos morais e cívicos.


Mãe Ercília, em atenção á quadra, queria que todos passassem a usar um gorro vermelho com borla branca, mas a família foi contra porque seria insensato, ela que usasse, se fazia tanto gosto nisso. A família de Mãe Ercília é uma quadrilha de carteiristas, chegaram a ser cinco, operando de preferência nas paragens de autocarro das linhas 15 e 23, mas hoje só conta com três membros, porque o mais novo preferiu acompanhar os tempos e converteu-se em hacker informático, e a irmã deste, logo que aprendeu a tabuada, começou a fazer contas á vida, e enveredou pela prostituição sob a tutela duma cadeia de hotéis. O M.O. da quadrilha da Mãe Ercília é básico e muito fácil de imitar, se o candidato reunir o talento e a descontracção exigidos. Como preâmbulo do golpe aguardam pelo autocarro com camuflagens cuidadas, fingem ser turistas, ou estudantes com estojos de máquinas fotográficas a tiracolo ou uma pasta gasta de mola; ao contrário deles, Mãe Ercília não muda de personagem, parece ser - e é, de certo modo - uma vendedeira de mercado, usa lenço na cabeça e avental com moedas a tilintar nos bolsos, é manifestamente gorda, de pernas grossas e peludas como caules de cacto e os braços de pregas de gordura bamboleantes apoiados na bengala nodosa. Quando chega o autocarro, a vítima potencial já está escolhida e catalogada. Há uma táctica habitual e rotineira que faz avançar Mãe Ercília ao lado da vítima, e dependendo de onde esteja a carteira que se quer roubar, ela sobe primeiro, parando no primeiro degrau do autocarro como se fosse cair para trás sobre o turista, enquanto a mão ágil do Manitas de Oro extrai a carteira do bolso, ao mesmo tempo que o seu primo Tomás, o Muleta, serve de escudo, ocultando a operação dos restantes utentes que querem entrar no autocarro; se a carteira estiver num sítio mais complicado, como no bolso interior do casaco ou gabardina, a opção é mesmo o abalroamento, o turista é prensado contra a esquina da porta pelos cento e trinta quilos de Mãe Ercília, e enquanto luta para não ser esmagado, fica sem a carteira num abrir e fechar de olhos. Muitas vezes, o manitas e o Tomás não chegam a entrar no autocarro e eclipsam-se entre as pessoas que passam, e nele segue apenas a matrona que compra o seu bilhete e fala muito alto com as pessoas, queixando-se da crise e do que custa ganhar a vida. Se a vítima der pela falta da carteira na altura de comprar o bilhete, não irá suspeitar daquela mulher que entrou consigo e permanece ali . Umas semanas antes, a quadrilha da Mãe Ercília teve um percalço. A vítima escolhida era um polícia á paisana, que se deixou roubar e depois seguiu Mãe Ercília até ela se reunir com os outros dois. Apareceu então em cena, não para os prender, mas para lhes exigir que lhe dessem todo o dinheiro que tinham roubado naquele dia, e para os pressionar, afirmou que um colega gravara a operação toda com a câmara dum telemóvel que trazia consigo, e num gesto teatral mete a mão ao bolso para puxar da prova incriminatória, mas o telemóvel tinha desaparecido, tal como os dois homens da quadrilha que desataram a correr como lebres antes que ele pudesse esboçar um protesto. Mãe Ercília sentara-se no chão e garantiu ao polícia que não conseguia andar, e que se ele a quisesse levar para a prisão, tinha de a carregar ao colo. O homem desistiu, desistiu de a prender e desistiu da quadrilha, receoso de que eles, por seu turno, tivessem gravado algum trecho do seu discurso com o seu próprio telemóvel. Passado o susto, a quadrilha de três retomou a sua rotina habitual, mas o percalço que tiveram em seguida perturbou ainda mais a matrona. A vítima era um tipo alto cujo rosto de barba grisalha fazia lembrar à Mãe Ercília a cara dum tipo que aparecia na capa dum livro numa montra do bairro (era Hemingway, mas ela não sabia o nome), e a vítima até prometia, trazia na cova do braço uma bolsa de cabedal castanho que parecia recheada. O fulano tinha uma cara bondosa e até parecia simpático, sorrindo para todos e sempre pronto a ceder a sua vez a quem queria entrar; ela aceitou o oferecimento e subiu á sua frente e quando ameaçou desabar para trás como uma árvore, o simpático ergueu os braços para a amparar, deixando cair a bolsa ao chão - dois toques com a biqueira do sapato do manitas de oro, e a bolsa foi escondida num casaco dobrado que Tomás carregava preso á ilharga. Quando se juntaram os três, abriram a bolsa e sentiram-se defraudados, não trazia dinheiro, apenas cartas. Mãe Ercília abriu uma na esperança de que trouxesse algum dinheiro - daquelas notas que as pessoas teimam em mandar por correio apesar de serem avisadas para não o fazerem - mas ficou surpreendida, era mesmo uma carta, e com um teor estranho, era uma carta ao Pai Natal escrito por uma criança de nome Rafael, trazia o desenho de uma árvore com enfeites, e uma lista de pedidos escrita numa caligrafia de adulto. Mãe Ercília abriu mais duas cartas, e teve diante dos olhos outras duas cartas ao Pai Natal, e começou a sentir uma angústia crescente. Será que…? Tomás e Manitas de Oro, esforçando-se para não se rirem dela, não deram importância ao caso, aquele tipo, afirmaram, deveria ser um empregado dos Correios, que levara trabalho para casa, cartas ao Pai Natal que fora incumbido de responder em nome do dito. Mas Mãe Ercília não se mostrou vencida nem convencida com o argumento. Passou a usar na cabeça um gorro vermelho com borla branca, e transporta o maço de cartas num dos bolsos do avental. Alimenta a esperança de reencontrar o homem de barba grisalha para as entregar. E, de preferência, antes de 25 de Dezembro.


fait-divers

Houve, dizem, um tremor de terra á 1.37 da manhã. Recebi dois éssémeésses ao respeito, o primeiro inquiria-me se o tinha ouvido, e respondi polidamente que os meus ouvidos, tal como o resto da minha pessoa, estavam a dormir por essa altura. A segunda mensagem transmitia-me uma reclamação irónica: “A estas horas é que o Berlusconi se lembrou de reagir, é mesmo típico do gajo!”.

(Estranho destino, o dos plátanos plácidos, a quem o frio vai despindo na sua bonomia, enquanto o vento espalha as suas roupas que dançam entre os nossos passos como se executassem um bailado de despedida)

Fábula corrida

Certo dia a lebre desafiou a tartaruga para uma corrida, gabando-se de que era mais rápida e que ela nunca a poderia vencer. A tartaruga aceitou o desafio, roendo-se por dentro por saber que a lebre tinha razão, e enquanto a pobre tartaruga treinava em desespero de causa, esticando as patas diminutas para fora da carapaça, a lebre ria-se ás gargalhadas enquanto dava ágeis saltos em volta, vencendo com cada salto a distância que a tartaruga completava ao fim de dez ou quinze passos esforçados. No dia da corrida, os animais da floresta vieram assistir, mas o seu começo foi francamente decepcionante para a tartaruga, que aos primeiros passos da corrida perdeu logo de vista a lebre que desapareceu numa nuvem de pó. A tartaruga teimou na corrida, e ao fim de algumas horas reencontrou a lebre, que confiante na sua vantagem e superioridade, se deitara á sombra de uma árvore a dormir. A tartaruga aproximou-se pata ante pata, e antes que a lebre acordasse, esmagou-lhe a cabeça com um pedregulho. E retomou então a corrida, chegando finalmente á meta ao fim dum par de horas, mas ao contrário do que esperava, não a receberam os animais da floresta, nem os vivas pelo seu triunfo. Apenas uma criatura o esperava na meta, uma tartaruga semelhante a ele, mas sem carapaça e com os olhos encovados e insones. Era a sua culpa.

Um Ovni pousou na minha caixa de correio

E porque acredito na vida inteligente extraterrestre, transcrevo o mail:

Casa da Misericórdia

Joan Margarit na Casa Fernando Pessoa

Joan Margarit, uma das grandes figuras da poesia catalã contemporânea, lança o seu primeiro livro em Portugal a 14 de Dezembro, pelas 18.30h, na Casa Fernando Pessoa. Na sessão participará também o escritor Fernando Pinto do Amaral.

Casa da Misericórdia tem chancela da ovni e tradução de Rita Custódio e Àlex Tarradellas, e recebeu, entre outros, o Prémio Nacional de Poesia em 2008, galardão conferido anualmente pelo Ministério de Cultura de Espanha à obra de poesia que mais se destaca em qualquer uma das línguas oficiais do país.

Para mais informações, por favor consulte:

Microsite OVNI dedicado à obra de Joan Margarit

Casa da Misericórdia no site da OVNI

Casa Fernando Pessoa

Filmes: The Sixth Sense

Postal ilustrado 3

Postal ilustrado 2

Postal ilustrado

Adicto 1

Entrou em estado catatónico, quando o Casino fechou para obras

Adicto 2

Fumava muito, e tossia com frequência, é da cigarreira, comentava com os amigos. Um dia, no regresso a casa, o carro que conduzia derrapou no piso molhado e embateu contra uma árvore. Levado ao hospital, constataram que não parecia ter nada partido mas, como se queixasse de dores no peito, fizeram-lhe exames. Estes indicaram que não havia ossos partidos, mas que padecia de tuberculose em estado avançado. A enfermeira contou-lhe, rematando: “deve dar graças a Deus pelo acidente, assim, ainda pode ser tratado!”. Ele abriu muito os olhos, como se ela falasse chinamarquês, e inquiriu: “Quer isso dizer que eu não posso fumar?”.

Adicto 3

Depois do divórcio, ela começou a sentir estranheza na sua própria casa, e saía dela para a rua como se passasse duma para outra divisão dum prédio desabitado.

Um dia, há muito tempo, existiu alegria na sua casa, lembrava-se disso, mas há muito tempo que não a encontrava. Talvez tivesse caído por uma das frinchas do soalho ou talvez - quem sabe? - a tivesse aspirado sem querer.

Estamos no mês do Natal, lembrou-lhe a mulher com um leve tom de censura, devias tentar escrever coisas menos carregadas. A contragosto, ele teve de lhe dar razão, e começou a acrescentar aos dizeres que gravava com um cinzel em lápides funerárias, um pequeno motivo a um canto que evocava um ramo de azevinho.

Novas oportunidades

Até ao dia em que foi apanhado nas malhas da lei (quando já era demasiado grande), ele havia-se especializado no furto de viaturas, que eram desmontadas em peças para venda. Quando voltou á liberdade, decidiu inovar, e aplicou todo o seu know-how no comércio de órgãos humanos.

(É recompensador ter uma casa com varandas que se abrem para o mar - sonhador quando está coroado de nevoeiro, esplendoroso quando o sol se espelha nele, em sintonia connosco se nos sentimos melancólicos e o Mar se chama Negro).

O troco do desejo

Queixava-se e condoía-se de todos o ignorarem, e sentia-se infeliz porque não conseguia levar a cabo uma vida decente; hoje, queixa-se disto por estar entre os criminosos mais procurados.

Quando os pais trocaram a casinha humilde por um apartamento minúsculo na grande cidade, o menino sentiu-se atraiçoado. Não podiam fazer isto comigo, queixou-se, a nossa casa tinha passagens secretas e túneis camuflados que me levavam a cavernas cheias de tesouros. A mãe afagou-lhe os cabelos, compassiva, procurando fazer ver-lhe as vantagens da mudança – aqui também tens tudo isso, meu pequeno, são as escadas e os elevadores que conduzem ao pequeno shopping da cave.

Mudou de casa e mudou de lugar, mas ainda sentia que não era suficiente. Ao abandonar a toca ouviu o roçagar da pele velha que deixava atrás de si, e só então sentiu que a mudança estava completa.

O mentor

Desenho anatómico executado por Leonardo Da Vinci (Royal Library, Castelo de Windsor)                 - Acorda, meu pequeno! Vais c...