A pétala no deserto

As redes sociais da Web prodigalizaram o encontro, e num sítio arrojado, um motel de má pinta na berma da estrada. Ela chegou primeiro, com óculos de lentes grossas, e os quadris gordos ataviados numa saia aos quadrados muito apertada que não conseguia suster a barriga que procurava disfarçar. Ela, Rosa de Luna era o seu nick, olhou nervosamente em volta e sentou-se na cama, de costas viradas para a porta, compondo a saia sobre os joelhos, e roendo as unhas já maltratadas. Pouco depois chegou Apollo, entrando a medo no quarto, esfregando as têmporas com as mãos suadas. Trajava umas calças de ganga, uma camisa de algodão de cores garridas e um casaco de napa por cima, com o colarinho levantado, como as estrelas pop dos eighties, quando ele e Rosa eram jovens. Apollo sentou-se também na cama, de costas para Rosa, e ambos permaneceram assim num profundo mutismo, apenas suavizado pelo sibilar ténue das suas respirações. Os minutos escoaram-se como horas. Algum tempo, ou muito, muito tempo depois dele ter entrado, algo de fortuito aconteceu. Ou foi ela que tentou puxar uma aba do cobertor para as pernas numa reacção involuntária ao som da chuva nas telhas, ou ele que esfregava no cobertor as palmas das mãos para as enxugar do seu transpirar nervoso, mas as mãos de ambos tocaram-se, sentiram o toque uma da outra, humanizaram-se no calor da pele. Deram-se as mãos, sempre de costas um para o outro, sem coragem para se olharem de frente, mas as suas mãos apertavam-se, os dedos conheciam-se e acariciavam-se, transidos de emoção. Passaram assim a noite, de mãos dadas no escuro para não se perderem, até o sono os vencer e adormecerem um ao lado do outro. A luz da manhã despertou-os, o rosto dum diante do rosto do outro, mas em posição invertida. Riram-se com gosto, e esse foi o início e o fim da única história de amor que os dois teriam para contar.

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