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A mostrar mensagens de Novembro, 2009

A pétala no deserto

As redes sociais da Web prodigalizaram o encontro, e num sítio arrojado, um motel de má pinta na berma da estrada. Ela chegou primeiro, com óculos de lentes grossas, e os quadris gordos ataviados numa saia aos quadrados muito apertada que não conseguia suster a barriga que procurava disfarçar. Ela, Rosa de Luna era o seu nick, olhou nervosamente em volta e sentou-se na cama, de costas viradas para a porta, compondo a saia sobre os joelhos, e roendo as unhas já maltratadas. Pouco depois chegou Apollo, entrando a medo no quarto, esfregando as têmporas com as mãos suadas. Trajava umas calças de ganga, uma camisa de algodão de cores garridas e um casaco de napa por cima, com o colarinho levantado, como as estrelas pop dos eighties, quando ele e Rosa eram jovens. Apollo sentou-se também na cama, de costas para Rosa, e ambos permaneceram assim num profundo mutismo, apenas suavizado pelo sibilar ténue das suas respirações. Os minutos escoaram-se como horas. Algum tempo, ou muito, muito tempo…
Saiu de casa para ir a uma consulta. O médico examinou-o, leu-lhe o Tarot e mandou interná-lo. Já na cama do hospital, a enfermeira nada enfermiça trouxe-lhe uma chávena de chá, e depois dele o beber, ela leu-lhe o futuro nas folhas de chá e instou-o a voltar a casa o mais depressa possível. Obedecendo, voltou a casa, e encontrou o médico com a sua mulher á volta dum ritual divinatório que envolvia um colchão de penas de ganso. Expulsou os dois de casa e entregou-se á dor, um personagem que cheirava a éter e a folhas de chá, e a dor só o devolveu à solidão da casa depois de lhe subtrair todo o dinheiro que ele ali guardava, mais o ganso das penas.

Depois de muitas horas de bares e copos, deu-lhe uma branca. Acordou numa cama que não era sua ao lado duma mulher branca completamente despida, e não sabia como é que tinha ido lá parar.

pensando nisso

Os paleontólogos descobriram um fóssil de dinossauro em cima duns ovos e chamaram-lhe Oviraptor, porque pensaram que se tratava dum ladrão de ovos. Se os paleontólogos do futuro descobrirem o fóssil da minha prima Adozinda, que trabalha num aviário, vão julgar ter encontrado uma mulher poedeira.
Tinha pé-de-atleta, mas só de um lado. Fez os 500 metros barreiras ao pé-coxinho.

divagação ociosa

O avesso é o oposto do direito, mas como é notório que todos vivemos um pouco avessados, quando se diz que alguém nos põe do avesso, significa que essa pessoa nos reconduz à nossa forma inicial, correcta, razão pela qual nos deveríamos sentir gratos por quem nos põe do avesso - vivermos comummente avessados torna impraticável fazer a barba ou cortar as unhas dos pés.

Gin Tónica

O linguista pediu um pires de sílabas tónicas para acompanhar o seu Gin.

monroísmo

- Não pode passar! - advertiu o guarda na sala de controlo do aeroporto – transporta demasiadas coisas.- Que coisas?! – protestou.- Memórias e vestígios da terra de onde veio, mercadorias ínfimas mas poderosas como o cheiro da terra ou a cor dos céus, o aroma duma pele de mulher, ou o resíduo de uma música do velho transístor das suas tardes de infância. Não o podemos deixar entrar aqui, as coisas que traz consigo podem contaminar de beleza a sociedade onde desejava integrar-se.- E o que é que vão fazer comigo? Não posso passar como um animal esviscerado, sem nada dentro.- Vai ser recambiado ás suas origens, terá de adiar ou realinhar a sua busca de prosperidade, mas deixe-me dizer-lhe, a título pessoal, que nós é que ficamos mais pobres por o deixarmos de fora.

Á Belenenses

O Velho do Restelo, um velho de aspecto venerando, plantado na areia da praia entre a multidão, gritava a plenos pulmões, tentando convencer os marinheiros a não embarcar nas naus, abandonando assim as mulheres e os filhos, censurava-os por renegarem a terra dos seus avós em nome duma aventura no desconhecido.- Não ides! - bramava - mas se tiverem mesmo de ir, tragam-nos na volta, um ou dois pontas-de-lança!

Do mal o menos

O transeunte deteve-se no passeio. Um homem com a cara protegida por uma máscara de filtro, pintava á pistola o gradeamento dum portão alto. Encheu-se de coragem e aproximou-se dele, saltando a fita vermelha e amarela que demarcava o espaço de segurança da pintura. - Desculpe, senhor, mas a sua máscara chamou-me a atenção, ela é muito diferente, é por causa do vírus h1n1? É algum tipo de protector especial? - Não – negou o homem com a voz nasalada – esta máscara é para me proteger do cheiro deste verniz, que é altamente tóxico, e o senhor não deveria estar no meio da nuvem a respirar este veneno. - Ah! Que pena! Eu tinha esperança que fosse alguma máscara nova, cem por cento garantida contra o vírus da gripe. - O senhor deveria afastar-se, o seu nariz está a aspirar este veneno todo, o senhor até corre risco de vida! - Na verdade, estou-me a sentir um pouco nauseado e com vontade de vomitar…mas como não é o vírus da gripe, não deve haver espiga.

Sangueira

Ele era uma pessoa fora de comum, um nobre, e como todas as pessoas fora de comum, mereceu um tratamento especial, estenderam-lhe uma comprida tapeçaria vermelha da base do primeiro degrau ao centro do estrado, onde estava pregado um outro tapete, também vermelho vivo, mas de forma quadrada. Ideia muito prática, que tivera o camponês a quem haviam encarregue de limpar o estrado onde fora montada a guilhotina.
O nosso grupo de amigos vinha de longe, primeiro, colegas de escola, alguns camaradas da tropa, todos sem nos perdermos de vista, e todos a colocar o mesmo empenho em arranjar um trabalho e uma casa e uma mulher. O primeiro a casar foi o Gonçalo, e marcamos a despedida de solteiro para a semana anterior ao evento, um jantar seguido de um sarau de copos e uma ronda pelos bares da onda. Éramos cinco e cabíamos todos no mesmo carro, e a quem é que iria calhar ir ao volante? Sobre isso não havia dúvidas, o Sérgio! O Sérgio não bebia, nunca bebia, era abstémio e frugal como um mórmon. Depois calhou a vez do Jacinto se casar, e nova despedida de solteiro e de novo o Sérgio a conduzir o carro dos folguedos. Na vez seguinte, a coisa não foi tão simples, era o próprio Sérgio que ia casar, marcou-se um dia para a despedida de solteiro, mas o Sérgio, que continuava a não beber, recusou-se a servir de motorista na sua própria festa, e a nenhum dos outros apeteceu-lhe passar uma noite de folia a b…
A velha senhora está a passear no meio do pinhal, colhe cogumelos para um saco, e ouve o ladrar de cães e os tiros de caçadores, não muito longe. Nisto passa uma lebre em fuga e ela incita como se rezasse – corre, lebre, corre! Concorrendo com estas palavras soa uma detonação muito perto, cujo eco nas árvores parece repetir: morre, lebre, morre!
Escreveu a sua autobiografia, que só foi publicada postumamente. A edição em papel não ficou como ele desejava porque não arranjou maneira de introduzir algumas correcções.

Cavalices

A chuva surpreendeu-os a todos enquanto compravam e comparavam no supermercado, uma chuva insistente, prolongada, imorredoura. As famílias que começavam a bater em retirada, estugavam o passo e ficaram imóveis junto á saída, como cavalos narcotizados. Seria uma temeridade sair para o parque de estacionamento com aquela chuva – o carrinho de compras carregado com as compras, e as crianças e eles de cabeça descoberta. Ficaram por ali, entreolhando-se e olhando a chuva, como se os outros ou a chuva pudessem apresentar uma solução á medida da pluviosidade incidente. Entrou então em cena Atalvino da Conceição, homem resoluto e desempoeirado que não se detinha com nada. Trazia um simples saco de compras – peixe congelado, ainda por cima, artigo que a chuva não assustava – mas trazia pela mão a filha pequena, Atalvina, miúda enfezadita que não se podia submeter aos rigores do tempo. O homem olhou os restantes, como os homens carismáticos costumam olhar os pobres de espírito que os seguem, e …

Fomos avisados!!

Ano de dois mil e doze, madrugada do dia vinte e dois de Dezembro. O argumentista de Hollywood acorda num bar de auto-estrada. Adormecera ás tantas sobre o tampo da mesa, rodeado de garrafas vazias de uísque. Boceja, e acende um cigarro, rezando para que não se incendeie o hálito da sua boca. Depois de coçar o umbigo descoberto pela camisa desfraldada, olha para o exterior pelas vidraças do bar. Está um dia esplêndido de sol, não há sinais do fim do mundo, nem mesmo a sombra ameaçadora de uma nuvenzita no céu claro. Com o cigarro no canto da boca, alivia-se no urinol, passaja as mãos por água, e aproxima-se do empregado que o olha através dumas olheiras de coruja.- Parece que o mundo não acabou mesmo. Queria pagar a conta…

Tendencialmente tristes,
as aves de hoje paradas no olhar.

O voo não chega
aos braços dos homens:
as asas ferem-lhes o rosto, cegam-nos.

Tendencialmente tristes,
os homens de hoje tiram penas
dos olhos.

Ficam comovidos e parados no olhar
das aves.

Ficam em terra.

Só um pássaro se anuncia,
veloz,
contra o céu.

(Filipa Leal, Cidade Líquida & Outras Texturas, Deriva Editores, 2006)

Noé

Noé juntou na sua arca todas as espécies animais do planeta, para as salvar do extermínio. Mas eram muitos os dias da arca sobre as águas, e umas vezes para matar a fome, outras para enganar o tédio, Noé e a família foram exterminando uma espécie atrás da outra. E nós continuamos o bom trabalho.

Noé 2

Noé juntou na sua arca todas as espécies animais do planeta, para as salvar do extermínio. Quando acabara de o fazer, entrou a mãe, que deu uma mirada pelo quarto e observou:- Bonito menino, fez a cama e arrumou a bicharada toda no baú!
Manuel viu-se a braços com muitos problemas na sua vida, e todos a desabarem sobre si ao mesmo tempo (mania muito comum aos problemas), e num dado passo, deixou de sorrir, assim mesmo, os lábios ficaram rijos como pedra, ou usando uma imagem mais orgânica, rijos como madeira. Os médicos não sabiam o que fazer, porque assim, Manuel não podia abrir a boca para ingerir os alimentos, e, de igual forma, não podia falar e comunicar com os outros. Mas os médicos são pessoas muito inteligentes que arranjam solução para tudo, e Manuel passou a ser alimentado por um tubo ligado ao estômago, e providenciaram-lhe um boneco de madeira para o qual o Manuel podia projectar a sua voz, suprindo as suas lacunas de comunicação. E a primeira coisa que Manuel ventrílocou para o seu boneco foi: “Que merda de comida!”

Quando abre a época da caça, aumenta o número de cães vitimados no alcatrão das estradas, eles que na sua inocência descem aos rios de asfalto em busca de presas abatidas ou dos seus próprios donos, perdidos deles, e são caçados ali pelos carros. Um qualquer tira-lhe a vida e os outros carros moem-nos, triturando os ossos e as vísceras numa papa a apodrecer à chuva e ao sol. (O céu dos cães deve ficar super-lotado nesta época).

Nevermore

Imagem
Numa tarde melancólica de Inverno, Edgar Allan Poe releu o poema que acabara de escrever, e constatou que ele estava imperfeito e que continha algumas gralhas. Exasperado, rasgou a folha de papel em mil pedacinhos e voltou a escrever o poema, de cabeça, fiando-se na sua memória e sentido do belo. Quando o releu, constatou que, desta feita, ele não tinha nenhuma gralha, mas em compensação, conseguiu inventariar nele, doze corvos de enfiada.

Quero lá saber!

Os moradores do prédio degradado não pintam o prédio, não limpam as escadas, não lavam o terraço amplo no topo. Não se lhes pode pedir muito, são inquilinos dos antigos que pagam uns tostões pela renda e que acordam todas as manhãs com a ansiedade de confirmarem se o prédio se mantém intacto, ou se houve alguma derrocada. Deste modo, o prédio já quase não tem tinta nas paredes, porque não cabe a eles pintá-lo, a sujidade e poças de urina nos degraus da escada também não são da sua conta e só têm de contornar o que lhes desagrada, e também não lembraria a nenhum deles ir varrer ou lavar o terraço no topo. Neste caso, ainda bem que é um terraço e ainda bem que chove. A água da chuva leva e lava tudo á frente, escoando-se defeituosamente pelas goteiras enferrujadas e cheias de buracos. Nesta última chuvada, a água que escorreu pela goteira vinha avermelhada, da cor do sangue, era visível nas paredes e no passeio junto ao prédio. Mas os moradores do prédio degradado não deram qualquer imp…

Cauteloso

A jovem dorme profundamente no seu leito, nua sob os lençóis, com o alvo pescoço a emergir deles como se tivesse sido afeiçoado em marfim. Na escuridão do quarto passeia-se o vampiro como um pirilampo, empunhando uma vela acesa. Está esfomeado, os dentes salientes a gotejar de sede e desejo, mas contém-se enquanto vasculha nos papéis dela, e na carteira abandonada em cima duma cómoda, procurando, caso haja, o seu último teste de HIV.

tsantza

Em outros tempos, os índios Jívaros cortavam a cabeça dos seus inimigos e encolhiam-nas até ficarem do tamanho dum punho. Mas isso foi em outros tempos, hoje, dizem, os Jívaros já não fazem isso. As cabeças, essas fazem pela vida, entregues á actividade política.

Pânico

Teve um pesadelo horrível, mau-sonhou que estava no meio duma cidade, mas na cidade não havia pessoas, apenas camaleões e rãs, por todo o lado, pendurados em cachos nos candeeiros de rua e nos túneis do metropolitano, a invadir todas as ruas e escadarias como marés vivas de milhares, milhões de seres coloridos e brilhantes, a agitar as línguas viscosas como chicotes ameaçadores. Foi então que acordou, e agitou as asas de alegria, pousada num cagalhoto de cão na berma duma estrada.

Libido

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reunião de família

Era uma família numerosa, doze irmãos, para não contabilizar outros quatro que haviam morrido á nascença. Os doze irmãos desde cedo seguiram os seus caminhos, estudos, empregos, vida no estrangeiro ou nas grandes cidades, e logo se deram conta de que se haviam deixado de ver por completo, que viviam vidas apartadas e estanques apesar da sincera afeição que cada um nutria pelos restantes. Reuniram-se ao fim de muitos anos no velório dos pais, atropelados ao atravessar uma rua – e gostaram de se verem e abraçarem, apesar das circunstâncias. Poucos anos depois, foi um dos irmãos que bateu as botas, e depois um outro – velório e mais um velório, e o reencontro dos irmãos saudosos, apesar das circunstâncias. No velório do terceiro irmão falecido, e num momento da noite de vigília em que as lágrimas haviam secado e o sono já pesava, um dos irmãos pensou em voz alta: “Gostaria que nos víssemos mais vezes, mas acho que desejar isso é capaz de atrair o azar…”.

Harold Haraldsen, escritor norueguês de diálogos para peças de teatro mímico, foi interpelado um dia por uma jornalista de Sandefjord que lhe perguntou porque é que ele era uma pessoa tão reservada e recusava-se sempre a dar entrevistas. Haraldsen respondeu que não via nenhuma utilidade ou proveito nisso, e que as pessoas teriam tanto interesse nisso como em saber para que lado é que acordava em cada manhã o rei Olavo V. A jornalista não se deu por vencida, e argumentou que, se ele se deixasse entrevistar, as pessoas poderiam conhecê-lo muito melhor. “Para isso, leiam o que eu escrevo!”, replicou logo Haraldsen.