Poesia reciclada

A vida, por vezes, usa para connosco de extrema e refinada ironia, quando o que nós desejaríamos é que as coisas fossem simples e claras e, já agora, favoráveis aos nossos propósitos e desejos. Todo o tempo que ele empregara na poesia tinha como fim último, ser publicado, conhecido, admirado. Agora, era um poeta publicado, e apenas isso, três ou quatro lançamentos do seu livro que foram mais ignorados do que o estribilho musical do amolador de tesouras e facas, uma pilha de exemplares no seu escritório que era suposto tentar vender ou dar, e um silêncio absoluto e esmagador sobre a importância da sua obra. Uma estatística da editora cifrara em cinquenta e dois, o número absoluto de exemplares vendidos da obra. O poeta achou que era altura de forçar a nota e obrigar o universo a dar-lhe o destaque que sabia merecer. A sua primeira jogada, foi criar uma figura fictícia em todas as redes sociais que conhecia, Twitter, Netlog, Facebook e quejandos, um personagem que odiava visceralmente os seus versos e todos os dias lançava insultos ordinários contra eles, estendendo o seu veneno á pessoa do seu autor. Acreditava que isso espicaçaria a curiosidade geral, mas, aparentemente, enganara-se. O livro continuava intocável nas livrarias mais próximas, prestes a ser transferido das novidades para as prateleiras temáticas onde se afundam no olvido. Voltou á carga, com uma queixa na polícia sobre as ameaças telefónicas que estava a receber, dirigidas por uma mulher psicopata que se intitulava Niila Objeccionista, e que pretendia que ele abjurasse da autoria da sua obra. A polícia não ligou nenhuma, e somou o seu segundo pontapé no ar, e começou a entrar em parafuso. Precisava de um golpe publicitário de arromba, do género de um auto-de-fé literário, ou um vídeo a circular na Net sobre o seu sequestro e tortura ás mãos da pseudo-Niila-sanguinária. Uma tentativa de suicídio também podia ser um bom rastilho para a notoriedade que desejava. Andava ele nestas elucubrações sombrias, quando o seu editor lhe telefonou a dizer que ia passar pela cidade e convidou-o para um petisco. Agendaram um encontro num restaurante conhecido. Era um homem afável e inteligente, o seu editor. Os dois reuniram-se a uma mesa num fim de tarde, a beber vinho e a comer umas lascas de presunto Pata Negra, e falaram de livros, autores e novidades, e só ao fim de umas horas é que o editor lhe disse ao que viera – tinham descoberto que o seu livro de versos não lhe pertencia, porque ele plagiara na íntegra um livro de poesia dos idos de quarenta de um autor pouco conhecido, e o seu único mérito fora actualizar a ortografia do original. O que quer que eu faça agora? Pergunta o putativo poeta. Nada! – Responde o editor – deixe assentar a poeira, porque isto vai passar. Até agora recebemos apenas um mail nesse sentido de um leitor seu, que disse ter ficado com a pulga atrás da orelha com as acusações que lhe fez um gajo qualquer no Facebook.

Mensagens populares deste blogue

A viagem

Abril de 1918 - o caminho para uma Primavera de sangue