INSTRUÇÕES:

Outros dados, e cartas, no final da página

O passante, á janela

Com um movimento suave dos braços, fez o seu Cessna 172 levantar voo do aeródromo de Ferrel, consultou o painel e manobrou o monomotor de modo a seguir a linha de costa da península de Peniche. Adorava a experiência de voar, só estar ali, sozinho nos ares, tornava mesquinho e tolerável o que quer que tivesse de suportar com o lastro dos seus pés na terra. E o Cessna estava um mimo, pintara-o todo de branco, e na parte inferior, com a ajuda dum artista, pintara a figura avantajada do seu ícone cinematográfico, Mae West, de pele nacarada e seios proeminentes, mal-contida dentro dum vestido vermelho decotado, e com uma pele de raposa em volta dos ombros. Fez oscilar as asas da avioneta para espreitar a Consolação, e depois fez um périplo sobre as ondas, arrancando uns acenos a uns pescadores dum barco ao largo. Quando se aproximava das Berlengas recebeu um pedido se socorro pela rádio, ouvia-se mal, com muita electricidade estática: «…gaivota…vou amarar junto aos Farilhões…»; à segunda vez percebeu que a mensagem indicava que ia amarar a sudeste dos Farilhões. «Pouca sorte, a do camarada», pensou enquanto mudava o curso da avioneta para localizar o piloto, «os Farilhões são pedregulhos a pique, não têm o raio duma praia para onde se possa nadar!». Avisou para terra, pedindo que accionassem os meios de resgate, enquanto ele iria tentar indicar com mais precisão onde é que o piloto poderia estar. Não tardou a avistar as ilhotas rochosas a poucas milhas das Berlengas, vistas assim do ar pareciam dois dinossauros petrificados á superfície, rodeados de rochas aguçadas de menores dimensões, baixou a sua avioneta e fez uma primeira incursão entre as duas ilhotas, a uma distância prudente das ondas, contornou a maior e depois a outra, descrevendo um voo em forma de oito, e sempre a perscrutar as ondas. Não avistou nada, nem destroços do avião, nem o piloto, parecia que o mar os tinha engolido. Talvez se baixasse um pouco mais…Sabendo os riscos que corria, aproximou ainda mais a avioneta do mar revolto, fez oscilar as asas do avião para melhor perscrutar o mar e foi aí que as hélices do motor apanharam uma gaivota em voo, que foi estraçalhada pelo metal tingindo o vidro de sangue, deixando-o ás cegas; quando; instintivamente procurou ganhar altitude para não embater contra os rochedos, o motor deu um estouro e apagou-se numa coluna de fumo. Conseguiu estabilizar a avioneta, virando os flaps para baixo e mantendo o nariz para cima enquanto o engenho se aproximava da água. Mayday, Mayday – gritou na rádio – tenho o motor destruído por uma gaivota e vou amarar junto aos Farilhões, a sudeste, creio, repito, vou amarar a sudeste dos Farilhões, Mayday…Nesse instante a avioneta bateu de chapa na água, saltou novamente, rodando sobre o seu centro, e deslizou demoradamente á tona da água. Lançando mão dum colete salva-vidas, saltou do habitáculo para a água e deu algumas braçadas, afastando-se do avioneta que mergulhava nas águas com uma das asas partidas a erguer-se no céu, como um braço que se despede. Flutuando nas ondas, vestiu por fim o colete e ficou á espera de socorro, estava inteiro e era isso que interessava, batera com a cabeça durante a queda, mas não tinha sangue, devia dar apenas um galo daqueles. Os rochedos ameaçadores também estavam a uma boa distância, e se sentisse que as ondas o arrastavam para lá, daria umas braçadas para manter a distância. Sentia-se optimista. Não tardaria que descobrissem, e não seria difícil encontrá-lo, havia destroços por todo o lado, o próprio pedaço da asa partida voltara á superfície e oscilava mansamente de encontro aos rochedos - vista do ar, seria o equivalente a uma seta branca apontada para si. Ainda se entretinha com estes pensamentos ociosos quando começou a ouvir o motor doutra avioneta. O monomotor surgiu por trás da ilhota grande, passou sobre a sua cabeça e continuou o voo rasante, desaparecendo atrás da silhueta da outra ilhota. Não o devia ter visto, mas, como era possível? O tipo devia ser cego! Continuou a ouvir o barulho do seu motor, e quando saiu novamente de detrás da ilhota grande, ergueu os braços ao alto e começou a gritar com força, olhando para cima. A avioneta passou a uns dez metros da sua cabeça, e o seu grito morreu-lhe na garganta. No bojo branco da avioneta, estava pintada a figura da Mae West, com o seu vestido decotado vermelho e a pele de raposa sobre os ombros.

(imagem de PATEB, no Google Earth)

Sem comentários:

Enviar um comentário

Rainha

                Subiu lesto os parcos degraus que separavam o átrio do hotel do recinto sobrelevado onde haviam instalado a receção. Ab...