O náufrago

O piloto solitário viu-se ainda mais só quando a sua avioneta caiu em pleno deserto. Dunas e mais dunas, um mar de areia a perder de vista. Experimentou o rádio, estava danificado, poderia usar a pistola de sinalização mas não estava certo de que valesse a pena. Vasculhou a bagagem á procura de algo que pudesse ser útil naquela situação espinhosa. Encontrou alguns víveres enlatados, uma garrafa de uísque velho, prenda de um amigo no aeroporto de Mogadíscio, e um camião grande em plástico que comprara numa feira para oferecer ao filho no regresso. Começa a anoitecer e ele de volta do rádio para o tentar reparar. Desiste ao lusco-fusco, as ferramentas semeadas em volta. Começa a fazer frio. Veste o casaco, e senta-se sob a asa da avioneta, come alguma coisa e despeja aos poucos a garrafa de uísque, aquecendo o estômago. A manhã vai encontrá-lo a dormir de lado, no mesmo lugar. Acorda com a luz, o espírito e as ideias refulgindo como os cristais de areia. Levanta-se sem demora, escreve um pedido de socorro numa folha de papel do diário, indicando a sua última posição conhecida, rasga um pedaço de tecido, e alivia o camião de brinquedo da sua cisterna e habitáculo. Associando os diferentes elementos, protege o seu bilhete num plástico, enrola-o e insere-o na garrafa de uísque vazia, esta é atada ao que sobreviveu do camião de plástico, e melhora a eficiência deste, estendendo o retalho de pano numa armação de caniço que prende ao camião como uma vela improvisada. Mal sente um sopro de brisa, chega-se á berma da duna onde o avião caíra, e executa a experiência. Pousado no chão, com as rodas largas a manter acima da areia o pouco peso que suportava, o camião começa a descer a duna com a pequena vela enfunada. O piloto solitário solta uma gargalhada de triunfo. As suas hipóteses de sobrevivência haviam aumentado exponencialmente.

(imagem: Wallpaper recolhido aqui)

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