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A mão no coração

Delfina suspeitava que o marido não lhe era fiel, mas não tinha certezas, falava-se miudamente nisso, aboquejavam-se rumores, comentários ténues, alusões rasteiras; mas Delfina queria mesmo saber, e pela boca dele. A conselho de Lucília, uma amiga e confidente, pôs em prática um método que ela dizia ser infalível. Esperou que o seu homem adormecesse - esperou um bom bocado, até que o seu sono fosse profundo e as narinas tremessem como foles de ferreiro - e então desabotoou o seu pijama, descobriu-lhe o peito, e pressionou contra ele a palma da sua mão, à altura do coração. Só então lhe fez a pergunta, de mansinho:
- Jorge, trais a tua mulher?
O seu corpo sacudiu-se no leito e fez uma careta, mas não abriu os olhos, continuava a dormir, mas, ainda assim, respondeu-lhe:
- Sim, traio com a Delfina, com quem me casei a seguir, e com a Rosa, que veio depois. A Mafalda e a Lucília não contam, porque já me separei delas...
Delfina ficou tão surpresa que aumentou involuntariamente a pressão sobre o seu peito, e o corpo do marido começou em espasmos. Aliviou logo a força empregue, e tranquilizou-o.
- Está tudo bem, Jorge, continua a dormir!
Manteve a mão sobre o seu peito, até estar segura de que a sua respiração normalizava. Abotoou-lhe o pijama e foi sentar-se diante do espelho da cómoda. Vivera enganada durante todo aquele tempo mas, no fim de contas, ela não era a mulher traída, era a própria adúltera, a outra, a que vive uma segunda vida em função de uma vida estranha e prioritária que se desenrola algures.
Alisou o cabelo que pendia sobre as suas têmporas, e achou que devia pintá-lo. Tinha de passar a preocupar-se mais com a sua aparência e com a roupa que usava. Não queria que o Jorge deixasse de se sentir atraído por ela, e pensasse em deixar de frequentar a sua casa.

Dicionário

                O “seu” dicionário não tinha muitas palavras, e entre estas, havia muitas quase virginais, intocadas, outras devassadas e p...