Acabaram-se os dias de nomadismo! - discursara a uma semana das eleições, o vereador para os Assuntos Sociais, no dia em que a comunidade cigana do concelho foi realojada no Bairro Social acabado de construir – acabaram-se as carroças e as casas improvisadas em aglomerado e zinco. A partir deste momento, estas casas são a terra onde crescerão as vossas raízes.

No coro de aplausos que coroou estas palavras, o avô Ramiro sentiu-se triste mas não o confessou a ninguém, não se resignava a ficar confinado entre quatro paredes, a deixar de ser livre, e já estava muito velho para mudar. Ao mesmo tempo, não queria que a sua família se apercebesse ou ficasse preocupada com ele, e assim, o avô Ramiro desenvolveu uma nova rotina - esperava, acordado na sua cama, até que todos estivessem a dormir, e depois agarrava num braçado de mantas e ia deitar-se no chão do telheiro, nas traseiras da casa, acalentado pelo cheiro da terra e pela procissão das estrelas no céu.


1 comentário:

  1. A ignorância absoluta dos valores particulares. A uniformidade burra que desconsidera a coexistência pacífica de singulares culturas que enriquecem a vida e a história humana!
    Senti-me na pele do ancião,parabéns José, lindo este texto!

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