INSTRUÇÕES:

Outros dados, e cartas, no final da página

Almas vivas

Passo o testemunho:

Próximo Sábado, 31 de Outubro, pelas 18h00, na Galeria Santa Clara, em Coimbra, (re)descubra Gógol pela voz dos seus tradutores, Nina Guerra e Filipe Guerra.

No mesmo dia e local, mas pelas 22 horas, Rui Manuel Amaral desfia o seu read-list de contos curtos de autores russos.


(Em baixo: versão de O Capote de Gogól, com arte de Noemí Villamuza)

Confrades

A mulher apanhada pelas ondas, vê-se aflita para se manter á tona da água, e pede ajuda aos gritos. Mas não há ninguém por perto, apenas gaivotas, mas como repete o pedido com desespero, acaba por ser ouvida e surge-lhe, a flutuar sobre as ondas, dois seres que lhe parecem familiares – Elvis Presley a surfar sobre uma guitarra, e Michael Jackson a fazer moonwalk em cima dum pato de borracha gigantesco.

- Viemos ajudar-te – anuncia Elvis – fomos reis na terra, e agora fomos eleitos anjos, para proteger as pessoas e fazer milagres.

Elvis estende-lhe um colar de maciços elos dourados, onde ela se suspende. É transportada pelos ares até á praia, onde firma os pés.

- Sentes-te bem? Precisas de mais alguma coisa? – Pergunta Michael Jackson entre dois gritos agudos.

- Sinto-me agoniada, mas vocês não têm a culpa. Digam ao vosso chefe, que os gostos musicais dele deixam muito a desejar.


oração incompleta

as palavras são fontes, ressequidas pelos nossos sentidos gastos, uma vez por outra alguém vê através delas, ouve o seu rumorejar, refresca-se ou corta-se no seu fio de água cristalino e musical, e as palavras

Antes de tudo acontecer

Noite funda, e ele sonha no sono que Deus é uma mulher, e que o leva pelo braço por uma ponte fumegante sobre um manto de neve. Acorda sem razão, e descobre a amante abraçada ao seu braço, os dois deitados lassos sobre os lençóis brancos como a neve. Olha então para o fundo escuro do quarto, e pergunta-se, aonde a ponte os levaria.



Por portas travessas, o inventário de esferográficas, clipes e agrafes da redacção, acabou reproduzido na secção literária do jornal como um exemplo de poesia concreta.

the pursuit of happyness

Fez uma busca no browser por felicidade, e este trouxe-lhe catorze milhões de resultados, mais coisa menos coisa; fez outra busca por amor, e desta vez os resultados daí resultantes eram para cima de duzentos milhões. Sentiu-se mais tranquilo, porque não parecia haver uma correspondência directa, e assim, talvez ainda tivesse hipóteses.


Como não soubesse para que lado se virar, subiu pela escada de incêndio.

Espirais

O cadáver foi encontrado num terreno baldio, muito mutilado. A polícia tomou conta do caso, havia que identificar a vítima, mas isso não seria tarefa fácil. Os olhos haviam sido arrancados, e cortadas as mãos - decerto que por causa das impressões digitais - e para além disso, o corpo apresentava-se esfolado num dos ombros e parte das costas, provavelmente, para remover alguma tatuagem significativa.
Isto é trabalho de profissionais, crime organizado, avaliou o inspector, mas nós não estamos na Idade da Pedra, temos o ADN!
O trabalho da polícia científica confirmou a opinião do inspector, aquilo era mesmo trabalho de profissionais - as moléculas de ADN tinham sido todas desenroladas.

Poesia reciclada

A vida, por vezes, usa para connosco de extrema e refinada ironia, quando o que nós desejaríamos é que as coisas fossem simples e claras e, já agora, favoráveis aos nossos propósitos e desejos. Todo o tempo que ele empregara na poesia tinha como fim último, ser publicado, conhecido, admirado. Agora, era um poeta publicado, e apenas isso, três ou quatro lançamentos do seu livro que foram mais ignorados do que o estribilho musical do amolador de tesouras e facas, uma pilha de exemplares no seu escritório que era suposto tentar vender ou dar, e um silêncio absoluto e esmagador sobre a importância da sua obra. Uma estatística da editora cifrara em cinquenta e dois, o número absoluto de exemplares vendidos da obra. O poeta achou que era altura de forçar a nota e obrigar o universo a dar-lhe o destaque que sabia merecer. A sua primeira jogada, foi criar uma figura fictícia em todas as redes sociais que conhecia, Twitter, Netlog, Facebook e quejandos, um personagem que odiava visceralmente os seus versos e todos os dias lançava insultos ordinários contra eles, estendendo o seu veneno á pessoa do seu autor. Acreditava que isso espicaçaria a curiosidade geral, mas, aparentemente, enganara-se. O livro continuava intocável nas livrarias mais próximas, prestes a ser transferido das novidades para as prateleiras temáticas onde se afundam no olvido. Voltou á carga, com uma queixa na polícia sobre as ameaças telefónicas que estava a receber, dirigidas por uma mulher psicopata que se intitulava Niila Objeccionista, e que pretendia que ele abjurasse da autoria da sua obra. A polícia não ligou nenhuma, e somou o seu segundo pontapé no ar, e começou a entrar em parafuso. Precisava de um golpe publicitário de arromba, do género de um auto-de-fé literário, ou um vídeo a circular na Net sobre o seu sequestro e tortura ás mãos da pseudo-Niila-sanguinária. Uma tentativa de suicídio também podia ser um bom rastilho para a notoriedade que desejava. Andava ele nestas elucubrações sombrias, quando o seu editor lhe telefonou a dizer que ia passar pela cidade e convidou-o para um petisco. Agendaram um encontro num restaurante conhecido. Era um homem afável e inteligente, o seu editor. Os dois reuniram-se a uma mesa num fim de tarde, a beber vinho e a comer umas lascas de presunto Pata Negra, e falaram de livros, autores e novidades, e só ao fim de umas horas é que o editor lhe disse ao que viera – tinham descoberto que o seu livro de versos não lhe pertencia, porque ele plagiara na íntegra um livro de poesia dos idos de quarenta de um autor pouco conhecido, e o seu único mérito fora actualizar a ortografia do original. O que quer que eu faça agora? Pergunta o putativo poeta. Nada! – Responde o editor – deixe assentar a poeira, porque isto vai passar. Até agora recebemos apenas um mail nesse sentido de um leitor seu, que disse ter ficado com a pulga atrás da orelha com as acusações que lhe fez um gajo qualquer no Facebook.

O náufrago

O piloto solitário viu-se ainda mais só quando a sua avioneta caiu em pleno deserto. Dunas e mais dunas, um mar de areia a perder de vista. Experimentou o rádio, estava danificado, poderia usar a pistola de sinalização mas não estava certo de que valesse a pena. Vasculhou a bagagem á procura de algo que pudesse ser útil naquela situação espinhosa. Encontrou alguns víveres enlatados, uma garrafa de uísque velho, prenda de um amigo no aeroporto de Mogadíscio, e um camião grande em plástico que comprara numa feira para oferecer ao filho no regresso. Começa a anoitecer e ele de volta do rádio para o tentar reparar. Desiste ao lusco-fusco, as ferramentas semeadas em volta. Começa a fazer frio. Veste o casaco, e senta-se sob a asa da avioneta, come alguma coisa e despeja aos poucos a garrafa de uísque, aquecendo o estômago. A manhã vai encontrá-lo a dormir de lado, no mesmo lugar. Acorda com a luz, o espírito e as ideias refulgindo como os cristais de areia. Levanta-se sem demora, escreve um pedido de socorro numa folha de papel do diário, indicando a sua última posição conhecida, rasga um pedaço de tecido, e alivia o camião de brinquedo da sua cisterna e habitáculo. Associando os diferentes elementos, protege o seu bilhete num plástico, enrola-o e insere-o na garrafa de uísque vazia, esta é atada ao que sobreviveu do camião de plástico, e melhora a eficiência deste, estendendo o retalho de pano numa armação de caniço que prende ao camião como uma vela improvisada. Mal sente um sopro de brisa, chega-se á berma da duna onde o avião caíra, e executa a experiência. Pousado no chão, com as rodas largas a manter acima da areia o pouco peso que suportava, o camião começa a descer a duna com a pequena vela enfunada. O piloto solitário solta uma gargalhada de triunfo. As suas hipóteses de sobrevivência haviam aumentado exponencialmente.

(imagem: Wallpaper recolhido aqui)

As lições da História

Conduzia o seu carro por uma estrada entre pinhais quando viu a figura humana caída no alcatrão. Investiu-se das suas qualidades samaritanas, parou o carro e aproximou-se do infortunado enquanto sacava do telemóvel para ligar para o número de emergência. Não era um acidentado, mas um pulha, que se levantou dum salto com um revólver na mão, espancou-o, e roubou-lhe a carteira e o carro, deixando-o semi-inconsciente, caído no alcatrão. Um pouco depois surge um outro carro na estrada, e o condutor vê-o deitado no alcatrão, mas, em vez de parar, acelera o carro e atropela-o (já fora roubado naquelas paragens e não o voltavam a enganar!).




Acabaram-se os dias de nomadismo! - discursara a uma semana das eleições, o vereador para os Assuntos Sociais, no dia em que a comunidade cigana do concelho foi realojada no Bairro Social acabado de construir – acabaram-se as carroças e as casas improvisadas em aglomerado e zinco. A partir deste momento, estas casas são a terra onde crescerão as vossas raízes.

No coro de aplausos que coroou estas palavras, o avô Ramiro sentiu-se triste mas não o confessou a ninguém, não se resignava a ficar confinado entre quatro paredes, a deixar de ser livre, e já estava muito velho para mudar. Ao mesmo tempo, não queria que a sua família se apercebesse ou ficasse preocupada com ele, e assim, o avô Ramiro desenvolveu uma nova rotina - esperava, acordado na sua cama, até que todos estivessem a dormir, e depois agarrava num braçado de mantas e ia deitar-se no chão do telheiro, nas traseiras da casa, acalentado pelo cheiro da terra e pela procissão das estrelas no céu.




Indizível, indescritível, intraduzível. Tudo o que pulsa e existe por si mesmo abaixo e além desta ponta gelada de icebergue onde erguemos os nossos castelos de cartas e palavras,
o sono do granito no seio da montanha, o piar dum corvo marinho num rochedo solitário no meio do mar, a luta fratricida num planeta distante que luz para nós como um ponto indiferente no espaço para o qual sorrimos na nossa ignorância
as ideias e palavras rodopiam nos ares como vaga-lumes bêbedos, esgotamo-nos nestes voos como se ambicionássemos apor clipes e agrafes na brisa e na água fluida.
Daí, esta sensação permanente de fatuidade
Daí, que nos vamos
calando

Toponímia urbana

Já tinha passado muito perto da Rua da Amargura, e espreitado o Beco do Fim, mas onde vivia mesmo, era na Praça do Marasmo, na esquina entre as confluentes Rua da Saudade e Travessa do Nunca.

Handicap

Jonas achava-se um ser desproporcionado. Sendo alto, possuía, achava ele, uns braços muito curtos, o que era flagrante na silhueta da sua sombra e na sua imagem reflectida no espelho. Para compensar essa sua deficiência física, Jonas abria e fechava os braços a espaços, para dar a impressão aos outros de que os seus braços eram maiores. E, efectivamente, começou a notar que os outros o olhavam com mais simpatia, não, como ele acreditava, por estarem ludibriados pelo seu truque com os braços, mas por julgarem tratar-se de mais um tolinho que queria levantar voo.

Handicap 2

A Baleia achava-se um ser desproporcionado. Sendo comprida como uma ilha era, no entanto, muito estreita e chã, quase como uma tábua. Para compensar essa sua deficiência física, imitou os golfinhos e acostumou-se a dar grandes saltos para fora de água, convencida de que isso a faria parecer mais gorda e saudável aos olhos de quem a observava. E efectivamente, isso a fez engordar um pouco quando, no decurso dum desses saltos, engoliu Jonas que cruzava os ares, a voar com a força dos braços.


Fim de tarde delicioso á beira-mar na enseada de S. Martinho do Porto, um sol em esplendor a dourar as águas, tingindo as colinas em redor de uma luminosidade pictórica, quase mediterrânica. Podia-se imaginar que se estava nas ilhas gregas ou em Siracusa, e aquela luz seria complacente com a fantasia. O turista sem dinheiro que viera a penates do norte da Europa, sente-se contagiar por aquele espectáculo de luz e calor. Pelo menos por aquela noite, ainda deveria estar safo, para se recolher uma vez mais num dos barcos que querenam na areia e adormecer sem medo da chuva. Dormir, mas só depois de uma refeição frugal. Desenrola o pequeno tapete que comprara na loja dos chineses, senta-se em posição de ioga e toca flauta (um trecho de Verdi, para condizer).


Para tranquilidade e paz d’alma do seu parceiro, começou a fingir que sentia prazer, e, por fim, fingia que sentia, simplesmente. Ele sentiu-se chocado quando ela saiu de casa, justo ela, que tinha tantos orgasmos que ele receava que o seu coração, um dia, não aguentasse.

Prenúncio

O sacerdote asteca sonhou que lhe roubavam do templo a estátua de ouro do deus Tonatiuh, homens barbudos cobertos de metal, retiravam-na da pirâmide, pisando um manto rubro de astecas mortos. Durante a noite, o sacerdote retirou o ícone do altar e tentou levá-lo para fora dali para o esconder em segurança, mas foi descoberto pelos seus pares, fazendo-o cair em desgraça. A sua mulher e filhos foram mortos em expiação e ele próprio foi destinado ao sacrifício no topo da pirâmide. Depois de noites continuadas de torturas com picos de agave e lâminas de obsidiana, encharcaram o seu estômago de pulque e exibiram-no diante da multidão em delírio antes de lhe arrancarem o seu coração do peito e projectarem o seu cadáver pela escadaria da pirâmide. Tonatiuh nada fez, abandonou o seu fiel sacerdote como acabou por abandonar o seu povo, embarcado num galeão depois de derretido em diferentes barras de ouro.

Esforço, Dedicação, Devoção e Glória!

O grande clube de futebol iniciara um declínio lento, uma espiral involutiva sob o peso de dirigentes medíocres e saqueadores oportunistas. Pouco a pouco, os bons resultados desportivos começaram a ser cada vez mais raros e o património mais rarefeito, sobretudo, o seu capital mais precioso, a devoção e confiança dos adeptos. Um dia, sem grandes surpresas, fechou as portas, calando ao mundo a visão dos empresários-abutres que lhe disputavam os restos mortais como haviam disputado os parcos bens que antes conservava. E o que fazer com Leo, o envelhecido mascote do clube? Gracinda, mulher-a-dias e adepta ferrenha do clube, ofereceu-se para ficar com ele. Sem que ninguém se opusesse, levou o leão pela trela até ao seu apartamento, abriu-lhe uma lata de comida para gatos, e escovou-lhe a juba enquanto assistiam os dois à telenovela da noite.

No sábado anterior e no sábado antes desse e em todos os da sua vida austera de reformado, ele cumpria o mesmo ritual - vestia o seu fato puído e a sua gravata descorada, tirava do guarda-fatos a sua mala com rodinhas e ia sentar-se durante algumas horas na sala de espera do aeroporto, com o passaporte seguro nas mãos suadas e o olhar inseguro a seguir os movimentos dos aviões na pista.

Mas isso foi no sábado anterior e no sábado antes desse e em todos os da sua vida austera de reformado, porque hoje ele não foi ao aeroporto, ficou em casa, a escrever uma carta aberta para um jornal diário, onde comenta amargamente os transtornos causados pela greve de pilotos.


(imagem daqui)

Conversa de charco

«A nossa tradição não vale uma mosca – lamentou-se o sapo – não é que eu beijei uma princesa nojenta, e ela ficou na mesma?».

O primeiro encontro deles foi muito romântico, um jantar á luz das velas, e as coisas acabaram por se acertar entre os dois, e depois de mais alguns encontros, começaram a viver juntos, mas o romantismo se foi perdendo devido ao contexto. Ela ainda se lembra de como lhe parecera romântico o primeiro jantar á luz das velas, mas jantar todos os dias assim, numa casa sem luz eléctrica, era algo que lhe parecia excessivo.

Oito vidas perdidas, e o gato ficou mais sábio e cauteloso. Continua a sair de noite para ir ás gatas - isso nem a redundância da morte lhe tirou - mas não sai ás cegas, aprendeu a estar atento à aproximação de cães, a evitar o convívio dos humanos - que eles, há cada um - e quando precisa de atravessar uma rua ou uma estrada, o nosso gato não o faz sem olhar bem para um lado e para o outro, e usa sempre as passadeiras, pisando o alcatrão como se caminhasse por uma passarelle, vaidoso do brilho do seu colete reflector.


A insónia era a monosonia das suas noites quando o dia fazia o favor de se retirar e ele quedava desperto como uma estátua faraónica esculpida com os olhos abertos sabia ser inúteis todos os esforços e desforços para a contrariar enfiar a cabeça na almofada cobrir a cabeça escurecer o quarto ler Platão o sono não vinha andava lá por fora na folia até de madrugada então sim viria aos primeiros sinais de luz insinuando-se no seu corpo esgotado e empestando-o com os vapores do álcool e o perfume barato dos lupanares Quando sentia que já ia longa a noite acendia uma vela e andava com ela pela casa como uma alma penada Não que tivesse medo do escuridão mas sabia ser conveniente acender uma vela para acender o dia e abreviar o seu tormento



- O meu amor por ti, tem a majestade desta montanha!

Ela sorriu, enternecida.

- E irradia pelos céus como estes cedros de ramos estendidos, e dança em volta de ti como estes estorninhos sequiosos que cantam diante da visão do teu corpo fluido.

Ela não coube em si de contente, e a sua alegria fê-la abandonar as margens que a cingiam, e o planalto onde repousara até aí, correndo com um murmúrio alegre pela pele da montanha que a amava, dessendentando numa dádiva de amor os estorninhos e os cedros solitários.

Link


Assisti ontem na RtpN, a um belo momento de televisão, a entrevista a Luís Sepúlveda, conduzida pelo senhor escritor José Rodrigues dos Santos (não tivesse a rubrica o nome de Conversa de Escritores), sinal menos para o português, que conseguiu alinhavar várias perguntas coxas e pretensiosas, nascidas da sua aparente incapacidade para analisar uma obra literária, e muito mérito para Luís Sepúlveda, um homem extremamente inteligente e lúcido, que conseguiu transmitir-nos sem esforço, a riqueza da sua sensibilidade e da sua experiência de vida.


35ª conversa parva

- A minha auto-estima está nas últimas, tratam-me e sinto-me abaixo de cão.
- De que cão? Um rafeiro de raça escassa, um cão com pedigree, ou um cão d'arma?
- Um cão rafeiro, sem dúvida!
- Ah! Então não estejas sempre a apoucar-te, porque ainda tens muitos cães acima de ti...

Hollywood global

"Tróia" de Wolfgang Petersen, é um filme de 2004, inspirado ao de leve nas obras de Homero. Na altura, assisti à estreia cinematográfica e não posso dizer que tenha gostado muito, tem acção, adereços, muitos figurantes, e uma cuidada recriação do época lendária dos heróis aqueus e troianos...ou talvez não.
Há uma cena que gostaria de recomendar, logo no princípio do filme, quando a armada grega se aproxima de Tróia. Numa praça da cidade, e sob os clamores de alerta, o povo entra em pânico, vêem-se pessoas e animais a correr de um lado para o outro, para se abrigarem nas suas casas. No meio da confusão, e entre humanos, burros e cabras, surgem-nos dois lamas dos Andes a ser conduzidos pelos seus donos.
Talvez esteja aqui implícita uma homenagem aos feitos marítimos dos Troianos, não sei, mas para quem não tiver reparado no pormenor e tenha curiosidade, ele é visível no trailer infra, ao minuto 1:59.

Há-de haver sempre ursos à engorda, que se alimentam dos salmões escorreitos que lutam contra a corrente, mas o curioso disto, é que os salmões que escapam ás garras e aos dentes afiados dos predadores, acabam por se instalar numa rocha ou numa restinga, adquirem pêlo, orelhas e barriga, e acabam a tentar abocanhar os novos salmões que principiam a subir o rio.

(Nota: isto não é uma alegoria sobre percursos políticos canibalescos, é apenas um texto produzido na hora de cear).

O passante, á janela

Com um movimento suave dos braços, fez o seu Cessna 172 levantar voo do aeródromo de Ferrel, consultou o painel e manobrou o monomotor de modo a seguir a linha de costa da península de Peniche. Adorava a experiência de voar, só estar ali, sozinho nos ares, tornava mesquinho e tolerável o que quer que tivesse de suportar com o lastro dos seus pés na terra. E o Cessna estava um mimo, pintara-o todo de branco, e na parte inferior, com a ajuda dum artista, pintara a figura avantajada do seu ícone cinematográfico, Mae West, de pele nacarada e seios proeminentes, mal-contida dentro dum vestido vermelho decotado, e com uma pele de raposa em volta dos ombros. Fez oscilar as asas da avioneta para espreitar a Consolação, e depois fez um périplo sobre as ondas, arrancando uns acenos a uns pescadores dum barco ao largo. Quando se aproximava das Berlengas recebeu um pedido se socorro pela rádio, ouvia-se mal, com muita electricidade estática: «…gaivota…vou amarar junto aos Farilhões…»; à segunda vez percebeu que a mensagem indicava que ia amarar a sudeste dos Farilhões. «Pouca sorte, a do camarada», pensou enquanto mudava o curso da avioneta para localizar o piloto, «os Farilhões são pedregulhos a pique, não têm o raio duma praia para onde se possa nadar!». Avisou para terra, pedindo que accionassem os meios de resgate, enquanto ele iria tentar indicar com mais precisão onde é que o piloto poderia estar. Não tardou a avistar as ilhotas rochosas a poucas milhas das Berlengas, vistas assim do ar pareciam dois dinossauros petrificados á superfície, rodeados de rochas aguçadas de menores dimensões, baixou a sua avioneta e fez uma primeira incursão entre as duas ilhotas, a uma distância prudente das ondas, contornou a maior e depois a outra, descrevendo um voo em forma de oito, e sempre a perscrutar as ondas. Não avistou nada, nem destroços do avião, nem o piloto, parecia que o mar os tinha engolido. Talvez se baixasse um pouco mais…Sabendo os riscos que corria, aproximou ainda mais a avioneta do mar revolto, fez oscilar as asas do avião para melhor perscrutar o mar e foi aí que as hélices do motor apanharam uma gaivota em voo, que foi estraçalhada pelo metal tingindo o vidro de sangue, deixando-o ás cegas; quando; instintivamente procurou ganhar altitude para não embater contra os rochedos, o motor deu um estouro e apagou-se numa coluna de fumo. Conseguiu estabilizar a avioneta, virando os flaps para baixo e mantendo o nariz para cima enquanto o engenho se aproximava da água. Mayday, Mayday – gritou na rádio – tenho o motor destruído por uma gaivota e vou amarar junto aos Farilhões, a sudeste, creio, repito, vou amarar a sudeste dos Farilhões, Mayday…Nesse instante a avioneta bateu de chapa na água, saltou novamente, rodando sobre o seu centro, e deslizou demoradamente á tona da água. Lançando mão dum colete salva-vidas, saltou do habitáculo para a água e deu algumas braçadas, afastando-se do avioneta que mergulhava nas águas com uma das asas partidas a erguer-se no céu, como um braço que se despede. Flutuando nas ondas, vestiu por fim o colete e ficou á espera de socorro, estava inteiro e era isso que interessava, batera com a cabeça durante a queda, mas não tinha sangue, devia dar apenas um galo daqueles. Os rochedos ameaçadores também estavam a uma boa distância, e se sentisse que as ondas o arrastavam para lá, daria umas braçadas para manter a distância. Sentia-se optimista. Não tardaria que descobrissem, e não seria difícil encontrá-lo, havia destroços por todo o lado, o próprio pedaço da asa partida voltara á superfície e oscilava mansamente de encontro aos rochedos - vista do ar, seria o equivalente a uma seta branca apontada para si. Ainda se entretinha com estes pensamentos ociosos quando começou a ouvir o motor doutra avioneta. O monomotor surgiu por trás da ilhota grande, passou sobre a sua cabeça e continuou o voo rasante, desaparecendo atrás da silhueta da outra ilhota. Não o devia ter visto, mas, como era possível? O tipo devia ser cego! Continuou a ouvir o barulho do seu motor, e quando saiu novamente de detrás da ilhota grande, ergueu os braços ao alto e começou a gritar com força, olhando para cima. A avioneta passou a uns dez metros da sua cabeça, e o seu grito morreu-lhe na garganta. No bojo branco da avioneta, estava pintada a figura da Mae West, com o seu vestido decotado vermelho e a pele de raposa sobre os ombros.

(imagem de PATEB, no Google Earth)

A mão no coração

Delfina suspeitava que o marido não lhe era fiel, mas não tinha certezas, falava-se miudamente nisso, aboquejavam-se rumores, comentários ténues, alusões rasteiras; mas Delfina queria mesmo saber, e pela boca dele. A conselho de Lucília, uma amiga e confidente, pôs em prática um método que ela dizia ser infalível. Esperou que o seu homem adormecesse - esperou um bom bocado, até que o seu sono fosse profundo e as narinas tremessem como foles de ferreiro - e então desabotoou o seu pijama, descobriu-lhe o peito, e pressionou contra ele a palma da sua mão, à altura do coração. Só então lhe fez a pergunta, de mansinho:
- Jorge, trais a tua mulher?
O seu corpo sacudiu-se no leito e fez uma careta, mas não abriu os olhos, continuava a dormir, mas, ainda assim, respondeu-lhe:
- Sim, traio com a Delfina, com quem me casei a seguir, e com a Rosa, que veio depois. A Mafalda e a Lucília não contam, porque já me separei delas...
Delfina ficou tão surpresa que aumentou involuntariamente a pressão sobre o seu peito, e o corpo do marido começou em espasmos. Aliviou logo a força empregue, e tranquilizou-o.
- Está tudo bem, Jorge, continua a dormir!
Manteve a mão sobre o seu peito, até estar segura de que a sua respiração normalizava. Abotoou-lhe o pijama e foi sentar-se diante do espelho da cómoda. Vivera enganada durante todo aquele tempo mas, no fim de contas, ela não era a mulher traída, era a própria adúltera, a outra, a que vive uma segunda vida em função de uma vida estranha e prioritária que se desenrola algures.
Alisou o cabelo que pendia sobre as suas têmporas, e achou que devia pintá-lo. Tinha de passar a preocupar-se mais com a sua aparência e com a roupa que usava. Não queria que o Jorge deixasse de se sentir atraído por ela, e pensasse em deixar de frequentar a sua casa.

Magritte anglófono


THIS IS NOT A PIPE!

Uma pessoa letrada

«Sou muito bom a soletrar - vangloriou-se - a minha dificuldade está em sopalavrear e sofrasear!».

Epílogo

No silêncio da casa deserta,
o deserto e o silêncio eram a sua ferida, aberta.

Epílogo 2

O pequeno café da aldeia, tinha uma sala arejada e limpa onde serviam refeições, e uma sala contígua, imersa na penumbra, que fazia as vezes de café e taberna. Era aí que ele se escondia como numa loca, numa mesa de canto onde bebia sozinho a sua aguardente, dissolvendo-se no seu torpor estúpido como uma ponte de granito que se submerge nas águas turvas e lodosas duma enxurrada. Os outros frequentadores, por vezes, metiam-se com ele, perguntando-lhe se a sua aguardente ainda ardia, ao que ele sempre respondia: «Não é uma água ardente, é uma água de mágoas».
Stefano Valente possui um novo espaço, O Sonho do Minotauro, em cujo labirinto já entrou um texto meu (obrigado!).
A julgar pela imagem do espaço, o Minotauro sonhava com o seu fim ás mãos de Teseu.

Rainha

                Subiu lesto os parcos degraus que separavam o átrio do hotel do recinto sobrelevado onde haviam instalado a receção. Ab...